Capítulo 63 - Ecos de medo

1231 Words
O café da manhã na mansão Blackwolf parecia uma reunião de fantasmas. A mesa estava posta. O cheiro do café subia. Mas nenhum som. Nenhuma vida. Bryan m*l tocou na comida. Olhos fixos no vazio, maxilar travado, dedos tamborilando com a ansiedade que ele fingia não ter. Mia, à esquerda, também quieta. Postura perfeita, alma esgotada. Os olhos… mortiçados. Como vidro embaçado. Luke empurrava a torrada. Logan observava como um lobo pequeno e atento, lendo o silêncio dos adultos. Até Lauren a bebê estava quieta naquele dia. Cada um perdido em seus próprios pensamentos. A casa inteira parecia esperar algo. Foi quando Bryan, distraído, deixou escapar: — Eu preferia ficar aqui com vocês… A frase cortou a mesa. Mia ergueu o olhar. Sem lágrimas. Sem doçura. Só cansaço. — Está tudo bem, Bryan. Eles precisam de você. Vá. Faça o que tem que ser feito. Ele engoliu seco. Não disse nada. Não sabia o que dizer. Ajeitou a gola como quem põe armadura e se levantou. Passou a mão nos cabelos dos meninos, beijou a testa da bebê. Tentou tocar o ombro de Mia — ela não reagiu. Ele saiu. A porta fechou. O silêncio ficou pior. No carro, indo para a escola, ninguém falou. Luke apertava o pingente lunar como se fosse sua última âncora. Logan olhava a rua com atenção adulta demais para a idade. — Mamãe… — Luke finalmente sussurrou. — E se eles voltarem? E se te levarem de novo? Mia sentiu o peito rachar. Logan virou rápido: — Não fala isso, Luke. A mamãe vai ficar bem. Mas a voz dele tremia. Mia forçou um sorriso no retrovisor. — Eu sempre volto, meus amores. Sempre. Ela esperou até vê-los entrar na escola, guardas seguindo cada passo deles. Só então seguiu seu caminho. No trajeto até o QG, algo estranho chamou sua atenção. Uma cafeteria. Pequena. Enfiada entre prédios corporativos. Lugar que ela conhecia de trás pra frente. Mas aquela cafeteria… nunca existiu ali. Mia freou. Entrou. O sino não tocou. O ar era parado demais. Pediu um chá, encostou-se no vidro, tentando organizar a mente antes de enfrentar Bryan no QG. Então ouviu: — A luz não devia caminhar tão perto do vidro, filha… Ela virou. Uma velha. Rosto comum demais. Olhos fundos. Um sorriso que não alcançava o olhar. — A senhora falou comigo? — Mia perguntou. — Falo com quem escuta. — A velha inclinou a cabeça. — Você não devia passar por lugares que não têm memória sua. Mika rosnou dentro dela. Arrepios escorreram pela espinha. — Nunca vi essa cafeteria — Mia disse, olhando ao redor. A velha respondeu: — Algumas portas só aparecem quando a luz incomoda quem dormia. O corpo de Mia gelou. — A senhora mora por aqui? A velha sorriu — e o sorriso foi pior do que silêncio. — Nem tão perto do QG… nem tão longe da lua. Paredes têm olhos, filha. E certas sombras… não gostam de ser chamadas. A porta bateu com o vento. Quando Mia piscou, a velha sumiu. Literalmente sumiu. Mia deixou dinheiro no balcão e saiu rápido. Pegou o celular. Mia: Malakai, apareceu uma cafeteria nova na 3rd Avenue. Malakai: Nova? Mia: Você construiu? Malakai: Mia… não tem cafeteria nenhuma ali. O estômago dela afundou. Magia. Mia então se dirige ao QG da Alcateia aonde Bryan trabalhava. O QG abriu para ela como se reconhecesse sua energia. Todo mundo parou. Todos baixaram o tom. Assim que Mia entrou no saguão do QG, o efeito foi imediato. As conversas cortaram. As colheres pararam no ar. Os olhares se voltaram como se alguém tivesse puxado um fio invisível. Deltas, Betas, Gamas, recrutas, Omegas servindo café… todos reconheceram a mudança. Não era apenas a companheira do Rei Alfa entrando. Era A Luna. E naquele dia, ela carregava um fogo que ninguém ousou encarar por mais de dois segundos. A aura dela cortava o ar como lâmina — fria, firme, letal. Era a loba. A sigma. A lenda viva passando pelo corredor. Alguém correu para o fundo, apressado, ativando o elo mental: “A Luna está aqui. Sozinha. Indo para o núcleo.” No andar de cima, Bryan já estava de pé antes mesmo do aviso chegar. A cadeira tombada atrás dele denunciava a pressa. Ele sentiu a presença dela — não pelos guardas, mas pelo vínculo. Mesmo desgastado, machucado, enfraquecido… o laço entre eles ainda vibrava como eletricidade bruta. O lobo dele reagiu primeiro. O coração bateu forte. Um aviso instintivo: tempestade se aproximando. Por que ela veio aqui? O que ela quer? Ela ainda não estava pronta para voltar a este lugar. Não depois do que viu aqui dentro. A lembrança do escritório — sangue, passado, Lívia, o erro imperdoável — atravessou sua mente como uma lâmina quente. Aquele era o epicentro da queda deles. E agora Mia estava voltando para o mesmo lugar. Sem medo. Sem desculpas. Sem esconder a firmeza. Bryan entendeu no mesmo instante: Mia estava quebrando as próprias barreiras. As dele também. E tudo o que estava entre os dois. Mia caminhou firme, passos marcando autoridade que ela nunca tinha deixado vir à tona. No último corredor, Bryan apareceu. Alto. Tenso. Alerta. — Mia — disse, tentando manter o controle — o que você está fazendo aqui? Ela passou reto por ele, sem se intimidar. E parou diante da secretária dele a encarando. — Quero sua agenda. Completa. — Ela disse. — E quero participar das reuniões da matilha. Diana, a secretária, quase derrubou o tablet. — Lu-Luna… eu… — Me entregue — Mia ordenou. Bryan apertou o maxilar. — Mia, oque está fazendo ? Ela o olhou como ele nunca tinha visto antes. — Estou fazendo oque sempre deveria ter feito… Bryan a encara a testa franzida. — Bryan… eu não preciso saber onde você está. Eu preciso saber onde eu devo estar. Sou a Luna. E não vou mais ficar de fora das decisões que protegem nossos filhos e a nossa matilha. A agenda não é pra te controlar. É pra eu assumir o meu lugar. O corredor congelou. Diana entregou o tablet com mãos trêmulas. Quando Mia pegou o tablet, algo mudou no ar. Uma energia atravessou o corredor — silenciosa, prateada, poderosa. Os olhos dela brilharam. Lobos abaixaram a cabeça instintivamente. A Luna despertou. Mia virou. E começou a sair. — Mia — Bryan chamou, a voz quebrada entre orgulho e medo. — Mia, espera. Ela parou. Respirou. Ele se aproximou um passo. — Vamos pra minha sala... A gente precisa conversar. Por favor. Ela não disse nada. Só caminhou ao lado dele — o corredor inteiro observando. A sala dele parecia menor do que antes. Ou talvez fosse ela que agora estava maior. Bryan fechou a porta devagar, como quem tem medo de assustá-la. Virou-se. Olhou a mesa. Olhou a parede onde tudo aconteceu. Engoliu seco. — Eu… eu vou mudar de sala — ele disse, com esforço. — Se isso fizer você se sentir melhor… eu mudo hoje mesmo. Eu faço agora. Mia soltou uma risada curta, amarga. Uma risada que Bryan nunca ouviu dela. — Você acha que isso vai apagar o que você fez? Ele respirou fundo, o golpe acertando em cheio. A sala ficou pequena para os dois. O passado estava ali, queimando nos móveis, no ar, no corpo deles. E o presente… o presente estava prestes a mudar tudo.
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