Carol Narrando
Mano, já se passaram três dias e a pørra da agonia não sai do meu peito. Püta que pariu, não sei se é o ódio que tá me fazendo pensar nele todos os dias ou se realmente eu tô sentindo alguma coisa por esse desgraçado. Toda vez que eu fecho os olhos, eu escuto — eu só não vejo a boca dele mexendo, mas escuto a voz dele dizendo que não pensou que fosse se apaixonar por mim.
Será que a Júlia, a Raíssa e a Tânia têm razão? Será que ele pode não estar jogando? Será que ele realmente não sabia quem eu era e de quem eu sou filha?
Não sei nem o que pensar mais. A única coisa que eu sei é que eu preciso esquecer isso e focar na p***a do mandado de invasão que o arrombado do juiz já autorizou. Tô pior que homem que não consegue descarregar o pente.
Tive uma conversa franca com a minha coroa. Ela pensa assim como as meninas — mesmo sabendo dos perigos, ela acha que eu preciso rever meus pensamentos. Ela ainda falou que não é que ela seja a favor ou contra, porque qualquer pessoa em sã consciência sabe que um relacionamento assim é guerra pura. Mas ela, como sempre, tenta explicar os dois lados. Essa é uma das qualidades da minha mãe.
Ontem, antes de eu deitar, chegou uma mensagem de um número com DDD 011. Mas não tava afim de descobrir quem era — ainda mais que é DDD de São Paulo. Então não tô afim de ver nada que se refere ou lembre aquele desgraçado. Cai na cama sem ânimo, mas precisava estar bem pro confronto.
Pulei da cama ouvindo o rádio chiar lá embaixo. Arrumei a cama e fui direto pro banheiro tomar aquele banho gelado. Aproveitei pra lavar o cabelo, já que desmanchei as tranças ontem. Resolvi que ficaria uns dias assim, porque não tô me sentindo bem e não tenho paciência nenhuma pra ficar sentada por horas esperando alguém mexer no meu cabelo. Eu tô é a paciência em pessoa.
O banho foi rápido, porque toda vez que fico muito tempo, a imagem do filho da p**a gostoso vem na minha frente. Saio já escovando os dentes. Coloco uma calcinha, uma calça preta e uma blusinha preta também. Passo meu creme de cachos perfeito, passo a escova já dando aquela balançada no cabelo.
Peguei a Taurus. Quando puxei o pente pra verificar, lembrei da minha frase, em que falei pras meninas que da próxima vez que eu visse o Lopes, ia ser pela mira da minha Taurus. Verifiquei e coloquei na parte de trás da calça.
Peguei meu telefone. Liguei o wi-fi. Vi que tinha mensagem da minha mãe, mensagem das meninas no grupo, e uma mensagem da Raíssa separadamente. Já fiquei meio cabreira, porque a Raíssa falar algo só comigo que não seja no grupão... aí tem.
Abri a mensagem da Raíssa.
Raíssa: Carol, me liga urgente. Descobri uma parada.
Respirei fundo. Desci as escadas rápido, fui pra cozinha, e liguei no mesmo instante.
Ela atendeu no primeiro toque.
— Fala, Raíssa. O que foi?
— Amiga, consegui puxar as movimentações do Lopes no sistema do IBGE. Os registros de pesquisa, as consultas que ele fez.
— E daí? — perguntei, o coração acelerando.
— Ele só te procurou DEPOIS que vocês ficaram na primeira blitz. Antes disso, nada. Ele não tava te investigando, Carol. Ele não sabia quem você era.
Fiquei em silêncio por um segundo.
— Isso não prova nada, Raíssa. Ele pode ter apagado, pode ter usado outro sistema.
— Carol, eu manjo disso. Se ele tivesse apagado, eu ia saber. Se tivesse usado outro sistema, eu ia achar o rastro. Não tem. Ele começou a procurar depois que te conheceu.
— E daí? — repeti, a voz mais alta. — E daí que ele não sabia quem eu era antes? Isso não muda o fato de que ele é filho do desgraçado do juiz.
— Não muda. Mas será que o pai dele não tá só usando essa circunstância? Será que o Lopes não é tão vítima disso quanto você?
Dei uma gargalhada seca.
— Vítima? Ele é policial, Raíssa. Ele é filho do homem que quer matar meu pai. Vítima é quem vai morrer nessa guerra.
— Carol, pelo amor de Deus, escuta o que eu tô falando. Se ele quisesse saber quem era você, ele podia ter chegado e perguntado. Se ele suspeitasse de alguma coisa, podia ter investigado antes. Mas ele não fez. Ele se envolveu com você de verdade.
— CALA A BOCA, RAÍSSA!
Silêncio do outro lado.
Respirei fundo. Passei a mão no rosto.
— Desculpa. Desculpa, amiga. Mas pra mim já deu. Vou tomar meu café, tenho que fazer umas coisas. O dia tá começando e a qualquer momento os bota podem chegar na entrada. A guerra vai ser grande, e eu não quero estar com bosta na cabeça muito menos pensando nele.
— Carol…
— Escuta, se ele vier pra cima, é como eu falei pra vocês. O tiro vai ser certeiro. E vai ser na testa. Praquele desgraçado do juiz não achar que pode se meter onde não deve.
Desliguei o telefone. Coloquei o pó na cafeteira, enchi de água, liguei.
Foi quando os fogos estouraram no céu.
— PÜTA QUE PARIU! — gritei, olhando pro alto. — NÃO ACREDITO QUE VAI SER ANTES DE EU TOMAR MEU CAFÉ DA MANHÃ! O JUIZ TÁ COM PRESSA, PØRRA!
Joguei a xícara na pia, peguei a Taurus, e corri pra porta.
No caminho, já puxei o rádio.
— Pai, Neguinho, Babau, cês tão me ouvindo?
A voz do Neguinho respondeu na hora, chiando no aparelho.
— Tamo aqui, patroa. O bagulho já começou?
— Segura a barreira. Todo mundo pro lugar. Eu tô indo.
A voz do Babau veio na sequência.
— Já tamo indo. Os fogos tão vindo da entrada sul.
Respirei fundo, acelerando o passo.
— Não deixa ninguém passar. Eu quero todo mundo armado até os dentes. Se for invasão, a gente faz eles pagarem caro.
A voz do Zeus cortou o rádio, grossa e firme.
— Filha, vem com calma. Tô indo também.
— Já tô saindo, coroa. Só segura aí.
Desliguei o rádio, montei na moto e liguei o motor.
O ronco encheu a garagem. Acelerei.
O Dendê tava em alerta. E eu tava pronta pro que viesse.
Continua...