Capítulo 58 Zeus

1168 Words
Zeus Narrando Como se tudo que aconteceu não fosse o suficiente. Agora tô aqui, do lado de fora do quarto da minha única filha, a minha herdeira, andando de um lado pro outro nesse corredor de hospital, e parece que o chão vai sumir. Não acredito. Não acredito que depois de tudo — invasão, tiro, caveirão tombando, prédio caindo, quase morrer, quase ser preso — depois de TUDO isso, a pørra da minha filha pode tá grávida. Grávida do filho daquele desgraçado. Do Mendonça. Do juiz que quer minha cabeça desde que eu me entendo por gente. Parei. Apoiei a mão na parede fria. Respirei fundo. Mas não adiantou. O pensamento não sai. Ela gritou comigo. A Carol. Minha filha. Gritou pra eu sair do quarto. Como se eu fosse o errado da história. Como se aquele policial de merda valesse mais do que eu. Bati com a mão aberta na parede. Uma vez. Duas. A dor acordou meus dedos, mas não acordou minha cabeça. — Que pørra é essa, Zeus? — murmurei sozinho. — Que pørra é essa? Lembrei das palavras que saíram da minha boca. "Preferia você quebrada. Com as pernas quebradas, os braços quebrados, do que grávida do sangue daquele juiz desgraçado." Falei. E falei na hora da raiva. Mas será que é verdade? Será que eu preferia ver minha filha toda estraçalhada do que carregando um neto? Passei a mão no rosto. A barba por fazer arranhava a palma. — É que não é qualquer neto, caralhø — falei com as paredes. — É neto do homem que matou meu irmão. Que matou tanto irmão meu. Que quer me ver morto. Que quase matou ela hoje. Fechei os olhos. A imagem do prédio caindo veio na hora. Eu puxando ela pra dentro. A explosão. O corpo dela sendo jogado. Eu sendo arremessado pro lado. O desespero de não saber se ela tava viva. E agora ela tá viva. E pode tá carregando ele. Como é que eu lido com isso? Como é que eu olho pra cara dela sabendo que dentro dela pode ter um pedaço do homem que eu mais odeio? Andei mais um pouco. Os pés arrastando no piso frio. — Ela gritou comigo — repeti baixo. — Gritou pra eu sair. Como se ele fosse mais importante. Parei. Apoiei a cabeça na parede. — Será que é? Será que ela escolheu ele? — essa pergunta tá rodando a minha cabeça desde a hora que ela me contou que transou com o filho do desgraçado. O corredor tava vazio. Só eu e a máquina de café que eu já tinha tomado quase tudo. Eu que sempre tive uma resposta para tudo, pela minha idade, pela minha experiência de vida, por tudo que eu já passei. Tanto para os amigos quanto para os menores, eu sempre fui referência, resposta nunca faltou, sempre esteve na ponta da língua. Mas pela primeira vez em muito tempo, eu não soube responder. O corredor tava vazio. Só eu e a máquina de café que não funcionava. E pela primeira vez em muito tempo, eu não soube responder. Peguei o telefone no bolso. Dedos tremendo de raiva. Rolei os contatos até achar o nome. Informante. Atendeu no segundo toque. Ligação On — Fala, chefe. — Preciso de tudo que você tem sobre o filho do juiz. O Lopes. — Falei lembrando do rosto, do desgraçado me encarando dentro do caveirão. Silêncio do outro lado. — O filho do Mendonça? O PM? — Esse mesmo. Passa tudo. Onde mora, o que come, com quem dorme, quem são os amigos, os inimigos, os podres. Tudo. Ele hesitou. — Qual é o interesse do senhor no filho do juiz? Soltei uma gargalhada. Amarga. Seca. — O filho da püta entrou, colocou gente vigiando a minha filha. Na verdade, colocou o próprio filho de tocaia na entrada do morro. Fez ele se envolver com a Carol. Entrou no meu morro. Fez uma arruaça. Deixou minha filha soterrada. Quase me matou. Aí você me pergunta o que que o filho dele tem a ver com isso? — rosnei sentindo a pørra do sangue ferve. O cara do outro lado engoliu seco. — Tô entendendo, chefe. Vou puxar tudo. Até a cor da cueca dele. — Ele respondeu sem hesitar. — Faz isso. E manda rápido. Desliguei na cara dele. Ligação Off Rolei os contatos de novo. Hacker. Ligação On — Fala, menor. — E aí, chefe. Tudo bem? — ele perguntou sabendo que não tá nada bem. — Preciso de uma varredura. Todas as linhas. Rastreia tudo que entrou e saiu do morro nos últimos dias. Se tiver algum x9, algum traíra, quero saber. — Dei a ordem direta e reta. — Já tô nessa, chefe. Desde a invasão. Se tiver alguém passando informação, é questão de segundo até eu descobrir. — Ele soltou a voz e eu não esperava menos dele. — Então descobre. E me avisa. Desliguei. Ligação Off Fiquei com o telefone quente na mão, encarando a porta do quarto. O que tinha lá dentro era minha filha. O que tinha lá dentro podia ser meu neto. Meu neto com sangue do Mendonça. Passei a mão no rosto. A barba por fazer arranhava. O corpo doía. A cabeça doía. A alma doía. A porta do quarto abriu. Janete saiu. A cara dela tava fechada. Os olhos inchados. Mas tava de pé. — Como é que a Carol tá? — perguntei, a voz saindo mais baixa do que eu queria. Ela me olhou. — Tá acordada. Tá assustada. Tão putä quanto você, mas assustada. Engoli seco. — E o teste? O resultado? Ela respirou fundo. Passou a mão no cabelo. — Saiu. Meu coração parou por um segundo. — E aí? FALA, JANETE! — Calma, Rômulo. Você tem que ficar calmo. — Ela falou sabendo que eu odeio, quando me mandam ficar calmo, sem eu estar nervoso. — EU JÁ TÔ CALMO! — gritei, sem perceber que tava alterado. — EU QUERO SABER SE EU VOU TER QUE CONVIVER… Ela virou pra mim. O olhar dela cortou que nem faca. — Se eu fosse você, eu nem terminava essa frase. — A Janete me cortou. Com certeza sabendo exatamente o que eu ia falar. O silêncio caiu pesado. Fiquei parado, sem saber o que fazer. Ela suspirou. Passou a mão no meu braço. — Ela tá grávida, Zeus. O chão sumiu. Continuei imóvel, sentindo o mundo girar. A parede fria nas costas foi a única coisa que me segurou. — Tem certeza? — a voz saiu rouca, estranha. — Pode ser erro. Pode ser... — Não é erro. A médica confirmou. — Ela falou firme. Passei a mão no rosto. A barba. O suor. O cansaço. Nada disso importava mais. — O que eu faço, Janete? — perguntei, baixo. — O que eu faço com isso? Ela me olhou. Os olhos dela, que sempre tiveram resposta pra tudo, tavam vazios. — Não sei, amor. Mas vamos ter que descobrir juntos. Continua...
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