Carol Narrando
Tem um segundo na vida da gente que divide tudo.
Antes e depois. O meu foi o barulho.
Não o da explosão. Não o do concreto rachando. Foi o som do corpo do meu pai sendo arrancado de perto de mim. Eu senti quando puxaram ele. Senti o vazio onde antes tinha o peso dele me protegendo. Tentei segurar. Juro que tentei. Mas meus dedos escorregaram.
E aí o mundo caiu.
Literalmente.
O chão tremeu como se tivesse raiva. O teto veio abaixo e eu só tive tempo de puxar o ar uma última vez antes da pancada me jogar contra alguma coisa dura. Minha cabeça bateu. Meu ouvido apitou. E depois… silêncio.
Não um silêncio de paz.
Um silêncio pesado. Cheio de poeira.
Eu tentei mexer o braço. Doeu. Tentei mexer as pernas.
Nada.
Nada.
A primeira coisa que pensei não foi em mim.
Foi nele.
Levaram meu pai.
Eu ouvi. Mesmo com o ouvido zunindo, eu ouvi a correria, ouvi alguém gritando que estavam levando ele. E eu não consegui fazer nada.
A poeira do concreto começou a cair no meu rosto. Grão por grão. Entrando no meu nariz. Na minha boca. Eu tossi, mas a tosse doeu tanto que parecia que meu peito ia rasgar.
Respirar virou trabalho pesado.
Eu tentei puxar o ar devagar, mas tinha peso em cima de mim. Muito peso. Algo esmagava minhas pernas. Eu não sentia os pés. Nem os joelhos. Era como se meu corpo terminasse na cintura.
“Levanta”, eu pensei.
Meu corpo não obedeceu.
O tempo começou a ficar estranho. Eu não sabia se tinham passado segundos ou horas. Em algum momento eu ouvi vozes. Longe. Emboladas.
— …tá aqui! — alguém gritava.
Reconheci o timbre antes de entender as palavras.
Neguinho.
Quis responder. Abri a boca. Só saiu um gemido.
— Chefe foi levado! — outra voz. Babau. Tenso. Desesperado.
Meu coração disparou.
Não.
Não.
Pai…
Tentei bater naquilo que me prendia. Meu braço m*l levantava. A dor nas costas queimava. Um líquido quente escorria pela minha testa. Eu sabia que era sangue. Não precisava ver.
Fechei os olhos por um segundo.
Quando abri, estava mais escuro.
Eu tava apagando.
Não posso.
Não agora.
— n**a… — a voz do Babau soou mais perto. — Aguenta aí que eu tô descendo!
Descendo.
Então eles estavam cavando.
A poeira caiu de novo no meu rosto. Eu senti pequenos pedaços de concreto raspando minha bochecha. Tentei virar a cabeça, mas tinha algo prendendo meu ombro.
— Carol! — dessa vez foi a voz da minha mãe.
Ela não tava ali. Eu sabia. Mas a voz dela veio pelo rádio de alguém. Tremida. Forte ao mesmo tempo.
— Fica acordada pra mamãe. Fica comigo. — A voz dela fez meu coração acelerar.
Eu quis rir.
Sempre teimosa.
Até soterrada eu tava dando trabalho.
— Mãe… — eu tentei falar. Não sei se saiu som.
Minhas pernas continuavam inexistentes. Eu mandava mexer. Nada. Só um vazio assustador.
— Não sente minhas pernas… — consegui sussurrar, não sei pra quem.
— Não fala isso! — a voz dela cortou, desesperada. — Aguenta mais um pouquinho. Eles vão tirar você daí.
— Não tá cedendo! A viga tá muito pesada! — Eu ouvi alguém dizer
Silêncio.
Um silêncio diferente.
O tipo de silêncio que vem antes de desistirem.
O pânico me deu força.
— NEGUINHO! — eu juntei o resto de ar que tinha e gritei. Ou achei que gritei.
— Ela falou! — ele berrou. — Ela tá acordada! Eu ouvi!
Começaram a cavar de novo. Mais rápido. Mais bruto. Eu sentia as vibrações passando pelo concreto encostado no meu corpo.
Uma fresta de luz apareceu. Bem maior dessa vez.
Antes era pequena. Agora dava pra passar o corpo de uma pessoa.
Não era um clarão, mas era luz.
Doía nos meus olhos, mas era a coisa mais linda que eu já vi.
— Tô vendo ela! — Babau gritou. — n**a, aguenta aí!
A poeira caiu direto na minha boca dessa vez. Eu tossi e senti gosto de ferro.
— Desiste… — eu murmurei, porque cada segundo doía demais. — Tá doendo…
— Eu nunca vou desistir de você. — A voz do meu pai cortou tudo.
Eu não sabia de onde ele tinha surgido. Só sabia que ele tava ali.
E quando ele falou, alguma coisa dentro de mim segurou.
— Tá ouvindo? — minha mãe chorava. — Seu pai tá aqui. Fica com a gente.
Eu queria ficar.
Mas meu corpo tava pesado. Frio. A luz começou a borrar.
Senti mãos me tocando. Puxando com cuidado.
Uma dor absurda atravessou minhas pernas — ou onde elas deveriam estar.
— Eu tô bem! — Eu gritei. Ou acho que gritei.
Depois tudo ficou distante. As vozes viraram eco.
A última coisa que eu senti foi o braço do meu pai me envolvendo.
A última coisa que eu ouvi foi minha mãe.
— Fica acordada, meu amor… fica… — ela disse e eu apaguei.
A primeira coisa que eu senti foi o cheiro.
Hospital tem um cheiro próprio. Álcool, plástico, coisa limpa demais. Não combina com morro, com poeira, com concreto esmagando os ossos.
Então eu pensei que tava sonhando.
Abri os olhos devagar. A luz branca do teto me atingiu como um tapa. Pisquei várias vezes. Meu corpo parecia pesado, mas não do mesmo jeito de antes. Não era o peso do prédio. Era um cansaço profundo, como se eu tivesse corrido uma maratona com o mundo nas costas.
Tentei mexer o braço.
Mexeu.
O outro também.
Desci o olhar, devagar, com medo do que ia encontrar.
Minhas pernas estavam ali.
Imóveis sob o lençol, mas ali.
Um soluço escapou da minha garganta.
— Calma, calma! — uma voz feminina falou rápido. — Não se debate, por favor!
Eu nem tinha percebido que estava tentando sentar. Meu coração disparou e os aparelhos começaram a apitar.
Virei a cabeça.
Minha mãe estava de um lado da cama. Olhos inchados. Cabelo preso de qualquer jeito. A mão dela segurando a minha com força.
Do outro lado, meu pai.
Zeus.
O homem que nunca parecia abalado estava com o maxilar travado e os olhos vermelhos.
Eu engoli em seco.
— Então… — minha voz saiu rouca, arranhando. — Então eles não conseguiram me tirar de lá?
Eu ri fraco. Uma risada sem humor.
— Eu jurava que tava sonhando. — Falei decepcionada.
Meu pai passou a mão pelo rosto, como se estivesse afastando um pesadelo que ainda não tinha ido embora.
— Foi por pouco — ele disse, baixo. — Muito pouco.
A memória da fresta de luz voltou. O peso. A dor. O vazio nas pernas.
— Como…? — eu comecei, mas ele me cortou.
— Parece que o filho do desgraçado do juiz não é como ele.
Meu olhar travou no dele.
— Como assim? — perguntei olhando para ele e depois para minha mãe.
A mandíbula dele endureceu.
— Isso não é hora — respondeu firme. — Depois a gente conversa sobre isso. Agora eu quero que você fique bem.
Eu conheço meu pai. Conheço o jeito que ele muda de assunto quando algo é grande demais pra ser dito ali.
Algo aconteceu.
Algo que eu ainda não sabia.
Ignorei a pontada de curiosidade porque outra coisa me atingiu.
Meu corpo inteiro doía. Não como antes. Não era esmagamento. Era uma dor espalhada. Profunda. Como se cada músculo tivesse sido torcido.
— Quanto tempo… — respirei fundo. — Quanto tempo eu posso ir pra casa?
Minha mãe apertou minha mão mais forte.
— Minha filha, você tem que ficar. Tem que se recuperar.
Casa.
Eu queria meu quarto. Meu travesseiro. O barulho do morro vivo. Não aquele silêncio monitorado por máquinas.
Virei o rosto para o lado, tentando respirar fundo.
O mundo girou.
Uma onda de enjoo subiu do nada, violenta, cortando minha frase no meio.
— Eu… — não consegui terminar.
Virei a cabeça e vomitei.
Foi rápido. Forte. Dolorido.
Os aparelhos começaram a apitar alto. O som ficou agudo demais dentro da minha cabeça.
— Afasta todo mundo! — a médica ordenou.
Continua...