O crepúsculo caía sobre a Mansão Blackwolf, envolvendo o terreno em um manto de veludo roxo. As sombras se aprofundavam, escondendo os segredos de cada canto. Os olhos cinzentos de Mia varriam o perímetro, instintivamente atentos a qualquer movimento estranho. Então, no meio das árvores, algo chamou sua atenção: um brilho diferente, quase imperceptível, mas suficiente para acelerar seu coração e gelar sua espinha.
— Eu acho que… vi alguém ali — sussurrou, a voz tensa, baixa, suficiente para não alarmar os filhos que ainda corriam pelo quintal. — Entre os carvalhos, na divisa da floresta.
O arrepio que atravessou sua espinha fez Mika, a loba interior de Mia, rosnar baixo, um aviso silencioso de perigo. Bryan, percebendo a tensão da Luna, seguiu seu olhar. Não viu nada, mas confiava cegamente no instinto aguçado dela. Em um instante, a prioridade mudou: a segurança da alcateia era agora absoluta.
Sem perder tempo, Bryan fechou os olhos e enviou um chamado mental à rede de defesa da alcateia.
“— Artemis, comandante Delta da Patrulha!” — a voz de Bryan ressoou na mente da loba como trovão silencioso. “— Minha Luna sentiu olhos na borda oeste do perímetro. Algo nos observa. Mande uma equipe de Sentinelas verificar discretamente. Relatório imediato.”
A resposta veio quase imediatamente. Artemis, firme e eficiente, confirmou: “Recebido, Alfa. Estou enviando uma patrulha agora. Nada passará despercebido.”
Bryan relaxou apenas externamente, mantendo o semblante calmo diante de Mia e dos filhos, mas seu corpo ainda carregava a tensão de quem sabe que a noite poderia virar caos a qualquer momento. O toque de sua mão no braço dela, firme, era um lembrete silencioso de que ele estava ali, pronto para protegê-la.
— Vamos entrar — disse ele, aproximando-se de Mia, entrelaçando sua mão à dela e puxando-a suavemente. — Está escurecendo, e não podemos deixar nossos pequenos expostos.
A noite chegou, e as crianças foram colocadas para dormir. A fogueira no quintal se tornou o centro da noite, seu crepitar misturando-se com o som distante do mar, criando uma melodia reconfortante, mas carregada de tensão. Todos os adultos se reuniram ao redor, conversando baixinho, enquanto Bryan discutia com Ares sobre patrulhas e rotações de vigilância.
Mia se aproximou silenciosamente, sentindo cada batida do coração dele através do corpo firme. Sem avisar, sentou-se no colo dele, apoiando-se contra seu peito. Ares percebeu o gesto, sorriu discretamente e se afastou, dando-lhes privacidade. O coração de Mia disparou; sentir o corpo dele tão próximo era reconfortante e desesperador ao mesmo tempo.
Bryan inclinou-se, envolvendo-a com os braços, e encostando a testa na dela. Era como se quisesse colar seu arrependimento à pele dela, fazer com que cada cicatriz que carregava fosse sentida. O vínculo entre eles brilhou como uma luz prateada na escuridão.
— Mia… eu sinto muito por tudo o que fiz… — murmurou, a voz rouca, quebrando entre as sílabas. — Carreguei orgulho onde devia haver proteção. Fui fraco quando você mais precisou, e essa fraqueza custou caro… custou sua paz, sua confiança… custou anos de dor. Não há desculpas que apaguem isso. Só posso abrir o peito e mostrar o que sobrou: um homem ferido que ainda te ama com a força de mil luas.
Respirou fundo, a voz embargando ao olhar nos olhos dela.
— Vocês… você e nossos filhotes — são a razão de eu querer respirar. Sem o riso deles, sem o seu cheiro, sem o teu olhar… cada manhã seria apenas horas vazias. Prefiro mil vezes carregar a culpa que mereço e lutar, passo a passo, até ser digno do teu amor, do que viver fingindo que nada aconteceu.
Os olhos de Bryan marejaram; a sinceridade cortava o ar entre eles.
— Me perdoa por ter sido covarde. Prometo — diante do vento e da lua cheia que os observa — que com toda minha pele e sangue vou lutar por vocês com cada pedaço de mim. Se eu perder você, perco a mim mesmo. Mas se te reconquistar, recupero o homem que sempre quis ser.
Ele segurou o rosto dela com delicadeza, temendo que ela se desfizesse em suas mãos, antes de beijar sua mão em um gesto lento e trêmulo, como se selasse com aquele toque palavras que o vento jamais carregaria.
Mia suspirou, permitindo-se relaxar no peito dele.
— Você terá um longo caminho pela frente, Bryan — disse suavemente, com a voz carregada de sinceridade —, ainda temos muito a resolver, mas agora… nossos filhotes e a alcateia precisam de nós dois inteiros.
O momento de paz, porém, foi abruptamente interrompido. Passos pesados, arrastados e cambaleantes se aproximaram. Axel surgiu entre as sombras da mansão, os olhos turvos e o andar incerto, o hálito de bebida denunciando seu estado.
— E assim que você o recompensa, Mia? — falou com raiva contida, a voz carregada de desprezo. — Ele te trai e, ao invés de rejeitá-lo, você… você o trata com carinho?
O silêncio pairou, carregado de tensão, mas a noite ainda respirava, como se a própria mansão prendesse a respiração diante do confronto que se anunciava.
Bryan ergueu-se instintivamente, pronto para enfrentar Axel, mas Mia permaneceu firme, cada músculo tenso, sentindo o frio da noite contrastar com o calor de sua determinação. O fogo da fogueira estalava, lançando sombras dançantes, Mia o encarou de frente, e os azuis profundos dos olhos de Axel refletia tanto a raiva quanto a dor.
Axel cambaleava mais perto, e por um instante o tempo pareceu desacelerar. Cada palavra dele carregava acusações e memórias que deveriam ter permanecido enterradas. Mas antes que ele pudesse avançar, um uivo distante, quase imperceptível, fez a pele de Mia arrepiar-se. Algo estava vindo.