Capítulo 43 Lopes

1144 Words
Lopes Narrando Desde aquele dia, daquele encontro depois daquela pørra daquela noite perfeita com a mulher mais incrível que eu já topei na minha vida, meus pensamentos não foram mais os mesmos. Na verdade, a p***a dos meus dias não foram mais os mesmos. Eu não tava conseguindo tirar ela dos meus pensamentos. Imagina agora que eu sei quem ela é. Eu sei que por mais que eu fale que não tenho nada a ver com isso, depois que aquela sirene ecoou no ar, ela montou na moto e saiu chutada. Quando os cara desceram e falaram que receberam uma notificação de que a filha do Zeus estava naquele local, eu percebi. Eu posso ter sido colocado na blitz de propósito. Eu posso ter sido colocado naquele lugar de propósito. Eu acho que eles não imaginavam que eu ia me envolver com ela, nem que ela se envolveria comigo. Porque eu entendi que não é o estilo dela sair assim dando em cima ou dando brecha pra qualquer um. Mas que o meu pai me plantou ali pra poder estar na linha de frente pra pegar o Zeus, isso eu tenho certeza. O que eu falei pra ela fica martelando na minha cabeça como uma fita sendo rebobinada. Quando ela perguntou se eu sabia quem era o pai dela, eu falei que não. A única coisa que eu não imaginava é que eu poderia me apaixonar por ela. A p***a da frase saiu com uma naturalidade, como se eu já tivesse me apaixonado antes por alguém. Eles desconversaram, mas tô ligado que tem dedo do Barroso nessa p***a. Já tô atrás de uns podres dele. Eu vou derrubar esse filho da p**a. Deixa ele achando que tá por cima da carniça. Deixa ele achando que tá com a corda toda. Quando ele menos esperar, eu puxo o tapete dele. Ele tá achando que a parte dele ser veterano no batalhão muda alguma coisa? Ele acha que eu sou algum filho de papai almofadinha? Então ele não sabe o que é ser criado pelo juiz Mendonça. Acordei depois de uma p***a de uma noite m*l dormida. Porque só de pensar que hoje era o dia daquela invasão, eu não tô perdendo só o meu sono. Tô perdendo o meu apetite. Tô perdendo até a vontade de continuar no batalhão aqui do Rio. Se eu já tava com a pulga atrás da orelha de não querer subir sem saber se ia bater de frente com ela, sem saber que ia descobrir quem ela era só na hora desse confronto, agora eu sei que ela é o principal alvo junto com a família dela dessa invasão. O banho foi demorado. Foi na banheira, mas foi na banheira de gelo. Em poucos segundos eu já estava dentro da beca, dentro do meu uniforme. Antes de eu tomar café, o primeiro tapa na cara foi a ligação do coroa dizendo que me queria puxando o batalhão pra dentro do morro. Que era eu que ia dar as ordens. Ele sabia. O filho da p**a sabia que eu ia ter que encarar ela. E mesmo assim me colocou na linha de frente. Eu me juntei ao batalhão sem tomar café, porque não deu tempo. O coroa conseguiu tirar com a ligação dele o restinho de apetite que ainda restava em mim. Armados até os dentes, preparados pro que der e vier, seguimos dentro dos caveirões rumo ao Morro do Dendê. A ordem de invasão pendurada na frente do caveirão, como se fosse pra esfregar na minha cara o que eu estava indo fazer. Quando viramos a rua, já ficando de frente pro morro, os fogos estouraram no céu do Dendê. Os cria avisando que tinha gente — intruso subindo. Dentro do caveirão, o clima era tenso. O motor roncando, os homens checando as armas, o cheiro de pólvora e suor no ar. Eu olhava pela fresta, tentando enxergar algo lá fora. Tentando não pensar que em algum lugar daquele amontoado de casas, ela estava. A Carol. A mulher que mexeu comigo. A mulher que eu não conseguia tirar da cabeça. E que agora, do outro lado dessa guerra, era o alvo. Como é que a gente chega nesse ponto? Como é que duas pessoas que se encontraram por acaso, que se entregaram daquele jeito, agora estão em lados opostos de um fogo cruzado? O Barroso se aproximou, com aquele sorriso de canto que eu já tava cansado de ver. — Lopes, só pra deixar claro uma coisa. A morena é minha. Você pega o Zeus e deixa a filha dele comigo.— O arrombado do Barroso fala. Meu sangue gelou. Meu punho fechou dentro da luva. Mas eu não falei nada. Não podia. Não aqui. Você nem louco de tocar nela. Se você chegar perto, eu te meto uma bala antes. Se for preciso, eu mesmo seguro o fuzil. Você não vai por a mão nela. Nunca. Sorri de lado, só pra disfarçar. Ele percebeu. — Quer falar alguma coisa? — perguntou, aquele tom provocador. — Quero não. Vamos embora logo. Acabar com isso. Acabar com isso. Como se fosse fácil. Como se ela fosse só mais um alvo. Ele riu. Aquele riso que eu queria calar na base do tapa. O comandante passou as coordenadas. — O primeiro caveirão que vai entrar é o que tá com o Lopes. A ordem é essa. Lopes, você é o chefe aqui dentro. Respirei fundo. Só fiz um sinal com a cabeça. Chefe. Comandante. Herói. Tudo título de merdä pra uma missão de merdä. O caveirão começou a subir o morro. O barulho do motor ecoando nas vielas estreitas. Foi quando os primeiros tiros vieram. — PÔ, PÔ, PÔ! Balas batendo na lateral do blindado. Os homens revidaram, os fuzis disparando pelas frestas. O som ensurdecedor. O cheiro de pólvora invadindo. Eu olhava pra tudo, mas minha mente tava em outro lugar. Onde ela estava? Será que tava na linha de frente? Será que tava atirando? Tomara que não. Tomara que ela esteja longe. Tomara que alguém tenha mandado ela se esconder. Um tiro veio de cima. De uma laje. Olhei pra cima. Ela tava lá. Carol. De Taurus na mão, os cabelos cacheados ao vento, a expressão de ódio no rosto. Linda. Perigosa. Letal. Ela mirou. Direto na direção do caveirão. Na minha direção. O mundo pareceu parar por um segundo. Ela vai atirar. Ela vai atirar em mim. — FILHA DA PUTÄ — sussurrei pra mim mesmo, mas o coração disparou de um jeito que não era medo. Era outra coisa. Pulei do caveirão, batendo na lateral, usando o blindado como escudo enquanto os tiros zuniam ao redor. Meus homens continuaram atirando, mas eu só conseguia olhar pra cima. Ela me viu. Nossos olhos se encontraram no meio do fogo cruzado. Carol... Ela ajustou a mira. Direto em mim. Continua...
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