Capítulo 78 - O Baile da Lua ( Parte 3 )

1332 Words
A música seguia suave, mas nada disso alcançava Bryan. Ele já tinha virado duas taças. Talvez três. O vinho lunar queimava, mas não o suficiente para silenciar a ira silenciosa que crescia nele desde que Daemon saíra. Mia percebeu primeiro pela respiração dele — curta, tensa. Depois pelo olhar — distante, duro, frio. O vínculo arranhou a alma dela com um alerta. Ela se aproximou, a voz baixa para não chamar atenção: — Bryan, vamos sair um pouco e conversar? Ele não virou o rosto. Nem piscou. Apenas ergueu outra taça e bebeu como se aquilo fosse oxigênio. Depois pousou o copo com força na mesa. Ele balança a cabeça em negação e fala: — Eu estou bem aqui!. Frio. Cortante. Uma barreira de gelo ergida em segundos. Mia sentiu o golpe como um estilhaço no peito. Há poucos minutos, ele estava gentil, atento, quente ao toque. Agora… estava a quilômetros dela, perdido dentro de si mesmo. O vínculo pulsou dolorido, como se dissesse: ele está caindo de novo. Ela tentou respirar fundo, manter a postura de Luna. Mas por dentro, era só angustia se acumulando. Foi então que ela percebeu algo mudando no silêncio ao redor — olhares virando, murmúrios discretos, um perfume suave se espalhando pelo ar antes mesmo da presença física. Mia ergueu o olhar. Júpiter Starlight atravessava o salão, aproximando-se da mesa deles com passos medidos, educados, quase hesitantes. Ela não vinha com brilho exagerado, nem com intenção de se exibir. Vinha apenas… vindo. E isso era o bastante para arruinar o pouco de paz que restava. Mia sentiu o estômago afundar. “A noite só piora.” A angústia subiu pela garganta como metal quente. Bryan percebeu a aproximação dela sem precisar olhar. O cheiro. A lembrança. A culpa. Tudo bateu de uma vez — e o lobo dele estremeceu tão forte que Mia sentiu pelo vínculo. Ele bebeu de novo. Rápido. Quase violento. Júpiter já estava a poucos passos da mesa quando Bryan finalmente ergueu os olhos para ela. O mundo pareceu se contrair naquele instante. Mia ficou imóvel. A Lua. O Alfa. A relíquia do passado. E o salão inteiro prendeu a respiração. Júpiter parou diante deles. Seus olhos foram primeiro a Bryan, por meros segundos — e mesmo assim, aqueles segundos foram suficientes para incendiar o Alfa. — Boa noite, Rei Alfa. — disse ela com doçura educada. Ele respondeu com silêncio. Com olhar. Com dor visível demais para quem sabe ler. Então Júpiter se voltou para Mia. Ali, algo no salão realmente parou. Os olhos esmeralda se prenderam aos de Mia com intensidade calma, respeitosa, quase humilde. O sorriso pequeno que surgiu era tão sincero que chegava a ser c***l. — Minha Rainha — disse ela, firme, clara, envolvente — está maravilhosa como sempre. É uma verdadeira honra estar em sua presença. Ela sempre demorava olhando para Mia — sempre com aquele misto de admiração, culpa e algo que beirava o desejo, mas nunca atravessava a linha da insolência. Era um olhar que jamais buscava poder… apenas redenção. Júpiter então se encurvou. Sem exageros. Sem arrogância. Sem provocação. Era reverência. De verdade. Mia sentiu sua garganta arder com um gosto metálico. Era a loba Mika rugindo dentro dela, exigindo território, espaço, domínio. Exigindo que ela tomasse de volta tudo o que lhe pertencia. Porque a presença de Júpiter ao lado de Bryan sempre fora uma ferida aberta — uma que Mia nunca pediu para carregar. A postura de Mia endureceu. O sorriso dela surgiu como lâmina polida. — Júpiter — disse ela, com uma doçura tão precisa que cortava pele — fico feliz com a sua sempre tão graciosa e bela presença. O salão engoliu em seco. O ar parecia preso no teto, nas colunas, nas bocas abertas de surpresa. Bryan ficou boquiaberto. Ele esperava o confronto, o atrito, o gelo habitual entre elas. Não aquele elogio afiado, elegante e fatal. Aquilo era guerra em forma de educação. Era Mia dizendo sem dizer: eu vejo você, eu tolero você, mas não te aceito. Conselheiros, líderes de matilha, emissários — todos observaram como se assistissem a um duelo silencioso entre forças femininas ancestrais. A deusa coroada. A estrela caída. A Rainha. A relíquia do passado. Júpiter hesitou por uma fração de segundo. Um micro vacilo. O sorriso dela perdeu força — e no olhar, uma sombra de dor apareceu. Não era dor de amor perdido. Era dor de saber que sua simples existência machucava. Ela baixou a cabeça levemente e recuou, indo em direção à mesa dos trigêmeos. E foi aí que o mundo de Bryan começou a ruir. Axel sorriu para Júpiter como quem vê luz. Niel tocou o braço dela com delicadeza antiga. Gael a encarou como se ela fosse feita de pecado e salvação. E Júpiter… riu. Riu com aquela suavidade que Bryan lembrava bem demais. Foi o suficiente. A taça em sua mão estalou. O cristal quebrou lentamente, como se acompanhasse o ritmo do coração dele. O sangue escorreu entre os dedos, quente, mas ele não sentiu dor. O que queimava era outra coisa. — Bryan… — Mia sussurrou sem olhá-lo, mas percebendo tudo pelo vínculo. Ele não respondeu. Estava cego. Possuído. Consumido por uma mistura de raiva, desejo, vergonha, vingança e memória que parecia querer explodir de dentro dele. Porque a verdade c***l era simples: Júpiter havia sido dele. Nas sombras. No silêncio. Na tragédia. E parte de Bryan — a parte que ele tentava esconder — ainda a desejava. Um desejo que Mia sentia, percebia, compreendia… e odiava. Mia observou Júpiter de longe. E entendeu, com amargura: Júpiter não fazia por m*l. Era gentil demais. Boa demais. E isso tornava tudo pior. Porque não havia vilã ali. Não havia manipulação. Havia apenas… destino quebrado. E Bryan foi caindo. Caindo no mesmo buraco onde já esteve antes. Caindo na lembrança do corpo de Júpiter. Caindo no poder que teve sobre ela. Caindo no desejo que ele jurou que havia matado mas que estava ali, vivo, respirando na mesa da frente. Mia viu. Sentiu. Percebeu. E então… Bryan estalou. Mia virou o rosto para ele, tentando alcançá-lo por dentro, tentando encontrar alguma brecha no muro que ele erguera tão rápido. Foi então que ele falou. Não olhando para ela. Não encarando. Apenas olhando de lado, a mandíbula travada, a voz baixa e amarga como ferida antiga: — Eu só queria, Mia… ser tudo pra você. Como você é pra mim. Mia sentiu o peito apertar. Sentiu a garganta fechar. O vínculo tremeu como se estivesse se partindo em dois. Ela respirou, lutando para manter a voz firme, mas falhou. Saiu trêmula, ferida, real: — Bryan… você é tudo pra mim. Mas ele não acreditou. Nem por um segundo. Por dentro, o pensamento dele queimou como veneno: “Só que eu não acredito nisso… Eu só quero você, Mia. E não uma substituta.” Ele não disse. Não teria coragem. A verdade era feia demais pra ser solta no ar. Pensou. Mas não disse. Mia tentou tocá-lo — mas Bryan não reagiu. Foi exatamente nesse instante que ele viu Júpiter se levantando da mesa dos trigêmeos. Foi como um estalo dentro dele. Uma explosão silenciosa. Uma decisão automática. O copo quebrou completamente na mão dele. O sangue escorreu. Os olhos dele não desgrudavam de Júpiter. Não como homem apaixonado. Mas como lobo reivindicando algo que já não era seu. O álcool queimava. A vergonha queimava. O orgulho queimava. E Mia… Mia sangrava por dentro, mas manteve a coroa firme. A sala girou em luzes e perfume. O coração de Bryan martelava no peito. Cada batida era um grito silencioso. E então ele levantou. De repente. Brusco. Perigoso. A cadeira raspou no chão. Alguns olhares se viraram. Ele ignorou todos. O sangue na mão. O álcool na respiração. O passado na mente. O presente quebrando. Ele deu um passo. Depois outro. Com a respiração pesada, o peito aberto, o lobo à flor da pele. E foi atrás dela. Atrás de Júpiter Starlight.
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