Mas a eternidade não perdoa interrupções.
BANG!
Uma explosão brutal sacudiu o escritório.
A porta foi arremessada contra a parede com uma força animalesca.
Estilhaços de madeira voaram como projéteis.
O ar, antes denso e silencioso, tornou-se uma tempestade de fúria e destruição.
Bryan.
Seus olhos ardiam em azul flamejante, o corpo inteiro já transformado em algo entre homem e lobo, os músculos tensos e prontos para o combate.
O peito arfava com um rugido preso na garganta, e a energia ao redor dele vibrava com uma fúria primal que quase quebrava o chão sob seus pés.
Seu olfato aguçado havia finalmente detectado a presença intrusa — e a visão de Mia e Malik tão próximos desencadeou uma reação violenta.
— Que merda está acontecendo aqui, Mia?! — ele rugiu, a voz deformada por um ciúme ancestral e a raiva instintiva de um Alfa diante de um rival — mesmo que esse rival fizesse parte de um passado que ele m*l compreendia.
Malik virou-se com lentidão, sem esboçar defesa ou surpresa.
Apenas fitou Bryan com calma, como quem sabia que esse momento viria, aceitando o inevitável choque entre o passado e o presente.
Malik não recuou.
Ele estava de pé, como um rei diante do carrasco.
Imóvel. Orgulhoso. Sereno.
Seus olhos verde-musgo não mostravam medo.
Apenas uma antiga resignação, uma aceitação do caos iminente.
Entre o lobo furioso e o vampiro enigmático, Mia permanecia no centro, a única que compreendia a complexa teia que unia aqueles três.
Mia se colocou entre eles — instintiva, protetora.
Não por Malik, mas pela própria integridade do momento.
O poder de Bryan ainda emanava como calor selvagem de seu corpo.
Seus olhos eram brasas acesas, prontos para queimar tudo ao redor.
— Bryan… por favor. — A voz de Mia era calma, firme, mas seus olhos suplicavam. — Nós só conversávamos. Ele não me fez m*l. Ele só queria me ver.
O silêncio que se seguiu foi tão afiado quanto uma lâmina.
Bryan recuou um passo.
Mas não em paz.
Ele se afastou como se tivesse sido atingido.
Como se aquelas palavras fossem mais cortantes do que qualquer mordida de vampiro.
E então ele falou.
A voz saiu baixa, mas carregada de algo perigoso — mágoa, orgulho ferido e um ciúme que beirava o descontrole.
— Vai defender essa criatura? — ele rosnou, os olhos sem piscar. — Depois dele quase te amar ? … — Vai continuar se encontrando com ele pelas minhas costas?!
Mia arregalou os olhos, confusa, sentindo um calafrio percorrer-lhe a espinha.
Mas ele não parou.
— Eu não deveria estar surpreso, não é? — continuou, e a dor agora dava lugar ao veneno. — Isso é bem a sua cara mesmo. Sempre agindo pelas minhas costas quando eu tô com a guarda baixa.
Foi como levar um tapa.
Um golpe inesperado no coração.
Mia piscou, atordoada.
As palavras dele giravam em sua cabeça como uma tempestade de espinhos.
Ele estava sendo c***l. Injusto.
Não só acusando… mas duvidando.
E aquilo doía mais do que qualquer confronto com Malik, com Daemon ou com o próprio destino.
— Bryan… — sussurrou, sem conseguir conter o tremor na voz. — Você tá me acusando de quê? De trair você? De esconder coisas de propósito?
Ela engoliu em seco, mas as lágrimas já brotavam nos olhos.
— Então é sobre isso que se trata tudo, né? — falou com a voz embargada, mas firme. — Sua frieza. Suas ausências. A forma como sempre tem uma barreira entre nós.
Ela o olhou diretamente nos olhos agora, ferida… mas lutando para não cair de novo.
— Você não confia em mim?
Ele hesitou.
Mas só por um segundo.
— Não. Eu não posso confiar em você. — disse, e cada palavra parecia pesar toneladas.
Por dentro, o caos e a dor rugia.
“Como poderia confiar?”
“Depois do que ela fez comigo… no meu pior momento?”
“Quando eu precisei dela, ela virou as costas… e agora quer que eu finja que nada aconteceu?”
O pensamento latejou como uma ferida aberta.
Bryan m*l percebia, mas o que o movia não era raiva.
Era medo.
Medo de sentir de novo aquela dor — a de ser deixado, traído… de ser insuficiente.
A respiração de Mia falhou.
A dor atravessou seu peito como uma lança.
Então era verdade.
Tudo o que eles construíram.
Tudo pelo que lutaram.
A ligação sobrenatural… o vínculo da alma… nada disso bastava para curar a insegurança que Bryan carregava — talvez desde sempre.
Ela deu um passo para trás, como se precisasse se afastar fisicamente do impacto.
— Mesmo depois de tudo que vivemos… depois de eu quase morrer… de eu voltar pra você… de te perdoar?
— Você ainda acha que eu estou te traindo só por conversar com alguém , que fez parte da minha em outra vida?
A voz dela falhou no fim.
As lágrimas desceram.
Ela não gritou.
Não bateu.
Não implorou.
E então…
O ambiente mudou.
A luz da lua que entrava pelas janelas tremeluziu, como se a própria Deusa sentisse o que acontecia ali — sua ira sutil se manifestando.
As velas do bar se apagaram com um vento invisível que não vinha de lugar nenhum.
Um quadro caiu da parede com um estrondo abafado.
Um espelho rachou bem no centro — como se o universo odiasse a verdade que havia sido dita, um reflexo do vínculo quebrado.
Mia enxugou o rosto, o corpo trêmulo.
— Você nunca me perdoou de verdade, né? — disse, a voz falhando, embargada de dor. — Depois de todos esses anos, de toda dor que eu já vivi, você ainda acha que eu não sou digna da sua confiança?
Os olhos dela ainda brilhavam em prata.
Mas não por causa do vínculo.
Era a força da Deusa despertando.
Uma aura fria e potente começou a emanar de seu corpo — quase visível.
A mulher que renasceu não aceitava mais amor baseado em medo.
Ela olhou para Malik, que apenas observava em silêncio, respeitoso — uma sombra discreta — e então voltou o olhar para Bryan.
Ela sentia o nó na garganta sufocando.
Sentia as lágrimas escorrerem sem que pudesse conter.
Sentia seu coração implodindo em silêncio.
E mesmo assim, olhou nos olhos do homem que ela escolheu — e que a estava acusando sem provas, sem razão, só com o peso do próprio medo.
Ela respirou fundo, a voz falha, trêmula, e então disse com a dor de quem sabe que ama, mas não é amada com confiança:
— Nós nunca vamos conseguir ter um relacionamento, não é?
A pergunta ecoou como um sino quebrado dentro do peito de Bryan.
— Você sempre vai desconfiar de mim… sempre vai me pintar como alguém vulgar, como alguém que não é digna, né?
As palavras vinham entrecortadas pelas lágrimas.
— Então, quando você quiser, Bryan… é só me rejeitar.
— Segue sua vida. Tenha sua paz.
— Porque eu não quero mais ser o motivo do seu tormento.
Ela estava pálida, mas forte.
Quebrada, mas digna.
— Vamos acabar com isso logo então!
Ela esperou que ele o fizesse mais ele não fez.
Mia se virou.
E Bryan… não disse nada.
No silêncio que se seguiu, Malik permaneceu.
Não disse nada durante o colapso.
Não se intrometeu.
Foi apenas um telespectador do fim de algo sagrado.
Mas quando Mia desapareceu de vista, ele finalmente deu um passo à frente.
Os olhos verde-musgo brilhando na penumbra do cômodo, a aura sobrenatural envolvendo-o como um véu antigo.
E então, com a voz calma, baixa, mas carregada de uma sabedoria dolorosa, ele disse:
— Você é jovem, Alfa Bryan.
— Ainda tem tempo de consertar isso.
Fez uma pausa.
Seus olhos se estreitaram com pesar verdadeiro.
— Mas se continuar nesse caminho… vai destruí-la.
— Como Daemon fez.
— E no fim, não vai perdê-la pra outro homem. Vai perdê-la… pro seu próprio orgulho ferido.
Malik deu um passo para trás.
A escuridão parecia engolir sua silhueta com naturalidade, como se ele pertencesse a ela.
— E vai se arrepender disso. — finalizou, antes de desaparecer na noite como uma sombra silenciosa.
O quarto ficou vazio.
Bryan ainda não se mexia.
A respiração presa.
O coração aos gritos.
Mas o corpo… travado.
E dentro de si, o eco c***l da única coisa que ele nunca admitira sentir:
Medo.
Medo de tê-la perdido…
para sempre.