ALEK - O RUSSO

1020 Words
Ela caiu. Um segundo estava ali, paralisada como um pequeno pássaro diante de serpentes. No outro, seus olhos perderam o foco e seu corpo simplesmente desistiu. Eu a peguei antes que o chão a recebesse. Instinto. Não costumo tocar em pessoas. Não sem propósito. Não sem controle. Mas naquele momento, meu braço avançou antes que meu cérebro autorizasse. Ela tombou contra mim como se tivesse sido feita para se encaixar ali. Pequena. Pequena demais para essa casa. Pequena demais para existir num lugar como este, cercada por paredes que valiam mais do que ela provavelmente ganharia em uma vida inteira de trabalho. E ainda assim… foi a única coisa viva aqui dentro. Até agora, esta mansão era só concreto, mármore e vidro. Um projeto arquitetônico sem alma. Vazio. Morto. Ela trouxe calor. Eu senti isso no instante em que coloquei os olhos nela, ali parada no corredor do segundo andar, recuando como uma intrusa no próprio território. O cabelo preto e ondulado bagunçado, o rosto corado de cansaço, os olhos grandes demais para o rosto magro. A camiseta surrada do que parecia ser um super-herói americano qualquer. O short jeans desbotado. Ela não era nada que eu esperava. E eu nunca espero nada. Essa é a questão. Planejo cada movimento, cada palavra, cada respiração. Antecipo cenários, calculo riscos, mapeio variáveis. É assim que se sobrevive no meu mundo. É assim que se constrói um império. Mas ela? Ela não estava em nenhum dos meus cálculos. Segurei seu corpo contra o meu por um segundo a mais do que o necessário. Ela cheirava a suor, produto de limpeza e exaustão. Não era um perfume caro. Não era sofisticação. Era algo cru, real, humano. E isso me atingiu de um jeito que eu não esperava. — Aleksandr? A voz de Matteo cortou meus pensamentos. Ele estava ao meu lado, com a expressão que eu conhecia bem — metade diversão, metade curiosidade. O maldito italiano sempre observando demais. — Ela desmaiou — eu disse, como se isso não fosse óbvio. — Eu vi. — Matteo inclinou a cabeça, os olhos claros brilhando sob a luz do corredor. — Você foi rápido. Ele notou. Claro que notou. Ignorei o comentário e ajustei o corpo dela nos meus braços. Leve. Leve demais. Quando foi a última vez que essa garota comeu uma refeição decente? Quando foi a última vez que alguém cuidou dela? Não que isso fosse da minha conta. Diego se aproximou por trás, seu olhar de mel percorrendo o rosto pálido da moça. — Ela está bem? — Desmaiou — repeti, menos paciente agora. — Provavelmente exaustão. Fome. Olhe para ela. Diego obedeceu. Seus olhos, sempre tão intensos, suavizaram de um jeito quase imperceptível. — A casa está impecável — ele observou, baixinho. — Ela fez tudo isso sozinha? Olhei ao redor. O corredor impecável. A janela que ela acabara de limpar, ainda brilhando. O quarto atrás dela, com a cama perfeitamente arrumada, os travesseiros alinhados, o edredom esticado com uma precisão quase obsessiva. Sim. Ela fez isso sozinha. Uma garota franzina, frágil. E conseguiu o que meus melhores funcionários levariam uma equipe inteira para fazer em menos tempo. — Leve ela para algum lugar — Matteo sugeriu, mas não era uma sugestão. Era um teste. Ele queria ver o que eu faria. Eu sabia. Mas não me importei. Caminhei em direção à suíte master sem olhar para trás. Meus passos ecoaram no silêncio da mansão, cada um deles uma declaração silenciosa. O corpo dela contra o meu era quente, respirando em um ritmo lento e frágil. A suíte master ficava no fim do corredor. A maior da casa. A cama que eu ainda não tinha visto, mas que imaginava imponente, esperando por corpos que merecessem seu conforto. Abri a porta com o ombro. O quarto estava exatamente como eu esperava — impecável. Ela tinha caprichado aqui também. A cama enorme, coberta por lençóis imaculados, parecia um convite ao descanso. Deitei ela com cuidado. Mais cuidado do que eu deveria ter. Seu cabelo preto se espalhou pelo travesseiro branco como tinta derramada. Os traços do rosto, antes tensos pela surpresa de nos ver, agora estavam relaxados. Ela parecia mais nova dormindo. Mais vulnerável. Toquei seu rosto. Foi um movimento involuntário. Meus dedos, acostumados a gatilhos e canetas que assinavam contratos de milhões, roçaram sua pele macia. A pele dela era perfeita. — Aleksandr. Dessa vez era Diego. Ele entrou no quarto com passos silenciosos, trazendo um copo d'água. Matteo vinha atrás, já com o celular na mão, pesquisando algo. — Ela está desidratada — Diego disse, colocando o copo na mesinha de cabeceira. Seus olhos não desgrudavam dela. — E exausta. Provavelmente não comeu nada o dia inteiro. — Ou a semana inteira — Matteo completou, com um sorriso que não era exatamente um sorriso. Ele ergueu o celular. — Achei. — O quê? — A ficha dela. Da agência de empregos. Me endireitei, mas não afastei o olhar dela. Matteo começou a ler em voz alta, seu sotaque italiano dando um tom quase musical às palavras burocráticas. — Taynara Lopes. Dezoito anos. Brasileira. Primeiro emprego registrado. — Ele fez uma pausa, os olhos subindo para encontrar os meus. — Primeiro emprego registrado, Aleksandr. Ela nunca fez isso antes. Diego assobiou baixinho. — E conseguiu fazer isso tudo? Sozinha? — Endereço — eu disse, a voz saindo mais firme do que eu pretendia. — Onde ela mora? Matteo leu o endereço. Periferia. Longe. Muito longe desse bairro silencioso e caro. Uma garota da periferia, primeiro emprego, sozinha numa mansão vazia por uma semana, limpando cada canto com a dedicação de quem estava construindo algo para si mesma. Não era só sobrevivência. Era sobre esperança. Ela queria mostrar serviço. Queria ser notada. Queria, talvez, um futuro melhor. E nós três estávamos ali, olhando para ela dormir, sentindo algo que nenhum de nós esperava sentir. Sentei na borda da cama. Meus parceiros se aproximaram. Os três em silêncio, observando a garota que o destino — ou o acaso — colocou em nosso caminho. Você deve estar se perguntando quem somos. Justo. 💌 Rede Social: @crisfer_autora
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