De repente, um som se destacou do pandemônio, um som que gelou o sangue de Mia. Um grito. Um grito de terror puro e infantil que a atingiu como um raio.
— MIAAAAAA! —
Era Zoe, a irmã mais nova de Mia. Seus olhos se cravaram na fonte do som, e o tempo pareceu desacelerar. Perto da entrada da mansão, encurraladas por um enorme lobo caramelo de olhos totalmente negros sombrios, estavam Zoe e as gêmeas de Gabriel, Maeve e Morgan. As três crianças estavam apavoradas, seus corpos pequenos tremendo. Elas eram jovens demais, ainda não haviam completado 18 anos, não podiam se defender nem se transformar.
O instinto de proteção de Mika explodiu. Com um impulso que parecia transcender a velocidade, ela se desvencilhou do combate principal. Em um pulo só, suas mandíbulas brancas e prateadas cravaram-se na pata traseira do lobo caramelo que as encurralava. Um uivo de dor e surpresa escapou do agressor, que tentou se desvencilhar.
Mika e o lobo caramelo de olhos negros entraram em uma batalha feroz e visceral. As garras de Mika riscaram o flanco do lobo inimigo enquanto ele tentava revidar com uma mordida na sua pata dianteira, mas ela era rápida demais. Com um grunhido feroz, Mika investiu novamente, não apenas para ferir, mas para aniquilar. Suas presas se cravaram com uma força inacreditável no peito do lobo caramelo, rasgando carne e ossos. Com um puxão violento e determinado, Mika partiu o lobo ao meio, o som horrível da coluna vertebral se quebrando ecoando por um breve segundo antes de ser abafado pelos uivos de dor do inimigo. O corpo do lobo caramelo caiu em duas metades ensanguentadas, e o cheiro ferroso inundou o ar.
Mas não havia tempo para alívio. Quatro lobos adicionais — um cinza-escuro, um marrom rajado, um branco de olhos negros e um lobo preto cicatrizado — já estavam cercando Mika. Ela se posicionou em defesa das crianças, seu corpo, agora salpicado com o sangue do lobo caramelo, formando uma barreira protetora. Ela rosnou, baixa e ameaçadora, pronta para enfrentar a nova onda de agressores.
Os lobos inimigos investiram simultaneamente. Mika girou, suas garras afiadas como facas. O lobo cinza-escuro foi o primeiro a se aproximar, tentando morder seu pescoço, mas Mika desviou, desferindo um golpe devastador na face do lobo, fazendo-o uivar. O lobo marrom rajado tentou flanquear pela direita, mas Mika foi mais rápida, cravando os dentes em sua pata dianteira e o jogando para longe. O lobo branco e o lobo preto se coordenaram, um indo para a esquerda e outro para a direita, tentando sobrecarregá-la. Mika saltou sobre o lobo branco rajado, cravando as garras em suas costas e derrubando-o.
Nesse instante, o link mental se ativou simultaneamente. Bryan, em forma de Bones, rugiu na mente de todos os lobos da alcateia:
“Eles não estão sozinhos, têm humanos com eles, cuidado com a prata e o aconito!”
Mika sentiu a força do comando reverberar em seu próprio instinto, reforçando sua fúria e seu foco.
Pouco depois, Benjamin, o Beta, transformado em seu lobo Blaze, cinza claro com olhos verdes penetrantes, apareceu no campo de batalha. Sua presença impôs ordem em meio ao caos. Pela primeira vez, ele falou através do link mental, coordenando a ofensiva:
“Não permitam que entrem na mansão, fechem os flancos!”
Blaze avançou com precisão, liderando parte da alcateia. Ele interceptou lobos invasores que tentavam contornar Mika, cravando suas garras com força e direcionando os ataques de forma estratégica. A disciplina e o raciocínio tático de Benjamin permitiam que a alcateia reagisse de maneira organizada mesmo em meio à carnificina. Cada movimento dele era um aviso silencioso para os lobos inimigos: não passariam.
Enquanto isso, Mika enfrentava cinco lobos simultaneamente, suas mandíbulas e garras tornando-se uma extensão de sua vontade. Um lobo cinza claro tentou morder sua garganta, mas ela o interceptou com uma patada poderosa, quebrando seu maxilar. Outro lobo, marrom-escuro, tentou rastejar por baixo, mas ela o esmagou com o peso do seu corpo, sentindo os ossos estalarem sob seu peito. Ela estava sobrecarregada, mas não desistia.
Sirenes cortaram a noite, sinalizando a chegada de reforços humanos. Mas antes que qualquer esperança pudesse se firmar, novos atacantes surgiram: lobos e homens armados com rifles e balas de prata. Mia/Mika sentiu a dor refletida em cada lobo da alcateia. Cada disparo atingindo-os era como uma lâmina atravessando sua própria carne. Com um uivo primal, ela emanou sua força lunar, fortalecendo os guerreiros, repelindo a prata e o veneno que tentava dominá-los.
Um arpão embebido em acônito cravou-se em sua pata traseira, queimando com frio venenoso. Mika, no entanto, reagiu de imediato: sua essência lunar ativou-se, protegendo-a. Com um rugido, arrancou o arpão com um som úmido e repelente. Seus olhos azuis fixaram-se no humano mascarado que disparara. Sem hesitar, Mika avançou e esmagou-o no chão, o sangue escorrendo pelo seu focinho, um aviso primal e sombrio para qualquer outro inimigo.
Blaze lutava ao seu lado, interceptando lobos que tentavam flanquear Mika. Suas garras e mandíbulas eram precisas e estratégicas. Ele guiava os aliados e fechava os espaços, cumprindo a ordem de proteger os flancos da mansão. A presença de Benjamin tornou a batalha menos caótica, cada comando dele amplificado através do link mental, garantindo que os lobos da alcateia não fossem esmagados pela maré de inimigos.
Do outro lado, Bryan/Bones esmagava lobos negros e enormes com golpes devastadores. Cada ataque seu provocava ondas de impacto, e os invasores recuavam diante da força combinada dele e de Mika. Gabriel e seu lobo Gale chegaram com fúria paterna, limpando o caminho até suas filhas.
No meio do campo de batalha, Mia sentiu uma dor diferente: a dor de um laço de sangue quebrado. Sob o carvalho centenário, seu irmão Leo Ashworth estava caído, ensanguentado, se arrastando tentando se proteger. Ela correu até ele e esmagou o lobo que o atacava, em seguida ela voltou a forma humana e ajoelhando-se ao lado dele , segurou sua mão fria.
— Vamos, Leo. Você é um Ashworth, nós somos feitos de aço , lembra? Você tem que conseguir … Serena precisa de você … não se renda … — murmurou, firme e embargada , as lágrimas já caindo e se misturando com a sujeira.
A batalha rugia ao redor, mas o mundo de Mia reduziu-se à proteção dos seus e à força de sua alcateia. Apesar de toda a opressão, os invasores não obedeciam completamente aos comandos de Bones e Mika. A praga que enfrentavam era anormal, e a quebra do instinto primal deixava claro: não era uma batalha comum.
No auge do combate, Bryan/Bones e Mia/Mika uniram seus rugidos através do link mental, enquanto Benjamin/Blaze coordenava os flancos.
Cada comando reverberava, inspirando a alcateia e assustando os inimigos. Mia percebeu que mesmo com toda sua força, precisariam de cada aliado, humano ou lobo, para proteger as crianças e os mais frágeis que se abrigavam na mansão.
O caos continuava, mas a liderança combinada de Bryan, Benjamin e Mia dava esperança: mesmo cercados, a força e a estratégia da alcateia Blackwolf começava a dominar a batalha. O link mental provava ser tão poderoso quanto a força física, e cada palavra de comando era uma extensão da própria vontade da liderança sobre a matilha.
Mia segurava as mãos de Leo, sentindo seu corpo frágil sob o toque, enquanto os paramédicos tentavam estabilizá-lo. Cada batida do coração dele parecia ecoar dentro dela, cada pulsar mais fraco, mais urgente.
Então, Selena surgiu correndo em forma de sua loba Siren, seus olhos laranjas fixos em Leo. Em um instante, ela se transformou de volta em humana, a respiração ofegante, o rosto tomado pelo desespero. Aproximou-se de Mia, os braços estendendo-se em direção ao noivo.
— Não, Leo… amor… por favor! — soluçou, a voz trêmula e carregada de dor, sem conseguir conter o medo que a consumia.
Mia sentiu o aperto no peito crescer. O uivo de dor de Selena, mesmo em voz humana, reverberava no coração de todos ali, ecoando pelo campo de batalha.
E então, algo chamou sua atenção: a lua começava a mudar. O brilho prateado tornou-se avermelhado, tingindo o campo de batalha com sombras sinistras. A noite estava longe de acabar, e Mia soube, com cada fibra do seu ser, que o perigo ainda era muito maior do que imaginavam.