Capítulo 13 Lopes

1488 Words
Lopes Narrando O cheiro dela ainda estava no meu uniforme. Putä que pariu. Fiquei parado no mesmo lugar onde a blitz tinha acontecido, o beco vazio agora, só eu e a viatura e o silêncio pesado da madrugada quase clareando. Olhei na direção do Morro do Dendê. Lá em cima, algumas luzes ainda tremeluziam. Em algum lugar ali, ela estava. Carol. Quem é você, caralhø? A pergunta martelava na minha cabeça como um tambor desafinado. Eu não sabia nada dela. Nada. Só o nome, o endereço, o gosto da pele, o som do gemido, o jeito que ela me olhou antes de sair da viatura. E, p***a, era o suficiente pra me deixar completamente fodido. Que tipo de mulher faz um cara se sentir assim em menos de uma hora? Que tipo de mulher entra na viatura de um policial, transa com ele como se não houvesse amanhã, e sai andando como se tivesse acabado de comprar pão na esquina? E por que caralhøs eu não conseguia parar de pensar nela? Respirei fundo, o ar da manhã já começando a esquentar. Precisava me recompor. Precisava colocar a p***a da farda de volta no lugar e lembrar quem eu era. Rafael Lopes, cabo da PM, filho do juiz Otávio Mendonça, homem da lei. Não o babaca que deixou uma morena de short de couro virar a cabeça dele. Entrei na viatura, liguei o motor e arranquei em direção ao batalhão. Estacionei na vaga de sempre, desliguei o carro e fiquei um segundo olhando pro nada. O sol já estava rompendo no horizonte, a base começando a acordar. Era hora de deixar o equipamento, trocar de roupa, tentar esquecer que a noite tinha acontecido. Empurrei a porta do batalhão e quase trombei com o Sargento Alves, que saía do café com uma caneca na mão. Ele me olhou de cima a baixo, arqueou a sobrancelha. — Caramba, Lopes. Cê viu um fantasma, ou foi a noite toda de serviço? — Cuida da tua vida, Alves — resmunguei, tentando passar. — Tu ficou o tempo todinho aqui na base, não foi trabalhar não? Ele riu, sem se ofender. Mas antes que eu pudesse seguir, uma voz atrás de mim cortou o ar. — E aí, qual é a experiência de f***r uma mina na hora da blitz? Parei. Virei devagar. Era um cara que eu não conhecia. Magro, alto, um sorriso de canto que não chegava nos olhos. Farda impecável, mas um ar de quem se acha mais esperto do que realmente é. — Tá malucão, é? — minha voz saiu baixa, perigosamente calma. Ele deu de ombros, ainda com aquele sorriso. — Maluco não, irmão. Eu sempre passo por aquela rota. Cê acha que a gente não repara nas coisas? Vidro embaçado, carro balançando… s*******o, hein. Meus dedos coçaram. Respirei fundo, contando até três. — Acho que você pegou a erva de algum trombadinha nessa blitz e deu um teco. Tá malucão, pørra. Cuida da tua boca. Não esperei resposta. Virei as costas e fui direto para o vestiário, sentindo o olhar do cara queimar nas minhas costas. A porta bateu atrás de mim. Peguei minha mochila no armário, joguei o colete dentro. Precisava ir pra casa, tomar um banho, tentar dormir. Mas minha mente não parava. Quem era aquele filho da p**a? E como ele sabia? Terminei de jogar minhas coisas na mochila e subi as escadas em direção à sala do chefe. Bati na porta entreaberta. — Chefe, uma pergunta. O Tenente Miranda ergueu os olhos do café, cansado. — Fala, Lopes. — Quem é aquele policial magrão, um altão? Que vive de sorrisinho sem graça? Miranda arqueou a sobrancelha. — Tu tá falando do Barroso? — Sei lá. Nunca nem vi. Só sei que veio com umas gracinhas sem graça e eu não curti. Mas não faço ideia de quem seja. Miranda deu um gole no café, acenando com a cabeça. — Barroso. É assim mesmo, cheio de graça, acha que é o esperto da corporação. Vive mais na rua do que aqui. Só entrou pela janela porque tem padrinho. Já avisei os superiores: no primeiro vacilo, ele vai pra outra base. Longe da gente. — Se for pra minha causa, não precisa se preocupar, chefe — falei, cansado. — Já trabalhei com gente de tudo quanto é jeito. Não me importo, desde que ele faça o trabalho dele e me deixe fazer o meu. Miranda assentiu. — Beleza. Saí da sala, e foi quando vi. O tal do Barroso vinha descendo o corredor na minha direção. Ele parou na porta do chefe, me olhou de lado com aquele sorriso, e entrou. A porta se fechou atrás dele. Estranhei. Fiquei parado um segundo, olhando para a madeira fechada. O que ele tinha tanto pra falar com o chefe, de porta fechada, logo depois do nosso encontro? Balancei a cabeça. Não é da minha conta. Ou era? Entrei na sala de investigação vazia. A luz do monitor cortava o escuro. Fechei a porta atrás de mim. Não conseguia parar de pensar nela. Olhei para a minha mão no mouse. Para a chave do carro no bolso. Para o celular, mudo, sem mensagens. Balancei a cabeça. Eu não deveria fazer isso. Era antiético. Era perigoso. Mas eu precisava saber. O computador piou, a tela azul iluminando meu rosto. Dedos voaram sobre o teclado. Sistema da corporação, acesso restrito. Busca por envolvidos no tráfico do Dendê. Nomes, rostos, ligações. Zeus. A foto apareceu na tela. Cinquenta e nove anos, grisalho, porte de quem já viu guerra demais. Um dos traficantes mais antigos e inteligentes do Rio. Alvo de pelo menos três operações diferentes nos últimos cinco anos. Todas fracassadas. E, pior: o inimigo mortal do meu pai. O juiz Otávio Mendonça tinha uma cruzada pessoal contra esse homem. Eu cresci ouvindo o nome dele nos jantares de família, nas conversas tensas entre meu pai e meus irmãos. Zeus. O fantasma que a justiça nunca conseguia prender. Fucei os registros. Família. Cadê a família? Nada. Nenhuma menção a esposa, filhos, parentes. Era como se o homem tivesse brotado do asfalto sozinho. Mentirosos. Todo traficante tem família. Todo homem tem alguém. Fechei os olhos. Lembrei do endereço na CNH dela. Morro do Dendê. Merdä. Abri outra aba. Um acesso restrito, fora dos padrões da corporação. Um sistema de dados do governo que um amigo meu da inteligência tinha me ensinado a usar. IBGE, cadastro civil, cruzamento de informações. Coloquei a foto da Carol. A barra de carregamento correu. O celular vibrou, sinal de que os dados estavam sendo processados. Desliguei a tela, guardei o telefone no bolso. Não agora. Não aqui. Levantei, o corpo pesado de cansaço e tensão. — Pelo jeito você também tá fissurado no Zeus. A voz estrondou atrás de mim. Barroso. Apoiado no batente da porta, os braços cruzados, aquele sorriso de lado no rosto. — Fissurado não — minha voz saiu controlada. — É um cara bem procurado. Tô só atualizando o panorama. Ele gargalhou. Um som seco, sem graça. — Principalmente pelo teu pai, né? Fiz que não ouvi a provocação. — Fazer o quê. Ele é traficante. Meu pai é homem da lei. É assim que as coisas funcionam. Barroso inclinou a cabeça, me estudando. — E a filha dele? Você conhece? O ar sumiu da sala por um segundo. Segurei a expressão. — Não. Não conheço. Também não faço questão de conhecer. Querer conhecer a filha de um traficante? Só se for pra colocar atrás das grades junto com ele. Barroso riu de novo, concordando com a cabeça, passando a língua nos lábios num gesto lento que me deu nos nervos. — Quer mais alguma coisa? — perguntei, seco. Ele balançou a cabeça, mas seus olhos diziam outra coisa. — Quero não. Mas se fosse você, tomava mais cuidado. Porque se a notícia vaza… você vai voltar de onde veio, Lopes. Passei por ele, batendo o ombro de propósito, sentindo-o desequilibrar. A porta ficou para trás, e eu desci as escadas em passos largos. Até parece que ele sabe de alguma coisa. Entrei no carro, bati a porta. O silêncio do interior foi um alívio momentâneo. Sentei, a mão no volante, a respiração ainda descompassada. Foi quando a imagem veio, nítida e c***l. Ela. Carolina. No meu colo, suada, ofegante, os olhos vidrados nos meus. O som do meu nome saindo da boca dela. O calor, o cheiro, o jeito que ela se encaixou em mim. Fechei os olhos com força. Quem é você, Carolina Batista dos Santos? E por que, mesmo desconfiando que você pode ser tudo que eu deveria combater, tudo que eu quero é te encontrar de novo? Liguei o carro. Precisava ir pra casa. Precisava dormir. Precisava, por alguns minutos, fingir que a noite passada não tinha virado minha vida de cabeça pra baixo. Mas o cheiro dela ainda estava no meu uniforme. E eu não queria lavar. Continua...
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