Carol Narrando
A frase ecoou no silêncio. "Que pørra tu tá falando Carol? Tu dormiu com o filho do desgraçado do Mendonça? Que filho é esse??"
Eu tava parada ali, na frente do meu pai, sentindo o peso da verdade esmagar meus ombros. Ele me encarava com aqueles olhos de leão ferido, mistura de incredulidade e fúria.
— Pai, deixa eu explicar — comecei, a voz saindo mais fraca do que eu queria.
Ele levantou a mão. Não tava pronto pra ouvir.
— Explicar o quê, Carol? Explicar como você deixou ser usada por um x9? Por um filho da p**a que se infiltrou na minha filha?
A voz dele subiu, grossa, carregada de ódio.
— Logo você, Carol! Você que nunca deu brecha, que nunca deu espaço pra isso! Logo você, que detecta presença de inimigo de longe! O que aconteceu com o seu senso pra gente traíra?
Fiquei calada. Não tinha o que dizer. Ele tava certo. Eu devia ter percebido. Devia ter sentido. Mas não senti.
— COMO É QUE VOCÊ DEIXOU ISSO ACONTECER? — ele gritou, batendo com a mão aberta na mesa. O baque ecoou no salão.
Passei a mão no rosto. Tentei organizar as ideias. Tentei encontrar as palavras certas.
— Pai, foi a segunda vez que eu vi ele. A segunda vez na vida. Na primeira… na primeira eu já tinha sentado pra ele. Eu já tava envolvida. E eu não sabia, juro por tudo que eu não sabia quem ele era.
Ele me olhou, os olhos queimando.
— Como é que é? Na primeira? Tu transou com ele na primeira blitz?
Respirei fundo.
— Foi na viatura. Depois a gente foi pra casa dele.
Ele deu uma gargalhada. Mas não era risada de graça. Era daquelas que antecedem tempestade.
— Pra casa dele. Minha filha foi pra casa do filho do Mendonça. Do filho do homem que quer me ver morto.
— Eu não sabia, pai! — a voz saiu mais alta. — E até agora eu não tenho certeza se ele sabe quem eu sou. Ou ele foi treinado pra essa p***a toda, ou ele realmente não faz ideia. Porque eu não percebi NADA. Nem um olhar, nem uma sobrancelha levantada, nada. Ele agiu como se eu fosse qualquer mulher do asfalto.
Zeus balançou a cabeça, negando.
— Não é possível, Carol. Não é possível que tu tenha sido tão ingênua.
— Eu não fui ingênua! Eu fui… — parei, procurando a palavra. — Eu fui levada. Pelo momento. Pelo t***o. Pela vontade de esquecer a merda do Dante e a pressão dessa vida por algumas horas.
Ele passou as duas mãos no rosto. O gesto cansado de quem já viu muita merda, mas nunca esperou ver essa.
— Como você descobriu? — a voz dele saiu mais baixa agora. — Como você tem certeza que ele é filho do juiz?
Peguei o celular no bolso. Mãos trêmulas. Abri a conversa com a Raíssa e joguei o telefone em cima da mesa.
— Tá tudo aí. Na minha conversa com a Raíssa.
Ele pegou o telefone. Os olhos percorrendo as mensagens, as fotos, os dados. O silêncio pesado.
— Lopes. Rafael Lopes Mendonça — ele leu em voz alta. O nome ecoou no salão como uma sentença.
Ele largou o telefone na mesa. Me olhou.
— Carol. Tu passou dos limites. Muito além do que eu podia imaginar.
— Pai, mas eu não sabia…
— Não sabia o quê? Que se envolver com policial é perigoso? Que se envolver com qualquer homem fora do morro já é um risco? Agora imagina com um PM? IMAGINA COM O FILHO DO MEU PIOR INIMIGO?
A voz dele subiu de novo. Eu sentia o ódio vibrar no ar.
— E o pior — ele continuou, andando de um lado pro outro — é que você foi na CASA dele. Minha filha, a herdeira do Dendê, na casa do filho do Mendonça. Se ele descobre quem você é… se ele já sabe… se isso foi armado…
Ele parou. Me olhou.
— Pai, eu acho que o bom de eu ter ido até a casa dele…
— NÃO ACREDITO QUE VOCÊ FOI NA CASA DAQUELE DESGRAÇADO! — ele explodiu, a gargalhada de incredulidade misturada com fúria. — MINHA FILHA! NA CASA DO INIMIGO!
Fiquei paralisada. Não sabia o que dizer. Não sabia o que fazer.
Ele andava de um lado pro outro, as mãos na cabeça, os olhos vidrados no chão. O leão tava ferido. Não por bala, não por faca. Pela própria filha.
— Pai… — tentei de novo.
Ele levantou a mão.
— Chega, Carol. Por hoje, chega.
A voz dele tava cansada. Derrotada.
— Vai pra casa. Descansa. Depois a gente conversa.
— Mas…
— VAI.
Obedeci. Levantei, com as pernas trêmulas, e fui até a porta. Antes de sair, olhei pra trás. Ele tava sentado, a cabeça baixa, as mãos apoiadas na mesa.
O leão. O homem mais poderoso do Dendê. Abatido.
Pela filha. Por mim.
Saí da boca com o coração partido em mil pedaços. O vento bateu no rosto, mas não levou nada.
A tempestade tinha passado. Mas o estrago… o estrago tava feito. E não tinha mais volta.
Pela filha. Por mim.
Saí da boca e o vento bateu no rosto quente. Não aliviou nada. O peito continuava apertado, a cabeça pesada, as pernas querendo ceder a cada passo.
Foi quando esbarrei quase de cara no Babau, que tava encostado na parede da entrada, de braços cruzados e olhar atento. Ele me viu sair, endireitou o corpo.
— Tá tudo bem, patroa? — ele perguntou, a voz baixa, meio desconfiada.
Parei. Respirei fundo. Forcei um sorriso que não chegou nos olhos.
— Tudo bem, Babau. Pode ficar tranquilo.
Ele me estudou por um segundo. Sabia que não tava tudo bem. Mas também sabia que não era lugar dele perguntar mais.
— Qualquer coisa, patroa, cê sabe. Tô aqui.
Balancei a cabeça, concordando. Segui em frente.
Desci a ladeira devagar, sentindo o peso do corpo, da alma, de tudo. Cheguei no meu portão, abri, entrei. A moto ficou na garagem. Eu fui subindo as escadas arrastando os pés.
A porta do quarto fechou atrás de mim com um baque surdo. Me joguei na cama, os olhos fixos no teto, a mente a mil.
Telefone vibrou no bolso.
Peguei. Olhei a tela.
Lopes.
O coração parou por um segundo. Depois disparou.
Deslizei o dedo na tela.
Ligação On
— Alô?
Silêncio do outro lado. Depois a voz dele, grave, cansada.
— Carol?
— O que foi?
— Preciso te ver.
Continua...