Carol Narrando
Mãos me seguraram. Alguém levantou minha cabeça. Outra pessoa limpou meu rosto.
Meu pai não se mexeu.
— Não bateu o raio-x? — ele perguntou, a voz já alterada. — Não tá tudo sob controle? Não foi Você que falou que ela tem osso de ferro? Alguma fratura interna?
A médica respirou fundo, profissional.
— Ela teve alguns ferimentos até profundos, mas nenhum osso quebrado. Nenhum sangramento interno. Isso já é um milagre. Está estável.
Minha mãe estava pálida.
— Isso é sangue — ela murmurou.
Meu pai virou na hora.
— Onde?
— Na tomografia não apareceu hemorragia interna — ele falou rápido demais. — Não apareceu nada!
A médica ajustou o soro, conferiu algo no monitor.
— Não há sinais de hemorragia interna nos exames que fizemos. Pode ser irritação gástrica pelo trauma, pelo estresse...
Eu fechei os olhos por um segundo.
Tudo parecia distante. As vozes vinham como se eu estivesse debaixo d’água.
Eu sobrevivi.
Essa palavra não trazia alívio.
Trazia peso.
Porque alguém mandou aquele prédio cair.
Alguém decidiu. E eu estou aqui, respirando por pouco.
Minha mãe se aproximou mais. Passou a mão no meu cabelo com aquele cuidado que ela só usa quando acha que eu ainda tenho cinco anos.
— Carol… — ela chamou baixinho.
Abri os olhos.
Ela hesitou.
E então perguntou, quase num sussurro que cortou o quarto inteiro:
— Você não tá grávida, tá?
A pergunta da minha mãe pairou no ar igual fumaça de incêndio. Meu estômago embrulhou de novo, mas dessa vez não era o enjoo. Era o desespero.
— Não — respondi rápido demais. — Não é possível. Não tem como.
Meu pai me olhou. Aquele olhar perfurante, de leão ferido.
— Você transou com aquele filho da putä sem camisinha?
— Rômulo! — minha mãe cortou. — Pelo amor de Deus, não é hora!
— Não é hora de quê, Janete? — a voz dele subiu, grossa, carregada de tudo que ele tava segurando. — Eu tô fødido de bala! Todo cortado! Quase morri! Quase fui preso! E você quer que eu tenha paciência?
— Eu não pedi pra engravidar, pai! — gritei, sentindo a dor no peito. — Se eu tiver... se for verdade... não foi por querer!
— Você transou sem camisinha com o filho do Mendonça! — ele berrou, os olhos vermelhos. — Eu preferia você quebrada! Com as pernas quebradas, com os braços quebrados, do que grávida do sangue daquele juiz desgraçado!
O quarto ficou em silêncio.
Minha mãe segurou o braço dele.
— Chega. — Ela falou baixou olhando ele nos olhos.
— Não chega pørra nenhuma!
— CHEGA, Rômulo! — ela gritou de volta. — OLHA PRA ELA! ELA QUASE MORREU!
Meu pai me olhou. A fúria ainda tava lá, mas por trás dela, eu vi medo. Medo verdadeiro.
— Para de brigar — minha voz saiu fraca, mas firme. — Eu sou maior de idade. Não precisa ficar discutindo como se eu fosse criança. Mas eu tenho certeza que não tô grávida.
A médica, que tinha se afastado discretamente, voltou pro pé da cama.
— Vou pedir um exame. Só pra ter certeza. — A doutora falou.
— Faz — minha mãe falou rápido. — Faz, por favor.
Meu pai virou as costas. Foi até a janela. Ficou olhando pro nada, as mãos nos bolsos, o corpo tenso. Eu via os ombros dele subindo e descendo, a respiração pesada, a raiva ainda pulsando.
A enfermeira veio, colheu sangue, saiu. O silêncio no quarto era pesado. Cortante. Só os aparelhos fazendo aquele barulho rítmico, lembrando que eu ainda tava viva.
Minha mãe segurou minha mão. A mão dela tava quente, firme, mas eu sentia um leve tremor.
— Pode ser o trauma — ela disse, tentando me acalmar, mas a voz falhava um pouco. — Pode ser o estresse. Você ficou muito tempo soterrada. O corpo reage de vários jeitos. Lembro uma vez que sua tia...
— Mãe... — engoli seco. — Eu transei com ele sem camisinha. Mas não tem como ser tão rápido assim.
A médica, que ainda tava por perto conferindo o soro, virou pra mim. Não era um sorriso de graça. Era profissional, mas tinha um brilho nos olhos de quem já viu isso acontecer antes.
— Sete dias é o suficiente pro óvulo ser fecundado, Carol.
Meu coração parou.
— O quê?
— Se a relação foi há uma semana, os sintomas podem começar a aparecer agora. Enjoo, tontura, sensibilidade. Alterações hormonais. Algumas mulheres sentem os primeiros sinais bem cedo.
Minha mãe apertou minha mão com força. Tanta força que doeu.
Olhei pro meu pai. Ele ainda tava de costas. Mas eu via os ombros tensos. Via a mão fechada no bolso. Via o corpo inteiro dele travado, esperando.
— Não — sussurrei. — Não pode ser. Não pode.
Minha mãe se inclinou. Passou a mão no meu rosto, afastando o cabelo sujo de sangue seco.
— Filha, se você tiver grávida, não tem o que fazer. Você vai ser mãe. E seu pai vai ter que respeitar a lei da física. A lei da vida. Não tem como brigar com isso.
— Vou respeitar p***a nenhuma! — meu pai falou, a voz grossa, ecoando no quarto. — Não sou obrigado a isso! Eu não vou aceitar sangue daquele desgraçado dentro da minha casa!
Meu ódio subiu na hora.
Sentei na cama, ignorando a dor que atravessou meu corpo inteiro.
— DENTRO DA SUA CASA? — gritei. — EU SOU SUA FILHA, NÃO UM TROFÉU! O SANGUE QUE CORRE EM MIM É METADE SEU, METADE DA MINHA MÃE! SE ESSE BEBÊ EXISTIR, ELE VAI TER METADE DE MIM!
— METADE DE VOCÊ QUE ELE LIXOU! — ele berrou de volta, apontando o dedo. — ELE USOU VOCÊ, CAROL! USOU PRA CHEGAR PERTO DE MIM!
— ELE NÃO SABIA! — a voz falhou, mas eu continuei. — ELE JUROU QUE NÃO SABIA!
— VOCÊ ACREDITA NUM POLICIAL? NUM FILHO DO MENDONÇA?
— EU ACREDITO NO QUE EU SENTI!
O silêncio caiu.
Meu pai me olhou como se eu tivesse enlouquecido.
Minha mãe segurou a mão dele.
— Amor, chega.
Ele puxou o braço.
— Não chega. Ela tem que entender.
— ENTENDER O QUÊ? — eu gritei. — QUE VOCÊ MANDARIA MATAR O FILHO DA SUA FILHA?
Ele não respondeu.
Só me olhou.
E naquele olhar, eu tive a resposta.
— MÃE! — gritei, a voz falhando, as lágrimas já escorrendo quentes pelo rosto. — PEDE PRA ELE SAIR! PEDE!
Meu pai virou na hora. A cara fechada, os olhos arregalados.
— O quê?
— SAI! — gritei de novo, a voz rasgando. — SAI DAQUI! NÃO AGUENTO MAIS OLHAR PRA SUA CARA DE ÓDIO!
Ele não entendeu. Ficou parado, confuso, perdido. O homem mais temido do Rio, parado no meio de um quarto de hospital sem saber o que fazer.
— SAI AGORA. — Minha mãe empurrou ele.
— Janete... — Ele tentou falar.
— SAI! — Minha mãe falou de novo, dessa vez se aproximando dele. Segurando o braço dele com calma, daquele jeito que só ela sabe.
— Sai, amor. Por favor. Deixa eu conversar com ela.
Ele me olhou mais uma vez. A fúria tinha sumido. Só restava um cansaço profundo, uma tristeza que eu nunca tinha visto nos olhos dele.
— Tô no corredor — ele falou, baixo. — Qualquer coisa, grita.
Saiu.
A porta fechou com um clique leve. O barulho dos aparelhos pareceu mais alto.
Minha mãe voltou, sentou na beirada da cama. Segurou minha mão.
— Acalma. Respira.
— Mãe... e se for verdade?
Ela não respondeu. Só me puxou pro abraço. Senti o peito dela quente, o batimento acelerado, o cheiro de casa.
— A gente descobre juntas — ela murmurou no meu ouvido. — Não importa o resultado. A gente descobre juntas.
E aqui, no meio do silêncio do hospital, eu senti o peso de tudo.
O prédio caindo. Meu pai sendo levado. O Lopes. A guerra.
E agora, talvez, uma vida.
Uma vida que podia ser a ponte... ou a bomba final.
Continua...