Zeus Narrando
Fiquei ali, sentado na boca, depois que a Carol saiu. A cabeça parecia que ia explodir. Minha filha. A herdeira do Dendê. Passou a noite com o filho do Mendonça. Não uma noite. DUAS NOITES. Na casa dele. No carro dele. No chuveiro dele. Na cama dele.
Putä que pariu.
Levantei, andei de um lado pro outro, as mãos na cabeça. O problema não é ela se envolver com bota. O problema não é ela sentir atração por um homem que não é do morro. Isso eu entendo. A Janete nunca foi do morro, era patricinha do Leblon, e eu senti atração por ela no primeiro olhar. Sabia que ela podia trazer caos, podia trazer o inferno pra dentro da minha vida. Mas eu quis. E tô aqui 30 anos depois.
Agora, a Carol se envolver com o FILHO do meu pior inimigo? Com o filho do homem que me persegue há décadas? O cara que tem ódio de mim desde a juventude, que perdeu alguém importante e me culpou por isso? Isso não é só atração. Isso é burrice. Isso é provocação. Isso é... sei lá o que é.
E o pior: vou ter que comunicar o comando. Porque a guerra entre eu e o juiz Mendonça não é só uma briga pessoal. Afeta diretamente o Comando Vermelho. Se o filho dele se envolveu com a minha filha, pode ser estratégia. Pode ser golpe. Pode ser tudo. E eu vou ter que explicar pros chefes que a minha sucessora, a minha herdeira, deixou o inimigo entrar na nossa vida.
Cheguei em casa feito um furacão. A Janete tava na cozinha, fazendo café. Quando me viu com aquela cara, já sabia que o bagulho era sério.
— O que foi, amor? — ela perguntou, secando as mãos no pano.
— O que foi? A tua filha passou a noite com o filho do Mendonça.
Ela parou. Me olhou.
— Como assim?
— Isso mesmo. A Carol. Nossa filha. Passou a noite com o filho do desgraçado do juiz. E não foi uma noite, foram duas. Na casa dele. No carro dele. No chuveiro dele. Na cama dele.
A voz foi subindo. Eu sentia o sangue fervendo.
— Calma, Zeus — ela disse, vindo na minha direção.
— COMO É QUE EU FICO CALMA, JANETE? — gritei. — Como é que eu fico calma sabendo que a minha filha não só transou, como esteve na casa, como passou a noite, DUAS NOITES, com o filho do meu pior inimigo? Me explica!
Ela segurou meu braço, tentando me acalmar.
— Amor, não adianta chorar pelo leite derramado. O que tá feito, tá feito. Agora a gente precisa pensar no que fazer.
— Pensar no que fazer? A única coisa que eu posso fazer é comunicar o comando. Porque isso não é mais só briga minha. Isso afeta todo mundo.
Ela balançou a cabeça.
— Vou conversar com ela. Acho que ela não se apaixonou.
Soltei uma gargalhada amarga.
— Apaixonar? Eu sei que ela não se apaixonou, Janete. Merda feita ela dormiu com o cara. Agora, e se ele dormiu com ela de propósito? E se foi tudo armação?
Ela riu também. Diferente de mim.
— Ah, pelo amor de Deus, né? A Carol é linda. A Carol é maravilhosa. É uma mulher atraente. Qualquer homem pararia pra olhar pra ela. Qualquer homem mataria pra ficar com ela. Tira isso da sua cabeça. Tudo pra você tem a ver com o Mendonça.
Parei. Olhei pra ela. A raiva subiu de novo.
— Tá defendendo ele agora? É isso? Tá passando pano pro filho do Mendonça?
— Não tô defendendo ninguém, Zeus. Tô sendo realista. Nem tudo é conspiração. Às vezes as coisas simplesmente acontecem.
— Simplesmente acontecem? — a voz saiu grossa, alterada. — A MINHA FILHA TRANSÄR COM O FILHO DO MEU INIMIGO NÃO É COISA QUE SIMPLESMENTE ACONTECE, JANETE!
Ela não recuou. Ficou ali, me encarando.
— Então me diz o que você quer fazer. Quer matar ela? Quer expulsar do morro? Quer mandar matar o rapaz sem saber se ele tinha ou não intenção? DIZ LOGO!
— QUERO QUE VOCÊ PARE DE DEFENDER O MENDONÇA!
O nome ecoou na cozinha. O silêncio caiu pesado.
Ela me olhou. Os olhos dela, que sempre me acalmaram, agora estavam diferentes. Magoados.
— Se eu quisesse ficar com ele, eu teria ficado — ela disse, a voz baixa, mas firme. — Eu escolhi ficar com você, Zeus. Há 30 anos. Enfrentei minha família, a sociedade, o mundo. Por você. E você me ofendeu agora. Sabia?
A frase ficou no ar.
Fiquei sem saber o que dizer. Ela virou as costas e foi saindo da cozinha.
O leão tava acuado. E pela primeira vez em muito tempo, não sabia se devia rugir ou se calar.
A Janete saiu da minha visão. A porta do quarto bateu. Não com força, mas bateu. E aquele silêncio depois foi pior que qualquer grito.
Fiquei parado, olhando pro nada. A raiva ainda fervendo, mas já misturada com um negócio estranho no peito. Um aperto. Uma merdä de sentimento que eu não tava sabendo nomear.
— Janete — chamei. Nada.
Respirei fundo. Fui atrás.
Bati na porta do quarto.
— Janete, abre a porta.
Silêncio.
— Janete, pelo amor de Deus, abre.
Nada.
Passei a mão no rosto. A cabeça doía. O corpo doía. Tudo doía.
— Janete, eu não queria…
A porta abriu. Ela tava lá, os olhos secos, mas a expressão fechada. Daquelas que a gente sabe que é pior do que choro.
— Não queria o quê, Zeus? Não queria me tratar como um dos teus homens? Não queria gritar comigo como se eu fosse a Carol? Porque eu não sou, não. Eu sou tua mulher. Há 30 anos. E nunca, NUNCA, você me olhou desse jeito.
— Eu tô nervoso, caralhø. A situação é føda.
— Eu sei que é føda. Tô aqui, do teu lado, tentando ajudar. Mas você não quer ajuda. Você quer alguém pra botar a culpa. E como a Carol não tá aqui, sobrou pra mim.
Ela tinha razão. Merdä, ela sempre tinha razão.
— Não é isso — tentei.
— É exatamente isso. Você gritou comigo. Me acusou de defender o Mendonça. O homem que você mais odeia nesse mundo. Como se eu tivesse escolhido ele em vez de você. Como se 30 anos não tivessem significado nada.
A voz dela tremia, mas ela não chorava. Janete nunca chorava na minha frente quando tava com raiva. Só quando tava triste. E aqui, nesse momento, ela tava com raiva.
— Janete, escuta…
— Não. Agora você me escuta. Eu vou falar com a Carol. Vou tentar entender o que aconteceu. Vou tentar ajudar nossa filha. Porque é isso que mãe faz. Mas você vai ter que decidir se quer ser meu marido ou meu comandante. Porque os dois não dá.
Ela fechou a porta de novo.
Dessa vez, eu não bati.
Fiquei no corredor, ouvindo o silêncio.
A casa inteira parecia vazia. Mesmo com ela ali, do outro lado da porta, parecia vazia.
Desci as escadas devagar. A garrafa de whisky ainda tava no chão, os cacos espalhados, o cheiro forte no ar. Peguei o pano, comecei a catar os pedaços. Devagar. Sem pressa. Precisava de algo pra fazer com as mãos.
Cada caco que eu pegava, uma imagem vinha na cabeça. A Carol pequena, correndo no quintal. A Janete rindo, pela primeira vez, quando subiu o morro. O dia que a Carol disse que ia comandar o Dendê um dia.
E agora, tudo isso parecia ameaçado.
Por um homem. Por um filho da p**a que eu nem conhecia.
Terminei de catar os cacos. Joguei no lixo. Lavei as mãos. Olhei pro teto, pro andar de cima, pra porta fechada.
Queria subir. Queria pedir desculpa. Queria abraçar ela.
Mas o orgulho... o orgulho é føda.
Sentei no sofá. Fiquei lá, no escuro, esperando o dia clarear.
Esperando ver se, quando o sol nascesse, ainda teria uma família pra proteger.
Continua...