Capítulo 52 Janete

1143 Words
Janete Narrando Quando os fogos estouraram no céu do Dendê, meu mundo parou. Se eu falar pra vocês, que cada estouro era um soco no meu peito. Eu conhecia aquele som. Sabia o que significava. A invasão tinha começado. E lá fora, no meio daquele inferno, estavam as duas pessoas que eu mais amo:meu marido e minha filha. Subi as escadas correndo, tropeçando nos próprios pés, o coração batendo tão forte que eu jurava que ia sair pela boca. Cheguei na janela do quarto e o que vi me gelou o sangue. Fumaça preta subindo de vários pontos. Tiros traçantes cortando o céu igual foguete de São João. Helicópteros sobrevoando, atirando. Gritos ecoando lá de baixo. Meu Deus. Meu Deus do céu. Onde eles tão? Tão vivos? Tão feridos? Tão... Não. Não podia pensar assim. Mas a imagem da Carol não saía da minha cabeça. Minha filha. Tão forte, tão corajosa, mas tão vulnerável naquele momento. Eu sabia que ela tava dividida entre dois sentimentos. Sabia que, no fundo, ela não queria estar ali atirando contra o Lopes. E isso me apavorava mais do que qualquer bala. Porque guerreiro que vai pra guerra com o coração dividido, volta com ele partido. Ou não volta. E o meu marido... meu leão. Meu homem. O pai da minha filha. O único homem que me fez enfrentar o mundo inteiro. Se algo acontecesse com ele, eu não ia saber viver. Trinta anos ao lado daquele homem. Trinta anos amando, brigando, fazendo as pazes, construindo uma família. Não dava pra ser assim. Não podia acabar assim. Depois de mexer em tudo eu achei um rádio no fundo do closet coloquei no carregador liguei na tomada. Esperei pegar uma carga. Apertei sem saber se tava na frequência certa. Mas eu precisava falar com a minha filha. De alguma forma ela tava escutando. Não sei porquê mas eu sabia que ela tava ali que ela tava me ouvindo. Por mais que ela não pudesse me responder. Só que isso fez o meu coração ficar ainda mais apertado. Porque ia ser na minha filha ela ia morrer tentando salvar o pai dela. Do meu coração o barulho da explosão, era na casa alta. Os minutos viraram horas. Cada tiro era uma facada no meu peito. Cada explosão, um pedaço de mim que ia embora. Eu andava de um lado pro outro, as mãos suando, a respiração curta. Rezava. Rezava como nunca rezei na vida. Prometia tudo quanto era coisa se eles voltassem vivos. Peguei o telefone. Liguei pro Zeus. Nada. Liguei pra Carol. Nada. Liguei pro Neguinho. Nada. Pro Babau. Nada. Pra Tânia, pra Júlia, pra Raíssa. Ninguém atendia. Parecia que o mundo tinha engolido todo mundo. Depois de várias tentativas eu consegui falar com a Tânia. Ligação On — TIA JANETE! — a voz dela veio desesperada do outro lado. — A senhora tá bem? — Estou, filha. Mas e eles? O Zeus? A Carol? Você sabe de alguma coisa? Silêncio. — Tânia, pelo amor de Deus... — Meu pai foi pro Dendê, tia. Tá incomunicável. A Júlia também não consegue falar com ninguém. A gente não sabe de nada. — Obrigada. — Falei ela ficou em silêncio. Desliguei. Ligação Off O desespero apertou. Sentei no chão, abracei os joelhos e chorei. Chorei igual criança. Não sei porque essa aflição, eu vivo no meio disso há anos. Chorei e chorei muito, de angústia, de não saber. Foi quando os barulhos mudaram, não era tiro eu tenho certeza eram os fogos. Foi um barulho mas espaçados. Diferentes. O fim da invasão. Levantei num pulo. Enxuguei as lágrimas com as costas da mão. Não podia fraquejar. Não agora. Se eles tão vivos, precisam de mim forte. Desci as escadas correndo, quase caindo. Cheguei no meio da sala e parei. A mão na maçaneta, o coração na boca. Não sabia o que ia encontrar do lado de fora. Respirei fundo. Abri a janela devagar sabendo que tinha alguém ali na contenção da casa. Fiquei parada sem abrir, tentando ouvir algum som lá fora. Passos. Correria. Vozes. Abri a porta de leve. Um dos cria tava passando correndo. — NANDINHO! — gritei. Ele parou. Virou. A cara suja de poeira e pólvora, os olhos vermelhos. — Tia Janete... — PELO AMOR DE DEUS! — gritei, saindo porta afora. — ME FALA! ME FALA DELES! A CAROL! O ZEUS! O QUE ACONTECEU? Ele olhou pra mim. A respiração pesada. A mão apertando o fuzil. — Tia... o prédio caiu. — Ele confirmou o que eu estava tentando não acredita. O mundo parou. — Que prédio, Nando? QUE PRÉDIO? — perguntei porque não queria acreditar. Ele engoliu seco. — O prédio onde o chefe tava. Onde a patroa tava indo. Caiu. Minhas pernas bambearam. — E eles? Eles tão... — perguntei, mas não tinha certeza de que eu queria a resposta. — Não sei, tia. Os cria ainda tá cavando. Ainda não achamos. O chão sumiu. — ME LEVA LÁ! PELO AMOR DE DEUS, ME LEVA LÁ! — Tia Janete, a senhora não pode... — ME LEVA! — gritei, as lágrimas já escorrendo. — EU PRECISO VER ELES! EU PRECISO SABER! Ele hesitou. Foi quando o rádio chiou. — Base pro cria da casa do chefe! O Zeus não foi levado! Repito, o Zeus não foi levado! Ele tá no morro! Meu coração deu um salto. — Como assim ele não foi levado? — perguntei, apertando o braço do moleque. — COMO ASSIM? Ele pegou o rádio, pediu mais informação. A resposta veio rápido. — O caveirão tava em frente ao prédio quando desabou. O Zeus ficou do lado de fora. A Carol ficou do lado de dentro. Colocaram ele no caveirão, mas o carro tombou perto da barreira. Ele escapou. — AI MEU DEUS! AI MEU DEUS! Minhas pernas fraquejaram. Meu Deus, ele escapou. Meu leão escapou. Mas a Carol... a Carol tava do lado de dentro. — COMO ELE TÁ? — gritei, segurando no moleque pra não cair. — ME FALA COMO ELE TÁ! EU PRECISO IR LÁ! ME LEVA! — Tia, calma... — ESPERA AÍ! DEIXA EU PEGAR A CHAVE DO CARRO! — Falei fazendo menção de correr pra dentro, mas ele segurou meu braço. — Tia, eu acho que não é seguro a senhora sair agora. O tiroteio ainda não acabou de vez. Os homens tão varrendo a área. Pode ter bota escondido. — Ele falou tentando me impedir. — PELO AMOR DE DEUS! — gritei, puxando o braço. — NÃO ME DEIXA MAIS NERVOSA! NÃO VEM ME FALAR O QUE EU DEVO OU NÃO FAZER! MINHA FILHA TÁ DEBAIXO DOS ESCOMBROS! MEU MARIDO TÁ CAÍDO EM ALGUM LUGAR! EU VOU! Ele me olhou. Viu que não ia adiantar discutir. — Vamos. Mas a senhora promete que vai ficar junto? Eu abri o portão entrando no carro saindo da garagem.. Continua...
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