Capítulo 34 Carol

1100 Words
Carol Narrando A frase ecoou no silêncio. "Que pørra tu tá falando Carol? Tu dormiu com o filho do desgraçado do Mendonça? Que filho é esse??" Eu tava parada ali, na frente do meu pai, sentindo o peso da verdade esmagar meus ombros. Ele me encarava com aqueles olhos de leão ferido, mistura de incredulidade e fúria. — Pai, deixa eu explicar — comecei, a voz saindo mais fraca do que eu queria. Ele levantou a mão. Não tava pronto pra ouvir. — Explicar o quê, Carol? Explicar como você deixou ser usada por um x9? Por um filho da p**a que se infiltrou na minha filha? A voz dele subiu, grossa, carregada de ódio. — Logo você, Carol! Você que nunca deu brecha, que nunca deu espaço pra isso! Logo você, que detecta presença de inimigo de longe! O que aconteceu com o seu senso pra gente traíra? Fiquei calada. Não tinha o que dizer. Ele tava certo. Eu devia ter percebido. Devia ter sentido. Mas não senti. — COMO É QUE VOCÊ DEIXOU ISSO ACONTECER? — ele gritou, batendo com a mão aberta na mesa. O baque ecoou no salão. Passei a mão no rosto. Tentei organizar as ideias. Tentei encontrar as palavras certas. — Pai, foi a segunda vez que eu vi ele. A segunda vez na vida. Na primeira… na primeira eu já tinha sentado pra ele. Eu já tava envolvida. E eu não sabia, juro por tudo que eu não sabia quem ele era. Ele me olhou, os olhos queimando. — Como é que é? Na primeira? Tu transou com ele na primeira blitz? Respirei fundo. — Foi na viatura. Depois a gente foi pra casa dele. Ele deu uma gargalhada. Mas não era risada de graça. Era daquelas que antecedem tempestade. — Pra casa dele. Minha filha foi pra casa do filho do Mendonça. Do filho do homem que quer me ver morto. — Eu não sabia, pai! — a voz saiu mais alta. — E até agora eu não tenho certeza se ele sabe quem eu sou. Ou ele foi treinado pra essa p***a toda, ou ele realmente não faz ideia. Porque eu não percebi NADA. Nem um olhar, nem uma sobrancelha levantada, nada. Ele agiu como se eu fosse qualquer mulher do asfalto. Zeus balançou a cabeça, negando. — Não é possível, Carol. Não é possível que tu tenha sido tão ingênua. — Eu não fui ingênua! Eu fui… — parei, procurando a palavra. — Eu fui levada. Pelo momento. Pelo t***o. Pela vontade de esquecer a merda do Dante e a pressão dessa vida por algumas horas. Ele passou as duas mãos no rosto. O gesto cansado de quem já viu muita merda, mas nunca esperou ver essa. — Como você descobriu? — a voz dele saiu mais baixa agora. — Como você tem certeza que ele é filho do juiz? Peguei o celular no bolso. Mãos trêmulas. Abri a conversa com a Raíssa e joguei o telefone em cima da mesa. — Tá tudo aí. Na minha conversa com a Raíssa. Ele pegou o telefone. Os olhos percorrendo as mensagens, as fotos, os dados. O silêncio pesado. — Lopes. Rafael Lopes Mendonça — ele leu em voz alta. O nome ecoou no salão como uma sentença. Ele largou o telefone na mesa. Me olhou. — Carol. Tu passou dos limites. Muito além do que eu podia imaginar. — Pai, mas eu não sabia… — Não sabia o quê? Que se envolver com policial é perigoso? Que se envolver com qualquer homem fora do morro já é um risco? Agora imagina com um PM? IMAGINA COM O FILHO DO MEU PIOR INIMIGO? A voz dele subiu de novo. Eu sentia o ódio vibrar no ar. — E o pior — ele continuou, andando de um lado pro outro — é que você foi na CASA dele. Minha filha, a herdeira do Dendê, na casa do filho do Mendonça. Se ele descobre quem você é… se ele já sabe… se isso foi armado… Ele parou. Me olhou. — Pai, eu acho que o bom de eu ter ido até a casa dele… — NÃO ACREDITO QUE VOCÊ FOI NA CASA DAQUELE DESGRAÇADO! — ele explodiu, a gargalhada de incredulidade misturada com fúria. — MINHA FILHA! NA CASA DO INIMIGO! Fiquei paralisada. Não sabia o que dizer. Não sabia o que fazer. Ele andava de um lado pro outro, as mãos na cabeça, os olhos vidrados no chão. O leão tava ferido. Não por bala, não por faca. Pela própria filha. — Pai… — tentei de novo. Ele levantou a mão. — Chega, Carol. Por hoje, chega. A voz dele tava cansada. Derrotada. — Vai pra casa. Descansa. Depois a gente conversa. — Mas… — VAI. Obedeci. Levantei, com as pernas trêmulas, e fui até a porta. Antes de sair, olhei pra trás. Ele tava sentado, a cabeça baixa, as mãos apoiadas na mesa. O leão. O homem mais poderoso do Dendê. Abatido. Pela filha. Por mim. Saí da boca com o coração partido em mil pedaços. O vento bateu no rosto, mas não levou nada. A tempestade tinha passado. Mas o estrago… o estrago tava feito. E não tinha mais volta. Pela filha. Por mim. Saí da boca e o vento bateu no rosto quente. Não aliviou nada. O peito continuava apertado, a cabeça pesada, as pernas querendo ceder a cada passo. Foi quando esbarrei quase de cara no Babau, que tava encostado na parede da entrada, de braços cruzados e olhar atento. Ele me viu sair, endireitou o corpo. — Tá tudo bem, patroa? — ele perguntou, a voz baixa, meio desconfiada. Parei. Respirei fundo. Forcei um sorriso que não chegou nos olhos. — Tudo bem, Babau. Pode ficar tranquilo. Ele me estudou por um segundo. Sabia que não tava tudo bem. Mas também sabia que não era lugar dele perguntar mais. — Qualquer coisa, patroa, cê sabe. Tô aqui. Balancei a cabeça, concordando. Segui em frente. Desci a ladeira devagar, sentindo o peso do corpo, da alma, de tudo. Cheguei no meu portão, abri, entrei. A moto ficou na garagem. Eu fui subindo as escadas arrastando os pés. A porta do quarto fechou atrás de mim com um baque surdo. Me joguei na cama, os olhos fixos no teto, a mente a mil. Telefone vibrou no bolso. Peguei. Olhei a tela. Lopes. O coração parou por um segundo. Depois disparou. Deslizei o dedo na tela. Ligação On — Alô? Silêncio do outro lado. Depois a voz dele, grave, cansada. — Carol? — O que foi? — Preciso te ver. Continua...
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD