Capítulo 23

2150 Words
Se uma música triste pudesse tocar e pudesse representar a dor de Gisele, ela pediria para que o mundo chorasse um pouco com ela. Foi uma longa reunião de abraços e conforto enquanto suas amigas se compadeciam com sua situação e Kelly, principalmente, se colocou à frente do caso para aliviar um pouco a pobre Elaine. O que mais a chocou foi como Gisele saiu afetada. A garota indecisa guardava em silêncio a dor de não ter aceitado a eternidade de imediato e ponderado sua indecisão acima de tudo. Gisele olhava para todo Stariano dourado que via na esperança de ver Darius novamente e Kelly notou isso. Ela também notou que Gisele estava mais à vontade com a vida Stariana, uma vez que quase foi assassinada por uma mulher, Gisele passou a ter mais confiança na vontade da vida de Starian. — É o que acontece com todo mundo que vem para cá. — Elaine notou Kelly observando Gisele à distância enquanto passava pela porta da sala de reuniões com as humanas. — Uma vez em Starian, sempre Starian. — Cassandra já falou alguma coisa? — A mulher de s***s fartos e curvas bem definidas acompanhou Elaine e passou a ajudá-la na separação do material. Kelly já estava se adaptando ao trabalho e estava gostando do que fazia. — Não. Eu pedi que a deixassem presa. Apenas presa e sozinha. Kelly arqueou as sobrancelhas, acendeu as luzes e puxou a cadeira enquanto observava Elaine se sentando ao seu lado da mesa. — Eu imagino que você tenha um plano, mas acredito que possam ter ponderado a força bruta. Eu posso socar a cara dela se quiser. — Ela sugeriu, viu a mesa pronta, mas Elaine estava disposta a conversar, uma vez que não pediu para chamar as meninas da quarentena. — Quer me dizer alguma coisa? Elaine bateu uma caneta na mesa, guardou-a no bolso do seu jaleco e cruzou as pernas como se fosse sexy. No entanto, suas coxas secas não se comparavam com as coxas curvilíneas de Kelly, mas isso não desanimou a baixinha. — Você deixou Gael tocar a sua cabeça. — Kelly cruzou os braços e se encostou na cadeira flutuante com um encosto confortável. — Ele te traiu, e por isso você veio para cá. A desolação do abandono a fez querer sumir da terra. — Kelly abaixou os olhos, suspirou fundo e concordou. — Eu queria que estivesse maquinando algo terrível contra Starian, seria mais fácil de lidar. — Uau… você me odeia de verdade. — Kelly tentou soar sarcástica e brincalhona. — Eu nunca te odiei. — Kelly levantou os olhos e mirou a feiosa de ´óculos redondo e notou a sinceridade nos olhos dela. — Eu já sabia que ele ia me trair em algum momento e também já sabia que podia ser com você. Mas eu já estava tão desacreditada no amor humano, que não me feri quando descobri. Kelly piscou com a revelação, mostrando que Elaine era mais criteriosa e inteligente do que ela já imaginava. Enquanto ela — a “amiga”, era um monstro. — O oposto do amor não é o ódio, é a indiferença. — Kelly confirmou ao notar a seriedade de Elaine. — Porque não se separou dele quando…? — Eu fiz. — Elaine sorriu — Eu me apaixonei por esse mundo antes mesmo de chegar. Eu cuidei do Dionísio, eu aprendi sobre a espécie e quando percebi, nenhum humano ocupava mais a minha cabeça e meu coração, mais do que as coisas sobre esse mundo. Aí, quando eu cheguei na sala e vi vocês dois lá, eu apenas confirmei que meu lugar não era ali. — Kelly se manteve silenciosa. — Eu nunca te odiei. Às vezes desejava que escorregasse em alguma banana, caísse torta e ficasse feia, mas nunca te odiei. Na Terra, Kelly não foi uma boa amiga. Ela foi amante do único namorado que Elaine teve. E ela se apaixonou por esse namorado e sofreu quando foi a vez dela ser traída. Kelly viveu o seu carma da forma mais miserável que pode. E quando menos percebeu, estava chorando. — Sabe porque admiro Gisele? — Elaine ficou quieta, mas observou os olhos da amiga se encher de água. — Não foi assim que eu agi quando descobri que eu estava grávida. — Elaine abriu a boca, já supondo o que ela ia dizer. — Gisele se assustou quando Darius a pediu em casamento, mas nunca negou que estava apaixonada pelo alien dourado. E quando você mostrou a maternidade para ela, mesmo que Darius estivesse longe, ela nunca cedeu aos ouvidos de Cassandra sobre abortar. Gisele teve a decência de arcar com suas escolhas, mesmo que ela tenha se arrependido de negar Darius. Ela teria tido aquele filho, com Darius ou não. — E Elaine já não suportava as lágrimas pesadas, enquanto Kelly se debruçava e deixava o choro sair. — Eu me arrependi de magoar você. Perdi a minha melhor amiga a troco de um homem que me deixou sozinha quando contei que estava grávida. E o pior, eu tirei aquela criança, achando que ia viver o dia seguinte como se nada tivesse acontecido. E não tem, não tem Elaine, um dia da minha vida que eu não me lembre do feto despedaçado que eu forcei pra fora! Eu era um monstro, eu virei um monstro e fiz uma vida pagar pelos meus pecados. — Ela soluçou e colocou todo seu choro para fora. — Eu sinto muito, Elaine, por não ter sido uma amiga melhor. Mas eu paguei. Eu paguei e ainda tenho pesadelos com aquele maldito dia. E não tinha uma maldita alma lá comigo. Nenhum i****a com quem um dia eu saí ou gastei meu tempo numa noite descolada, estava lá para me dar a mão quando eu quase morri. O único telefonema que consegui dar, foi pra minha mãe. Mas eu… Eu nunca tive coragem de falar. E eu senti a sua falta. Eu senti muito a sua falta. Kelly já não tinha mais como se desaguar, apenas se levantou da cadeira de um modo brusco e fugiu da sala sem se importar com quem pudesse olhar para ela durante o caminho. E Elaine limpou as lágrimas com as costas da mão, apagou as luzes e saiu da sala, enquanto as meninas estavam sentadas ao redor aguardando alguma ordem. — Não vamos ter essa reunião hoje. Eu volto amanhã. — a baixinha saiu andando, enquanto Gisele a observava, contendo o próprio choro. E Gisele se manteve quieta, engoliu a própria raiva e guardou para si a conversa que acabou ouvindo pela brecha da janela oposta da sala. Kelly tinha razão, independente do que aconteceu ela não teria negado aquele filho. E ela jamais negou Darius, só se viu presa numa parede imposta sem pensar na verdadeira questão. Por Starian, esse lugar tinha o dom de mexer com as pessoas, mas se esqueceram de um detalhe importante. O Antídoto tirou Darius do vínculo dela, mas não existia um antídoto para o coração humano. Mas ela tinha um plano… Ela tinha um plano para superar a sua raiva. E ela ia executá-lo! (...) — Eu quero ver ela! — Gisele gritou, bateu na mesa de Elaine na sala e encheu os olhos de raiva. — Eu tenho o direito de ver ela! — Não importa o quanto grite, a resposta continua sendo não! — Elaine respondeu com um tom mais alto. A baixinha se impôs e a mocinha a olhou com raiva, desistiu e saiu correndo da sala. Gisele não tinha mais paz na sua cabeça. Ela perdeu muito sangue, quase perdeu a vida e estava pirando. Darius sequer apareceu para ver ela, saber dela ou perguntar como ela se sentia. Gisele estava à beira da loucura, porque em um momento ela vivia a promessa do amor perfeito, casa com flores e um príncipe dourado. No outro estava morrendo. Meredith e Brisbee já haviam avisado que ela não andava bem, e Elaine temeu a falta de suporte psicológico. Mas, quem iria se especializar em amores Starianos? O fato é que, o vínculo era forte demais e Gisele podia jurar que não havia perdido Darius dentro de si. No entanto, ninguém se importava! Estavam agindo como se fosse fácil e natural esquecer que ela quase morreu de uma forma mágica. A criança m*l se formou na barriga dela e ela sentiu a vida fluir de dentro para fora! Gisele queria respostas! Ela precisava de respostas! Quando ela bateu a porta e saiu usava moletons e tinha olheiras. Ela ainda estava fraca, tinha uma alimentação regrada para suprir sua perda de sangue, mas não conseguia dormir direito e vivia inquieta. No entanto, naquela noite, ela tinha um plano. Quando ela conheceu Star na casa de Elaine, Darius não estava na cápsula por causa do cheiro dela. Agora, desvinculado, ele não teria problemas em estar lá. E foi durante o toque de recolher que Gisele sequer se deu o trabalho de vestir algo mais discreto, apenas se encheu de moletons e, descalça, passou pelo saguão da quarentena, avistou o elevador e ficou parada olhando o aço maciço. Ela roubou a pulseira de identificação de Kelly e tentou esconder seus planos de qualquer um. A porta se abriu e, sozinha, ela entrou. Quando a caixa de aço se fechou ela se sentiu nervosa, mas se arriscou. — Alojamento Renascimento, humana Gisele. — Acesso negado. — Ela respirou nervosa, mas viu que a porta não abriu. — Tente de novo, Gisele. Ela piscou, olhou ao redor e se perguntou como foi que a inteligência a decorou. Seria robótico ou realmente inteligente? — Você me conhece? — É minha obrigação conhecer. — A inteligência tinha uma voz simpática. — Eu quero ir pro alojamento. — arriscou de um jeito nervoso. — Use seu comando de registro. Gisele piscou, pensou… e então veio um estalo em sua mente. Se ela foi designada para Darius e veio primeiramente no alojamento com ele… Bom, talvez…Quando ela foi na Cápsula de Elaine, sua inteligência a cumprimentou como uma Stariana. — Alojamento renascimento. — Ela gaguejou. — G-Gisele Goldarx. — Acesso concedido. Ela quase caiu quando a caixa de aço se moveu, mas sorriu com a sua vitória. Nervosamente ela olhou para os lados da caixa e se perguntou porque ninguém a havia parado. Gisele apenas esperou as pessoas dormirem para sair, mas se arrependeu de pensar isso quando a porta se abriu e tinha dois Starianos na entrada. — Alojamento Renascimento. Ela simplesmente colocou os pés para fora, olhou o longo corredor iluminado e os dois Starianos a miraram curiosos. — O que a pequena humana está fazendo fora de sua cama nesse momento? Gisele não sabia o que realmente responder e engoliu devagar, para soltar a primeira coisa em sua mente. — Vou até a cápsula do meu Satariano designado copular com ele. — Os dois arquearam as sobrancelhas e se entreolharam. — É legal para os humanos se divertirem com a cúpula às vezes. — É claro. — Um deles respondeu, mas levou um cutucada do outro. — Não devemos confirmar? — Não temos ordens para hostilizar humanos em nenhuma hipótese, muito menos para interferir em processos de reprodução. — O outro se calou e avaliou Gisele mais uma vez. — Que contatar o capitão? — O Stariano afinou os olhos e mirou a humana desconfiado. — Com qual Stariano vai copular? — Ele ousou perguntar, enquanto o Stariano mais tranquilo fez uma negativa com a pergunta direta. — Com o capitão Goldarx. Era um blefe, Gisele sabia. Ela nem sequer sabia se Darius estaria em casa, mas, depois do ocorrido, sugeriu que, assim como ela, ele estivesse a se recuperar do recente baque. E por incrível que pareça, o blefe deu certo. Eles liberaram a passagem. — Viu, seu i****a. Se ele vier até aqui questionar alguma coisa, eu vou jogar a real e dizer que você é um mané. — Me desculpe, humana. O capitão Goldarx não tinha revelado seu interesse em outra humana. — Gisele sentiu um frio na espinha com o comentário, mas decidiu andar sem olhar para trás. O caminho lhe trouxe lembranças, calafrios e muitas outras sensações, mas nada disparou seu coração como alcançar a porta do alojamento de Darius e ver a área intacta como antes. Ela pensou em bater, até levantou os punhos, mas ficou pensativa e, por um segundo, pensou em desistir. E, quando virou as costas para voltar, a porta se abriu e a voz do Stariano dourado se fez mais recente do que uma doce lembrança em sua vida. — Humana? — Gisele estremeceu, e não havia uma gota do seu corpo que não tivesse ansiado pela voz de Darius em sua vida somente mais uma vez. — Por Starian, o que veio fazer aqui? Agora, Gisele tinha que dar seguimento ao seu plano.
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