Meu nome é Aleksandr Volkov. Tenho trinta e seis anos. Nasci em Moscou, cresci nas ruas, construí um império com sangue, suor e uma inteligência que poucos ousam desafiar.
Sou mafioso, conhecido e respeitado.
Não gosto do termo, mas é o que os outros usam. Prefiro pensar em mim mesmo como um empresário com métodos alternativos. Lidero as operações financeiras e a logística do nosso grupo. Enquanto Matteo lida com o braço armado e Diego cuida das negociações mais... delicadas, eu sou o cérebro por trás da engrenagem. O estrategista. Aquele que vê dez movimentos à frente enquanto os outros m*l enxergam o próximo.
Sou frio. Calculista. Controlado.
Raramente me impressiono com algo.
Nunca acreditei nessa bobagem de "sentir algo à primeira vista". Sempre considerei isso fraqueza. Romantismo barato vendido por filmes e livros para pessoas que não entendem como o mundo realmente funciona.
E, no entanto...
Toquei o rosto dela mais uma vez.
A pele macia sob meus dedos. Os lábios entreabertos, respirando um sono profundo. Os cílios longos fazendo sombra nas bochechas.
— Ela é linda — Diego disse, em voz baixa.
— Sim — Matteo concordou. — Mas não é só isso.
Não. Não era só isso.
Havia algo nela. Uma centelha. Uma força que eu vi mesmo no breve momento em que nossos olhos se encontraram antes de ela desmaiar. Medo, sim. Mas também resistência. Como se ela estivesse lutando contra o próprio corpo para não cair.
Ela perdeu essa batalha.
Mas venceu a guerra.
A casa estava impecável.
Matteo sentou no outro lado da cama. Seus olhos claros percorreram o corpo dela com uma curiosidade que eu conhecia bem. Ele estava interessado. Não apenas fisicamente — embora isso também. Matteo sempre foi o mais aberto de nós três, o mais disposto a sentir. Mas ali, na expressão dele, havia algo diferente.
— Lembram por que viemos aqui? — ele perguntou, a voz baixa.
Diego se apoiou na parede, os braços cruzados. Seu olhar não desgrudava de Taynara.
— Expandir os negócios — ele respondeu. — E encontrar a mulher ideal para o Contrato.
Contrato.
A palavra pairou no ar como fumaça.
Nós três compartilhamos um olhar. Não precisávamos de palavras para entender o que cada um estava pensando. Conhecíamos esse ritual há anos. Já tínhamos feito isso antes — compartilhado mulheres, prazeres, noites que começavam e terminavam sem compromisso.
Mas nunca tínhamos encontrado alguém que considerássemos adequada para algo mais.
O Contrato era diferente.
Exclusividade. Lealdade. Filhos. Proteção. Uma vida de luxo em troca de algo que nenhum de nós jamais havia pedido antes: entrega completa.
Submissão consensual.
Aos três.
Ao mesmo tempo.
Não era sobre sexo. Bem, não apenas sobre sexo. Era sobre confiança. Sobre encontrar alguém forte o suficiente para aceitar o que somos, inteligente o suficiente para entender as regras, e leal o suficiente para nunca nos trair.
Nós procuramos.
Por anos.
Em Moscou, Paris, Londres, Nova York. Conhecemos mulheres lindas, sofisticadas, preparadas. Algumas aceitariam o Contrato num piscar de olhos — pelo dinheiro, pelo status, pela segurança.
Mas nenhuma despertou interesse real.
Nenhuma fez nossos estômagos revirarem.
Nenhuma fez com que eu, Aleksandr Volkov, homem que não acredita em destino, considerasse por um segundo sequer a possibilidade de que talvez — talvez — o universo tivesse outros planos.
Até agora.
Até Taynara.
Diego se aproximou da cama. Seus dedos, tão cuidadosos quanto os meus, tocaram uma mecha do cabelo preto dela. Ele a enrolou devagar, quase com reverência.
— Ela tem namorado — ele disse.
Meu corpo tensionou.
— Como sabe?
— A aliança. — Diego apontou para a mão esquerda dela, relaxada sobre o edredom. Um anel simples de prata, desses de compromisso de adolescente, brilhava sob a luz do abajur.
Matteo soltou uma risada baixa.
— Claro que tem. Uma garota como essa não chegaria aos dezoito sem alguém tentando segurar pra si.
— Não é "alguém" — Diego corrigiu, os olhos ainda fixos no anel. — É um namorado. Alguém que estava lá antes de nós.
Senti algo estranho no peito. Algo que não reconheci imediatamente, porque não era uma emoção que eu costumava sentir.
Inveja.
Eu estava com inveja de um garoto qualquer, em algum lugar da periferia, que tinha o privilégio de ser escolhido por ela.
Ridículo.
Levantei da cama e caminhei até a janela. A noite estava escura, salpicada de estrelas que quase não se viam na cidade grande. Lá fora, o mundo seguia sem saber que dentro desta mansão algo estava mudando.
— O namorado não importa — eu disse, de costas para eles. — Ainda.
— Ainda? — Matteo provocou, o sorriso na voz.
Eu me virei para encarar ele.
— Se ela for realmente o que estamos procurando, o namorado é um obstáculo. Obstáculos podem ser removidos facilmente.
— Aleksandr — Diego advertiu, mas não havia julgamento em sua voz. Apenas preocupação. — Não podemos forçar isso. O Contrato exige consentimento verdadeiro.
— Eu sei.
E sabia. Melhor do que ninguém. Porque, apesar de tudo o que fiz na vida, apesar do sangue nas minhas mãos e das almas que tirei, sempre tive uma linha que não cruzava: o desejo de uma mulher tem que ser genuíno.
Talvez fosse o único resquício de humanidade que me restava.
Mas isso não significava que eu não pudesse inclinar o jogo a nosso favor.
Voltei para a cama. Sentei novamente. Dessa vez, permiti que meus olhos percorressem cada centímetro dela sem pressa. O rosto perfeito. O pescoço delicado. Os ombros estreitos. As mãos pequenas, calejadas pelo trabalho, com aquele anel simples brilhando como um aviso.
Ela tinha lutado a vida inteira.
Dava para ver nas marcas invisíveis que a experiência me ensinou a reconhecer. Na forma como segurou o edredom quando nos viu, como se fosse um escudo. Na maneira como seus olhos se arregalaram, mas não se desviaram.
Ela não era frágil.
Era forte.
Mais forte do que parecia.
Mais forte do que qualquer uma daquelas mulheres sofisticadas que desfilavam por Moscou e Paris.
— O que fazemos agora? — Matteo perguntou, e pela primeira vez notei incerteza em sua voz. O italiano seguro, sempre pronto com uma piada ou um plano, estava tão perdido quanto nós.
— Esperamos — eu respondi.
— Esperamos?
— Ela acordar. Oferecemos água, comida, um lugar para descansar. E então... observamos.
Diego ergueu uma sobrancelha.
— Observamos?
— Conhecemos. Descobrimos quem ela é além da ficha da agência.
— E o Contrato?
Olhei para Taynara. Seu peito subia e descia num ritmo calmo. Seus lábios se moveram levemente, como se murmurrasse algo em sonho.
— O Contrato pode esperar.
Foi Matteo quem riu primeiro.
— Aleksandr Volkov, o homem que nunca espera por nada, disposto a esperar por uma garota de periferia.
— Cale a boca, Matteo.
Mas não havia veneno em minhas palavras.
Porque ele estava certo.
Eu nunca esperava. Nunca hesitava. Nunca duvidava.
E ali estava eu, sentado na borda de uma cama enorme, observando uma desconhecida dormir, sentindo algo que não sentia desde que era jovem e ainda acreditava em possibilidades.
A pureza dela me atingiu como um golpe.
Inexperiência. Inocência. Não no sentido ingênuo — ela claramente conhecia as dificuldades da vida. Mas havia algo nela que não estava corrompido. Algo que o dinheiro não compra e o poder não conquista.
E eu queria.
Queria de um jeito que doía.
Não apenas o corpo dela — embora isso também, e com uma intensidade que me surpreendeu. Mas tudo. A atenção dela. O tempo dela. A vida dela.
Queria ver aqueles olhos grandes me encarando sem medo. Queria ouvir sua voz, saber suas opiniões, descobrir o que a fazia rir. Queria proteger ela do mundo que eu mesmo ajudava a tornar perigoso.
E queria possuir ela.
Completamente.
De um jeito que nenhum namorado de periferia jamais poderia.
Os pensamentos obscenos vieram sem aviso.
Ela nua nesta cama. Os três ao redor dela. O cabelo preto espalhado nos travesseiros, os olhos arregalados de desejo, os lábios entreabertos em prazer. As mãos dela em nossos corpos. A boca dela nos chamando. O som do meu nome saindo dos seus lábios enquanto...
Fechei os olhos.
Respirei fundo.
Quando os abri, Diego me observava com uma expressão que conhecia bem. Ele sentiu o mesmo. E Matteo também, a julgar pela forma como seu maxilar estava tenso.
Os três.
Pela mesma garota.
Isso nunca tinha acontecido antes.
— Precisamos de um plano — Diego disse, a voz rouca.
— Sim.
— Ela vai acordar assustada — Matteo acrescentou. — Vai querer ir embora.
— Não vamos deixar.
— Aleksandr...
— Não vamos deixar ela ir embora assim — corrigi. — Não sem tentar. Não sem mostrar quem somos. O que podemos oferecer.
— E o namorado?
Sorri.
Foi um sorriso pequeno, quase imperceptível. Mas estava lá.
— Namoros terminam. Noivados terminam. Casamentos terminam. Tudo termina, exceto o que é construído para durar.
Toquei o rosto dela mais uma vez. A pele quente. A respiração calma.
— Nós podemos ser o futuro dela.
Matteo suspirou, passando a mão pelos cabelos loiros.
— Você está falando sério.
— Estou.
— Ela tem dezoito anos, Aleksandr. É uma criança.
— Não. — A palavra saiu firme. — Olhe para ela. Olhe para o que ela fez aqui. Isso não é trabalho de criança. Isso é trabalho de alguém que já entendeu como a vida funciona. Alguém que sabe o preço das coisas.
Diego concordou lentamente.
— Ela é mais velha do que a idade sugere.
— Exatamente.
Ficamos em silêncio por um longo momento. Os três, ao redor da cama, observando a garota que o destino colocou em nosso caminho na noite mais improvável.
Lá fora, a cidade continuava seu curso. Pessoas dormiam, sonhavam, viviam suas vidas comuns. Nenhuma delas sabia que dentro desta mansão algo estava começando.
Algo que mudaria tudo.
Toquei o anel simples na mão esquerda dela. Prata barata. Dessas que se compra em lojinha de shopping. Mas o brilho dele me incomodava mais do que deveria.
Seria tão fácil remover do pequeno dedo.
Tão fácil fazer ele desaparecer.
Mas não.
Não seria assim.
Quando ela acordasse, veria três homens a observando. Três homens que poderiam dar a ela o mundo. Três homens que, contra todas as probabilidades, já estavam apaixonados.
E então a escolha seria dela.
Me inclinei e, antes que pudesse pensar no que estava fazendo, depositei um beijo suave em sua testa.
— Durma, pequena — murmurei. — Quando acordar, tudo será diferente.
Matteo e Diego trocaram um olhar, mas nenhum dos dois disse nada.
Eles entendiam.
Nós três entendíamos.
Talvez o destino realmente existisse.
Talvez ele tivesse escolhido uma mulher por nós.
E o nome dela era Taynara.
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