Capítulo 62 - O orgulho do Rei ( Parte 2 )

1159 Words
Ao chegar ao quarto, a porta estava entreaberta. A luz suave do luar entrava pela janela, banhando o ambiente em um brilho prateado. Mia estava de pé, de costas para ele, perto da janela. Ela havia trocado o robe, vestindo uma camisola de seda rosa pérolada, os cabelos úmidos e soltos caindo sobre os ombros – um sinal de que tomara um banho quente para tentar apaziguar a alma. Seus ombros estavam levemente curvados, e Bryan pôde ver o brilho sutil em sua pele. Ele a viu secar, com a ponta dos dedos, uma lágrima solitária que escorria pelo rosto. — Eu quero ficar sozinha, por favor, saia — ela sussurra para ele, a voz embargada, um fio quase inaudível de dor. Ele podia sentir a ferida em suas palavras, a profundidade de sua mágoa. Bones se contorceu dentro dele, um lamento primal por ver sua companheira assim, tão quebrada por suas próprias mãos. O coração de Bryan se apertou. Ele respirou fundo, o cheiro de gardênias ainda fraco no ar, misturado agora com o aroma suave e familiar de Mia, a essência dela, que era seu lar. Aquele simples gesto de sua mão enxugando uma lágrima o atingiu mais do que qualquer rugido. Ele sabia que a havia ferido profundamente. Ele deu um passo à frente, hesitante, sentindo o nó em sua própria garganta. Parou a poucos centímetros dela, seu próprio corpo uma muralha de músculos e arrependimento. Mia não se virou. O silêncio no quarto era quase insuportável, pontuado apenas pela respiração pesada de Bryan e o suave som do vento lá fora. Finalmente, ela girou lentamente, e Bryan se viu cara a cara com o rosto dela, avermelhado de tanto chorar, os olhos inchados, mas ainda assim belos e profundos. Ela não o encarava. Seus olhos prateados, antes tão cheios de luz, estavam agora opacos, desviando-se dos dele. Mia tentou recuar um passo, assustada com a cena diante de si, mas ele a segurou firme. E quando olhou novamente para ele, Bryan, o rei implacável, o lobo mais temido entre as alcateias, estava ajoelhado diante dela — não como um homem derrotado, mas como alguém que finalmente baixava as armas. E talvez, só talvez, porque havia entendido que ela nunca foi o inimigo. — O que você está fazendo? — repetiu ela, a voz embargada, os olhos ainda brilhando com as lágrimas que não teve tempo de esconder. Ele manteve o olhar fixo no dela, mesmo quando ela tentou desviar. Apertou de leve os dedos delicados que segurava com tanto cuidado que parecia temer quebrá-la. — Eu… estou tentando encontrar uma forma de não te perder. Estou pedindo seu perdão — murmurou ele, rouco, cada palavra arrancada como se viesse de um lugar que ele sempre evitou visitar. — Estou cumprindo a minha promessa. Te dei minha palavra que se me desse uma chance eu não perderia. Eu te daria tudo de mim, e esse tudo tem que ser o meu melhor. Mia mordeu o lábio, o peito arfando devagar. Ainda estava magoada. Ainda queria gritar com ele, bater em seu peito largo até desabafar tudo o que estava preso. Mas algo na expressão dele — no cansaço honesto, na humildade trêmula — silenciou sua tempestade por um instante. — Você nunca me perdoou, né? — sussurrou ela, mais para si mesma do que para ele. Bryan franziu o ar entre as sobrancelhas, confuso. — Pelo quê? — Por eu ter terminado com você quando éramos adolescentes. Por ter magoado você. Por não ter conseguido te ajudar, quando você precisava de mim… Ele fechou os olhos por um segundo, como se aquelas palavras doessem mais do que qualquer golpe. Depois, ainda ajoelhado, encostou a testa na mão dela. — Não… não foi isso, Mia. Eu não te odiei por ter ido. Eu te odiei por… por você ter sido forte o suficiente pra fazer isso. Eu tive culpa, e nunca admiti. Era jovem e te magoei. Eu escolhi me afastar e te ferir, e você… você sempre suportou tudo. Sofreu e continuou de cabeça erguida, com toda a dor. Agora eu não quero mais ser o motivo dela. Eu quero ser melhor pra você. Eu sinto muito por tudo, Mia… Mia arregalou os olhos. Bryan levantou o rosto, e pela primeira vez ela viu o que ele escondia sob todas as camadas de brutalidade, domínio e silêncio: medo. Medo de ser fraco, medo de amá-la errado, medo de nunca ter sido suficiente. — Você era tudo, Mia — ele continuou, a voz baixa, íntima, quase reverente. — Mas eu cresci ouvindo que não podia demonstrar. Que um Alfa protege com força, não com sentimentos. E quando você terminou comigo e tentou seguir em frente… eu senti que tinha falhado com meu propósito. Como lobo. Como seu companheiro. Em te proteger… inclusive de mim. Ela soltou um suspiro trêmulo, o queixo vibrando, os olhos marejando de novo — não por dor, mas porque aquelas eram palavras que ela esperou a vida toda para ouvir. — Eu não quero que você me proteja, Bryan. — Mia retrucou, sua voz subindo um tom, as palavras carregadas de toda a frustração que a consumia. — Eu só queria que você me ame, me veja, compartilhe comigo tudo! Quero ser aquela que você pensa quando precisa de alguém pra desabafar. Você sempre procura outra enquanto eu estou bem aqui! Ela puxou a mão de leve, mas ele ainda a segurava. — Isso está me destruindo! Eu não sou tão frágil! Eu fui feita pra estar bem do seu lado, não escondida como você quer! Silêncio. Um silêncio tão denso que parecia sagrado, preenchido apenas pelo arfar de suas respirações e pelo batimento descompassado de dois corações feridos. Ele segurou sua mão. — Eu tenho medo, Mia. Medo de te perder, de você perceber que é tudo sem mim… e eu, sem você, sou nada. Ela o encarou. E, pela primeira vez, viu o homem por trás do rei. O amor ainda existia — queimando, pulsante — mas ela sabia que ainda havia cinzas por curar. E enquanto o luar banhava os dois, Mia pensou: Será possível se apaixonar de novo por alguém que você sempre amou? A resposta vinha quente, frágil, perigosa. Sim. Mas dessa vez, ela precisava que fosse diferente. E mesmo com o coração gritando o nome dele, apenas sussurrou: — Me dá um tempo, Bryan. Ele assentiu, o olhar perdido nela por um instante… e depois vazio, distante, como se já soubesse que talvez o tempo não seria suficiente. O silêncio que se seguiu foi quase c***l — não havia perdão, nem despedida, apenas o som abafado de dois corações que batiam fora de compasso. Do lado de fora, o vento soprou pelas janelas abertas, carregando o cheiro das orquídeas. E foi só então que Bryan percebeu: às vezes, só pedi perdão não é o suficiente… só o tempo poderia curar oque ele destruiu com as próprias mãos.
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