Lopes Narrando
Que c*****o foi esse? Pensei que essa p***a não ia acabar nunca. Foi a pior operação da minha vida. Quando eu pensei que as coisas poderiam melhorar, só piorou. Porque eu só pensei em afastar ele e sair do morro logo, antes que o batalhão pedisse o corpo da Carol. Sem saber se ela tava viva ou morta, eu queria acreditar que tava viva. Que ficasse assim.
Ainda não tô entendendo a minha cabeça. Era pra eu estar querendo todos eles presos. Era pra eu estar comemorando, dando murro no ar igual os outros tão fazendo. Mas não sei o que essa mulher fez comigo. A desgraçada do cabelo trançado, do short de couro, do sorriso de lado que me desmontava inteiro. Ela entrou na minha cabeça e não quis mais sair.
Quando o caveirão tombou e eu tava com o Zeus do lado, a certeza no meu coração, na minha mente, na minha alma, era de que eles iam nos matar. Os cria não iam pensar duas vezes. Iam atirar por causa dele, sem dó. Eu vi a morte na minha frente naquele momento.
O primeiro ser arremessado foi o Barroso. O carro parou de girar, eu fui jogado pro lado, e em seguida foi o Zeus. Quando eu olhei, ele tava ali, caído, tentando se levantar. E aí veio a parte que eu não entendi até agora.
Ele tentou ajudar o Barroso.
O homem que invadiu o morro dele, que tava lá pra prender ele ou matar ele, e ele tentou ajudar. Isso ia contra tudo que meu pai falava. Se fosse meu pai ali, ele teria puxado o gatilho. Teria atirado no Barroso, em mim, em qualquer um. Mas não. O cara tava preocupado com o Barroso. Não sei se foi porque tava dentro do morro dele e a polícia tava por perto, mas não deixou de ser um ato completamente diferente de tudo que eu imaginava de um traficante.
Quando o Barroso desmaiou, eu tomei uma decisão. Mandei ele vazar. Falei pra ele correr, se esconder, fazer o que fosse preciso. Porque se a Carol já tava me odiando, ela ia me odiar dez vezes mais se eu levasse o pai dela preso. E depois, se o batalhão subisse de novo, não ia ser cobrado da minha mão. Ia ser de outro. Eu não ia ter que carregar esse peso.
Fiquei sem acreditar que o arrombado do PM quis conferir se o Zeus tava morto. Se ele fosse lá e não visse o corpo marcado de bala, ele ia atirar em mim. Não ia pensar duas vezes. Então eu tive que meter a voz. Disparei mais dois tiros pro lado, perto do corpo dele, só pro policial ouvir e achar que era real.
Eles abriram a parte de trás do caveirão. Nós colocamos o Barroso lá dentro, jogamos ele no porta-malas improvisado. Entramos na viatura. As balas começaram a comer na lataria. PÁ! PÁ! PÁ! Cada impacto era um susto. O batalhão de choque fez aquele escudo humano, atirando contra quem tava atirando na gente.
Saímos do morro.
Agora, dentro da viatura, o cheiro de sangue tomava conta. O Barroso tossia, os olhos revirando. O policial que dirigia olhava reto, focado na estrada. Eu só conseguia pensar nela.
— Direto pro hospital — falei, a voz rouca. — O Barroso não aguenta muito tempo.
— Já tô indo — o motorista respondeu.
O Barroso tossiu de novo, sangue espirrando.
— Calma aí, parceiro — o policial do banco de trás falou, segurando a cabeça dele. — Não chegou tua vez de morrer não.
O Barroso tentou falar alguma coisa, mas saiu só um gemido.
O policial do banco da frente virou pra mim.
— Lopes, foi você que atirou no Zeus? — ele perguntou como se estivesse duvidando da minha palavra.
Olhei pra ele. Respirei fundo.
— Você viu que quem tava lá era eu. O Barroso tava desacordado, não viu nada. Se a bala saiu ou não da minha arma, isso é conversa. O que importa é que ele caiu. E a gente saiu de lá.
Ele me estudou por um segundo, depois voltou a olhar pra frente.
O Barroso, entre grunhidos, conseguiu falar.
— E agora... o que vai ser... com a filha... com certeza... morreu também...
— Cala a boca, Barroso. Não força. — O policial do banco de trás falou apertou a cabeça dele.
Comecei a tirar o colete. Os ombros doíam, o braço direito tava pegando fogo.
— Tá ferido? — o motorista perguntou.
— Só no braço. Acho que os outros tiros pegaram só no colete.
O telefone vibrou no meu bolso.
Pai.
Ligação On
Atendi.
— Fala. — Falei assim que atendi.
— A operação falhou? — ele perguntou e respirei fundo e na fração de segundos tudo passou na minha cabeça como um filme.
— Não. — Respondi seco.
— Vou te encontrar no batalhão.
— Eu não estou indo para o batalhão, estou indo pro hospital. O Barroso tá ferido. — Falei já sabendo que ele não ia aceitar, mas não tava afim de ir pro batalhão.
— O BARROSO VAI PRO HOSPITAL COM QUEM TÁ COM ELE! — a voz do meu pai subiu, grossa, autoritária. — VOCÊ VAI PRO BATALHÃO AGORA! EU QUERO FALAR COM VOCÊ!
Respirei fundo. Fechei os olhos por um segundo.
— É sério, isso? — perguntei e desliguei . Olhei pro motorista.
Ligação Off
— Pára no batalhão. Ele vai com vocês. — Falei estralando o pescoço, começando a sentir as dores do sangue esfriando.
— E você? — ele perguntou virando um pouco de lado.
— Vou resolver uns bagulhos.
O carro seguiu. Eu olhei pela janela. O morro lá longe, ainda com fumaça subindo. Ela lá. Em algum lugar. Viva ou morta, eu não sabia.
Mas eu precisava saber.
A viatura parou no batalhão. Desci, bati na lataria, chamei a atenção dos policiais que tavam do lado de fora.
— Me mantenham informado — falei, a voz cansada. — Assim que o Barroso entrar no hospital, mandem mensagem no grupo.
— Pode deixar — um deles respondeu.
A viatura saiu. Fiquei no meio do estacionamento, o uniforme sujo de sangue, a poeira do morro grudada na pele, o braço doendo pra c*****o.
Foi quando o blindado do meu pai encostou.
Preto. Vidro fumê. Placa oficial. Ele desceu antes do carro parar direito.
— O Zeus? — a voz dele já veio alta. — Cadê o Zeus? A filha dele? A mulher?
Olhei pra ele. O juiz Otávio Mendonça. Meu pai. Todo engomadinho, terno impecável, olhar de quem já julgou e condenou antes mesmo de ouvir a resposta.
— Não vai nem perguntar se eu tô vivo? — falei, a voz baixa. — Se esse sangue é meu? Se eu tô ferido?
Ele deu uma gargalhada. Seca. Sem graça.
— Eu sei que você é osso duro de roer. Quero saber daquele arrombado do Zeus.
Respirei fundo. O ódio subiu, mas eu segurei.
— Ficou caído. Dentro do morro dele. Não fiquei lá pra ver morrer, porque precisava ajudar um soldado ferido. Agora, se tu quer ter certeza, vai você até lá.
Os milicos que tavam por perto se aproximaram.
— RESPEITA! — um deles gritou, apontando o dedo na minha cara. — TÁ FALANDO COM O JUIZ MENDONÇA!
Empurrei a mão dele. Devagar. Sem pressa.
Olhei nos olhos do meu pai.
— Eu só quero que você me fale uma coisa. A indicação para o patrulhamento naquela blitz... foi de propósito? Tu me queria perto da filha dele?
O vento soprou entre nós. O silêncio pesou.
Ele me olhou. E no olhar, eu tive a resposta.
Continua...