Carol Narrando
Pensa numa madrugada longa pra caralhø.
Depois de falar com a Raíssa, ainda troquei mensagem com as outras no grupo. Fiquei horas ali, o olho queimando de cansada, mas a cabeça a mil. Abri o telefone, fiquei encarando o perfil do Lopes no aplicativo de mensagem. A foto dele sem camiseta. O corpo que eu tinha sentido poucas horas antes. O homem que tava dentro de mim. O filho do inimigo.
Puxei o notebook e comecei a fuçar. Tudo. A vida do juiz, da mulher dele, dos outros filhos. Chamei um dos hackers do comando — o meu pessoal, o que meu pai também usa. Pedi ajuda pro nosso advogado. Foi assim que eu encontrei o Lopes de verdade. As redes sociais dele. O perfil de serviço. E nada. NADA com o sobrenome Mendonça. Era só "Cabo Lopes", "Cabo SP", como se ele fosse um policial comum de São Paulo.
Também achei as fotos dele com uma loira. Cliquei no perfil dela. Fotos recentes dos dois juntos. Abraçados. Sorrindo. E pelo jeito, era bem mais do que só amigos.
Fechei o notebook e fiquei olhando pro teto.
Filho da putä.
O dia amanheceu. Tomei banho, vesti a roupa, e subi pro alto do morro. Precisava alinhar a tropa. Preparar os homens. Se esses desgraçados tão beirando o morro desse jeito, com certeza vão entrar. E vão entrar com tudo. Eu precisava estar pronta. Meus homens precisavam estar prontos.
Foi quando a mensagem do coroa chegou: "Vem na boca."
Terminei o que tava fazendo, passei as ordens, e desci direto.
Passei pela porta da boca e vi ele ali. O coroa. Sentado na cadeira, com a cara fechada e os olhos que pareciam enxergar até a minha alma.
Respirei fundo.
Como é que eu conto isso? Como é que eu falo pro meu pai que passei a noite transando com o filho do homem que quer matar ele?
Agora, tô aqui. Na frente dele. Com a verdade na ponta da língua e o medo de perder tudo que eu mais amava.
— Queria falar comigo, coroa? — falei, tentando manter a voz firme.
Ele me estudou por um segundo. Depois apontou pra cadeira na frente da mesa.
— Senta.
Sentei. O couro da cadeira rangeu. Meu estômago embrulhou.
Ele não perdeu tempo.
— Aonde foi que você andou nessa madrugada, Carol?
— Tava curtindo, coroa. Do mesmo jeito que eu curto toda noite quando saio.
Ele inclinou o corpo pra frente. A corrente no peito balançou.
— Os cria ficaram todos preocupados a hora que você. Passou chutada na entrada, não parou pra ninguém. O que aconteceu?
Cruzei as pernas, tentei desviar o olhar.
— Nada demais. Só tava cansada.
Ele balançou a cabeça, negando. Conhecia aquele movimento. Era o "não tenta me enrolar" dele.
— Não tenta me enrolar, menina. Eu te conheço desde antes de você existir. Sei quando tu tá mentindo.
Bufei.
— Tô mentindo não, coroa.
Ele se levantou. Veio andando devagar até ficar na minha frente. O corpo grande bloqueando a luz.
— Escuta aqui, Carol. Eu sei que essa parte aventureira, essa parte sem freio que você tem… isso veio de mim. Mas também sei que quando alguma coisa acontece, você tenta resolver sozinha. E não quero isso. Se tiver acontecendo alguma coisa, você fala pra mim. Não quero que em momento algum você se sinta sozinha. E muito menos que pense que não pode contar com a família. — Ele mandou o papo reto e eu olhei nos olhos dele.
O homem que move montanhas por mim. O homem que mataria e morreria pela minha segurança.
E eu aqui, com um segredo que podia destruir tudo. Abalar a nossa estrutura família e profissional.
— Tá sabendo de alguma movimentação do juiz? — perguntei, jogando verde.
Ele arqueou a sobrancelha.
— Só aquela parada lá. Que tem um mandado pra invadir o morro.
Dei uma gargalhada seca. Amarga.
Ele percebeu na hora.
— Por quê? Tá acontecendo alguma coisa?
— Não — menti rápido demais.
Ele cutucou mais. Sempre cutucava.
— Com certeza você está sabendo que o Barroso tá cercando o morro?
— Tô sabendo não. Por que aquele filho da putä cercaria o morro?
Ele deu de ombros.
— Também não sei. Mas alguma coisa ele quer. Aquele arrombado não dá ponto sem nó. — Ele passa a visão sobre Barroso, e eu balanço a cabeça concordando.
Ficamos em silêncio por um segundo. O ventilador girava no teto, fazendo aquele barulho monótono. Eu sentia o peso da verdade na língua. Precisava sair. Precisava.
— Coroa… — comecei, devagar. — Por um acaso tu sabe se o juiz Otávio Mendonça tem mais filhos?
Ele franziu a testa. Os olhos escuros ficaram atentos.
— Se ele tem mais filhos, eu não sei. Mas que ele tem um ódio mortal de mim, isso eu sei. Isso eu tenho certeza.
— Que ele tem esse ódio mortal, eu tô ciente, não é segredo para ninguém — falei, sabendo de tudo. — É isso ou tem mais alguma coisa?
Ele me olhou. Os olhos distantes, como quem via coisas que eu não via.
— Coisa velha. Coisa de antes de você nascer. Digamos que ele perdeu alguém pra mim. Alguém importante. Nunca superou. Jurou que ia me ver morto ou preso. E desde então, é guerra.
— E se ele usasse os filhos pra afetar a gente? Ou pra chegar na gente?
Ele balançou a cabeça.
— Acho que não. Ele nunca usou os filhos. Sempre foi no pessoal, no tribunal, nos mandado. Por quê?
Dei uma gargalhada. Amarga. Dolorida. Aquele riso que não tem graça nenhuma.
— Você sabia que ele tem um filho na PM? Recém chegado ao Rio. Que participa das blitz na saída do morro?
O rosto dele mudou. A testa franziu fundo, os olhos estreitaram igual fera sentindo o perigo.
— Como é que é?
Meu coração disparou. Era agora. Não tinha mais volta.
— O juiz Otávio Mendonça tem um filho. Rafael Lopes Mendonça. Cabo da PM. Lotado na blitz da saída do Dendê.
Ele deu um passo à frente. A mão fechou.
— E como é que você sabe disso, Carol?
Engoli seco. A garganta travou.
— Porque eu passei a noite com ele, coroa.
O silêncio caiu pesado. Denso. Dava pra cortar com faca.
Ele me encarou. Os olhos de leão queimando. A respiração pesada. O corpo tenso, pronto pra explodir.
— Que pørra tu tá falando Carol? Tu dormiu com o filho do desgraçado do Mendonça? Que filho é esse?
A frase ecoou na sala. Bateu nas paredes. Voltou.
Respirei fundo, encarei ele porque não dava para desviar o olhar.
Continua...