Malik Strigoi.
Sentado em uma poltrona antiga de couro preto, ele parecia à vontade, como se aquela casa fosse dele. Uma taça de cristal repousava em sua mão com vinho dentro, ele parecia confortável demais para um intruso. As sombras pareciam repousar confortavelmente em volta de seu corpo, moldando-se a ele como um manto invisível.
— m*l… o que quer? — Mia perguntou, a voz baixa, firme, um eco da mulher que ele um dia conheceu.
O fogo azul da lareira iluminava seus traços de modo desigual, metade anjo, metade demônio. O brilho frio realçava o contorno do maxilar, a curva dos lábios imóveis, o olhar que atravessava a alma.
Mas havia algo diferente.
Não a frieza habitual.
Não o distanciamento de uma criatura feita de noite e tempo.
Havia adoração.
Saudade.
Dor.
— Então… você se lembra de tudo. — Malik disse, sem perguntar.
Mia virou-se. O copo tremia levemente entre os dedos. Levou-o aos lábios, mas não bebeu ainda.
Os olhos dela o estudavam com atenção — e não havia medo ali. Havia cautela. Respeito.
— Lembro. — respondeu.
Mia parou na soleira da porta, os pés descalços afundando no tapete macio. O coração acelerava, e não era de medo. Era algo mais profundo, antigo, um reconhecimento silencioso.
Ela o reconhecia, da outra vida dela , quando ela era Luna ou a Moon , como a chamavam.
Não apenas como o vampiro que a havia envenenado.
Não apenas como o estranho que a observara em agonia.
Mas como o homem que a amara uma vez.
Como o homem que perdera tudo.
Como o homem que segurou sua mão enquanto ela esquecia quem era.
Dentro de sua mente, a verdade despertou como uma maré antiga arrebentando contra os rochedos da memória. Cada fragmento esquecido se encaixava, cada eco do passado voltava com um brilho c***l e belo.
Vira tudo.
Seu nascimento sob a bênção da Deusa da Lua.
Seu crescimento, não como uma simples filha da noite — mas como a primeira de sua linhagem, destinada a unir reinos, a domar o caos.
Fora prometida a Daemon.
Não por amor, mas por destino.
Por política divina.
Ela lembrava do toque gélido das correntes, do peso da escolha que não fora sua. Tentara salvá-lo, ajudá-lo, curá-lo da escuridão que o consumia.
Mas o amor… o amor a encontrou em outro lugar.
Foi em Malik que ela se libertou.
Viu-se sequestrada, sim.
Mas não foi acorrentada , foi liberta.
Viu a gentileza dele com os seus, o cuidado ao falar, o respeito disfarçado em ironia.
E viu a dor. A solidão que ele escondia atrás da arrogância imortal.
E então, contra toda lógica, contra toda ordem divina, ela se apaixonou por ele.
Lembrou-se dos filhos.
Do primeiro beijo.
Do último pôr do sol antes da morte.
E então o horror.
Daemon arrancando-lhe o coração, o grito que rasgou o céu, o sangue e o fim.
Agora, ali estava ele.
De novo.
O tempo dobrado, as eras desfeitas, o passado e o presente colidindo em uma única respiração.
Malik se levantou devagar, com a leveza sobrenatural de alguém que não pertence mais ao tempo. O som de seu movimento foi o de um sussurro.
Seus olhos — verdes como o musgo nas ruínas do mundo — eram profundos demais, cheios de lembranças que não podiam ser ditas, apenas sentidas.
— Eu só queria que você se lembrasse. – ele a responde.
Ela não recuou. Pelo contrário, seus pés a levaram em direção ao enorme bar no canto do escritório — um antigo lounge de drinks herdado pelos Blackwolf, com garrafas importadas e cristais que brilhavam como estrelas engarrafadas.
— Não queria me transformar? - ela pergunta erguendo uma sobrancelha o encarando.
O som do vento lá fora se misturava ao crepitar das chamas. A cena tinha algo de irreal, como um quadro pintado pela própria noite.
Ele então balança a cabeça e responde:
— Eu jamais faria nada para te machucar Moon.
Mia abriu uma garrafa de whisky lunar — o líquido prateado cintilando sob a luz azulada. Reflexos violetas dançavam na garrafa enquanto o aroma de verbena e uvas encantadas preenchia o ar, trazendo consigo lembranças de outra era.
Ela serviu-se. O som do líquido caindo no copo foi a única coisa viva entre eles por longos segundos.
Tomou um gole.
O sabor queimou como fogo antigo, mas era um fogo que purificava.
O gosto da lembrança.
O gosto da dor.
Malik sorriu — e não era o sorriso de um predador. Era o sorriso quebrado de quem perdeu tudo o que amava.
— Eu vi tudo, m*l… — a voz dela tremia, mas não de fraqueza. — Vi a Luna… vi nós dois… vi Daemon… vi o que ele se tornou.
Ele assentiu lentamente, o olhar preso em algo que ela não via.
— Você veio como um fantasma… — disse Mia, sem encará-lo. — Mas não é mais um. Você está aqui. Em carne, sombra e silêncio. Mas essa casa… essa vida… não são suas. Nem eu sou mais.
Ela se virou, o copo em mãos.
O líquido âmbar tremulava conforme ela respirava.
— Senti sua dor. Vi tudo. Vi o que fizeram com você. E o que você fez comigo, naquela vida… você me amou. Eu sei disso agora. — Sua voz era serena, mas carregava um peso que o tempo não apagou. — Mas você ficou no passado.
Malik abaixou o olhar, os ombros rígidos. A expressão era de quem carrega mil séculos de arrependimento.
— Não vim pedir você de volta, Moon. — disse, enfim. — Eu sabia o que veria quando a dor a deixasse. Eu só queria… ouvi-la. Pela última vez. E me desculpar.
O silêncio que se seguiu foi quase sagrado.
As chamas dançavam lentamente, refletindo nos olhos de ambos.
Mia se aproximou dele.
O som de seus passos ecoou pelo chão de madeira.
Ela parou diante dele e colocou o copo sobre a mesa.
Por um instante, eles ficaram ali — imóveis, ligados por um fio invisível.
A respiração dela era o único som audível.
O coração, um tambor distante.
— E me ouviu, e eu não tenho oque desculpar, você nunca me fez nenhum m*l. — disse ela, por fim. — Agora vá, Malik. Antes que Bryan acorde. Antes que Bones sinta sua presença.
Malik levantou-se.
Elegante.
Impecável.
Uma sombra viva em trajes caros.
Inclinou-se levemente, quase tocando a testa dela, mas não ousou.
Os olhos verdes brilharam à luz azulada.
— Eu devia ter te protegido… — murmurou. — Devia ter te escondido melhor. Daemon nunca deveria ter conseguido te alcançar.
A voz embargou no fim.
Mia viu, por trás do rosto imortal, o homem que ele havia sido — frágil, apaixonado, arrependido.
Ela tocou seu braço, suave, firme.
— Você me salvou de muitas formas. Eu não te culpo, m*l. As coisas aconteceram como tinham que acontecer.
O silêncio que veio depois era cheio de verdades não ditas.
— Mas… pode ficar por perto, se quiser, eu apreciaria a sua presença e dos nossos filhos na minha vida. — completou.
Ele pareceu tomado de surpresa. Os traços duros suavizaram.
— Eu… claro. Se você permitir, ficarei atento. Sempre, você tem o meu amor e minha proteção. — disse, a voz baixa, intensa. — Qualquer coisa, a qualquer momento… basta me chamar. E eu virei.
Ele deu um passo à frente, o olhar fixo no dela.
— Você me deu uma vida, Moon. Uma chance de redenção quando eu era apenas sombra e dor. Você me salvou… e eu te serei eternamente grato.
Mia sorriu.
Um sorriso leve, sem culpa nem desejo. Apenas lembrança e ternura.
— Eu me lembro de você, Malik. De tudo. Do bem que você fez. E eu agradeço pela vida maravilhosa que você me deu ao lado de nossos filhos.
— Você está tão jovem… — ele murmurou, maravilhado. — Muito mais jovem do que quando se foi.
Ela riu baixinho.
— A juventude tem suas bênçãos… e suas maldições.
Os dois ficaram ali, imersos em lembranças.
O tempo parecia suspenso, o mundo, distante.
As chamas os envolviam como uma moldura de nostalgia.
Aquele era um momento fora da eternidade — breve, mas infinito.
Até que algo mudou.
Um ruído.
Suave.
Quase imperceptível.
O som de um estalo vindo do corredor.
Mia congelou.
Malik ergueu o olhar, os sentidos aguçados.
A lua, do lado de fora, pareceu perder o brilho por um segundo.
— Vá Malik por favor , antes que Bryan acorde… — ela começou a dizer.
Mas era tarde.
Um novo som ecoou: pesado, lento, furioso.
Passos.
O ar ficou mais denso.
A energia, quase palpável.
O lobo havia despertado.
Mia virou o rosto na direção da porta.
A sombra avançava pelo corredor.
Algo … ou alguém…já os havia encontrado.