Lopes Narrando Assim que a porta do carro do meu pai bateu nas minhas costas, eu aumentei os passos. Não sei se era raiva, desespero ou só a vontade de botar pra fora tudo que tava preso. Atravessei o pátio entrei no batalhão como um furacão, arrancando a farda suja de sangue, a camisa, o colete. As mãos tremiam. Os dedos não obedeciam direito. Vestiário vazio. Silêncio. Só o eco dos meus passos no piso molhado. Liguei o chuveiro. A água gelada bateu nas minhas costas e eu gritei. Não de dor. De alívio misturado com desespero. Os cortes arderam. Os lugares onde as balas pegaram de raspão queimaram igual fogo. As costelas doíam a cada respiração. Eu devia ter quebrado alguma na queda do caveirão. Mas a única dor que realmente importava não era física. Fechei os olhos debaixo d'água.

