Gisele estava em seu quarto encostada na cama e batendo uma bolinha na parede. Ela pingava na parede, subia no teto de forma angular e vinha direto para sua mão. Era a pura matemática e física simples, e o ângulo certo. A bolinha se movia sem um mero esforço e repetia o movimento com seu simples comando.
Isso a fazia pensar em Darius. O Stariano simples que a desejou, se vinculou e respeitou sua negativa. Se fosse um humano, ela podia supor que ele insistiria e tentaria novamente, mas, segundo Elaine, a recusa faz do Stariano um completo irracional. Então, para mantê-la bem, a opção é respeitar sua recusa.
Então era simples. Se ela dissesse sim, ele estaria e se dissesse não, ele não estaria. Sem rodeios e sem nuances. O que ela não conseguia entender era seu medo… Meredith e Brisbee tinham razão, ela já estava em Starian e foram descartadas na terra. Ela já não tinha tanto medo dos Starianos e não achava esse lugar mais tão bizarro… E sim, ela sentia falta da gentileza de Darius. E odiava pensar que ele podia fazer o que fez com ela, com outra humana.
Sem perceber, Gisele chorou. Ela se assustou com o “casamento”, mas não ponderou o quão simples ele era. Ela sentia falta dele e era de uma forma que lhe doía o peito, e fechou os olhos pensando em como fora tomada naquela cama. Darius era perfeito…
Então, a bolinha fez seu percurso, ela segurou em sua mão e a deixou cair. Gisele virou de lado, colocou a mão na barriga e se entregou aos pensamentos solitários. No entanto, quando pensou na esperança de ter um bebê em sua barriga tão dourada quanto Star era azul, ela sentiu uma dor aguda e uma pontada despencar internamente em seu útero.
A humana abriu a boca, tocou a sua barriga e sentiu um calor repentino tomar o meio de suas pernas. A dor repentina era tão insuportável que ela sentiu o corpo tremer de imediato e as suas forças oscilarem. Ela fechou um punho no lençol e a outra mão desceu para o meio de suas pernas, e quando baixou os olhos notou a quantidade de sangue que escapava de si contra a sua vontade.
E agora, acabou. Realmente acabou. Ela estava sangrando por uma vida… Pelo bebê que não ia ter. Tudo o que conseguiu fazer foi gritar de desespero, medo e dor.
E Darius, que naquele instante pisoteava a placa de aço no aeromotor que o levaria de volta, sentiu um amargo subir em sua garganta e regurgitou um pouco de sangue. Sem pensar duas vezes, ele cuspiu a pelota escura que, do nada, subiu de seu âmago e olhou confuso para a mancha do chão.O Stariano que compartilhava com ele sua espera, observou aquilo com curiosidade.
— Capitão, o senhor está bem? — Darius levantou o rosto e sentiu o sangue quente escorrer por seu nariz e um outro Stariano vir a observar. — Capitão, o senhor está sangrando.
Darius não conseguiu responder, apenas se sentia… morto por dentro. Em seus pensamentos o rosto de Gisele fervia. Ele apenas se adiantou para partir e limpou o sangue com as costas da mão, se sentou em seu banco e não ouviu a ordem de apertar os cintos. Ele apenas observava a mancha escura e sentia que uma parte de sua vida ia embora de um jeito horrível…
— Humana…— Ele sussurrou pra si mesmo, contendo dentro de si uma vontade insana de gritar.
(...)
Elaine bateu as duas mãos fechadas na mesa quando olhou a tela do holograma em sua frente, apontando as células de exame do corpo de Gisele. Ela cerrou os dentes e sentiu uma raiva de um tamanho que não sabia explicar.
— O que isso quer dizer? — Galak questionou com a mão na espada, enquanto Kelly se adiantava e tocava na imagem.
— Isso — Ela amplificou a fórmula manchada e mostrou os microrganismos deformados na imagem. — é cianeto. Aqui mostra a deformidade que o veneno causou de dentro para fora, mas aqui — Kelly moveu a imagem e mudou para a ressonâncias captadas do sistema reprodutivo de Gisele. — mostra que o cianeto foi combatido. Estas células não são da Gisele. A forma inteligente que se formava dentro dela, combateu as células venenosas e as expeliu fora. o cianeto matou o seu bebê.
— Cianeto? Em Starian? — Um humano questionou o óbvio. Não que não existisse, mas era uma forma “humana” demais para morrer. — Os Starianos não usam cianeto nas compostagens. O elemento existe, mas não causam efeitos na vida Stariana.
— O que quer dizer? — Galak questionou.
A sala era bem iluminada e lá dentro precisamente estava quem necessitava saber das informações. O fato de que Cassandra era uma real infiltrada já havia chegado em Galak.
— Cassandra não é uma mera religiosa. — Elaine bufou — A documentação daquela estranha religiosa esconde a verdadeira mulher. Ela é, no mínimo, alguém do laboratório. Ela precisava saber onde encontrar cianeto em Starian e fazer Gisele ingerir aquilo da forma mais silenciosa possível. E isso não é como tomar café da manhã, é um procedimento peculiar.
— E onde temos cianeto? — Galak questionou.
— Há várias raízes Starianas que podem expelir Cianeto, se ativadas do modo correto. — o humano respondeu — E o único lugar que não é cem por cento vigiado é o dormitório pessoal e os banheiros. Se estivermos certos, Cassandra tem comida estocada no quarto dela germinando a fermentação. Basicamente comida podre.
O silêncio tomou conta do lugar, sendo tomado pela movimentação de Galak se colocando de pé.
— O que vai fazer? — Volkon questionou.
— Entender que há uma rebelião contra os conceitos de quem acredita no futuro de Starian, é uma política interna. Entender que a rebelião atravessou as estrelas e comungou com os humanos, é outro tipo de guerra. — Ele foi cuidadoso, mas deixou bem claro. — E eu não estou exagerando quando eu digo guerra. Capitão Lex — ele ordenou ao Stariano presente — Leve uma equipe laboratorial e vá com o cientista humano. Verifiquem os aposentos da acusada e colha as provas.
Um beep atingiu a escuta de Galak, ele se obrigou a dar atenção e se paralisou por um segundo. No instante seguinte, ele olhou para Volkon e Hendall.
— Darius vai matar a humana.
— Não deixem! — O pedido de Elaine enquanto ela se levantava bruscamente da mesa, tinha desespero. — Ela é a única, por enquanto, que tem as informações que precisamos. Se matar ela, não conseguiremos parar o que quer que eles tenham começado. — Ela encheu os olhos de água. — Por Starian, eu mesmo darei cianeto, humano por humano que matar mais um bebê aqui dentro, mas deixem aquela maldição de mulher viva. Segurem Darius!
Kelly, de certo modo, se comoveu com o pedido de Elaine. Talvez pelo filho que ela tinha ou talvez pela vida que conquistou em Starian, mas havia paixão em seu pedido. E Galak, não podia perceber mas concordou de imediato com o pedido da baixinha. Kelly apenas segurou seu ombro, enquanto via a sala se esvaziar e seus heróis sair de encontro ao que estava para acontecer.
— Eu sinto muito, Elaine.
— Eu odeio as mulheres do meu planeta. E agora elas vieram parar aqui. — Kelly apenas ficou em silêncio, sabendo o peso daquelas palavras. — E se chegarem na minha Star, ou em Volkon… Estão descobrindo novas formas de nos atingir.