Capítulo 35 Lopes

1527 Words
Lopes Narrando Depois que a gostosa da Carol desligou na minha cara, fiquei um tempão parado dentro da viatura, o telefone mudo na mão, os olhos perdidos no nada. A voz dela ainda ecoava no meu ouvido, cortante igual navalha. "Não custava nada você ter me falado que você era." Que pørra era aquela? Que informação ela tinha descoberto? O que tinha naquele telefone dela que mudou tudo em questão de segundos? A madrugada já tava no fim quando Adriana apareceu. Linda, loira, cheirosa, toda produzida mesmo depois de horas esperando. Ela veio decidida, abriu o zíper da minha calça sem cerimônia e já foi se ajoelhando ali mesmo, no beco escuro do lado da viatura. Ela sabia exatamente o que ia fazer. Sabia como me deixar louco. E em qualquer outra noite, em qualquer outro momento, eu teria deixado. Mas não essa madrugada. Segurei ela firme pelos cabelos, puxando de volta, colocando ela de pé na minha frente. Ela ficou toda bolada, toda nervosa, os olhos claros arregalados de indignação. — O que foi, Lopes? Agora não quer mais? — a voz dela saiu magoada, trêmula. — Não é isso, Adriana. É que… não agora. Não aqui. Não desse jeito — Como assim não agora? Eu vim de São Paulo! Passei a noite te esperando! E você me rejeita assim? Ela toda linda. Loira, olhos claros, corpo escultural. Qualquer homem perderia a cabeça. Mas eu não conseguia. Não tinha sentido ficar com Adriana hoje. Não depois de tudo que eu tinha feito com a Carol. Não depois de sentir o corpo da morena, o gosto, o cheiro, o jeito que ela se entregava. Adriana tem suas vantagens, sua beleza, seu talento. Mas nada, absolutamente nada, se compara aos encantos e ao talento da morena de tranças que invadiu meus pensamentos e não quis mais sair. — Adriana, escuta… — tentei explicar, mas ela não deixou. — Escutar o quê, Lopes? Que você prefere ficar aí, dentro dessa viatura, pensando em outra mulher, enquanto eu tô aqui na sua frente, me oferecendo? Fechei os olhos por um segundo. Ela tinha razão. E eu não sabia o que dizer. O dia amanheceu e eu ainda estou aqui, moído, cansado, confuso. — Então é assim, Lopes? Agora não me quer mais? — a voz dela saiu manhosa. Ela me olhou com aqueles olhos cheios de fogo. — Então como? Quando? Você sabe, que me chamou em pensamento, me fez vir até aqui, e agora me dispensa? Eu larguei tudo em São Paulo, Lopes. Larguei meu trabalho, meus amigos, minha vida, porque eu sabia que queria me ver. E agora? Passei a mão no rosto, tentando organizar os pensamentos. — Eu não te chamei aqui, você veio porque quis, e eu não estou te dispensando. Só tô falando que não quero que você faça isso porque se sente obrigada, ou porque acha que é o que eu quero. Eu quero que você faça porque quer. E hoje, desse jeito, não parece que você quer. Parece que você tá tentando provar algo. Ela ficou em silêncio por um longo minuto. Depois cruzou os braços. — Tá bom. Então vou ficar aqui. Até seu plantão acabar. Vou esperar o tempo que for preciso, Lopes. Porque eu te amo. Eu sempre te amei. E não consigo viver sem você. — Adriana… — Deixa eu terminar. Eu tentei, juro que tentei seguir em frente quando você foi transferido. Conheci outros caras, tentei me envolver. Mas não adianta. Nenhum deles é você. Nenhum me faz sentir o que você me faz. Eu não sei viver sem você, Lopes. E tô aqui, me humilhando, implorando por um pouco da sua atenção. Isso não significa nada pra você? Respirei fundo. A culpa apertou meu peito. — Significa. Claro que significa. Mas não é simples. — Por que não é simples? — ela insistiu, a voz falhando. — O que tem de tão complicado? Você tem outra? É isso? — Não é isso. É que… tem coisas que você não entende. — Então me explica! Me ajuda a entender! Por que você tá tão distante? Por que me trata como se eu fosse um problema? Fechei os olhos por um segundo. A imagem da Carol surgiu na mente. A morena de tranças. O vestido vermelho. O jeito que ela me olhou antes de sair. — Não é você, Adriana. É o momento. Estou passando por coisas… complicadas. Ela balançou a cabeça, negando. — Sempre tem uma desculpa, Lopes. Sempre. Ela se afastou, sentou num banco perto, e ficou me olhando de longe, o celular na mão, a expressão magoada. Não foi embora. Não desistiu. Ficou ali, esperando, como um cachorro abandonado esperando o dono voltar. O sol raiou. Meu plantão acabou. Desliguei a viatura, desci, e ela veio caminhando na minha direção, os olhos inchados de quem tinha chorado. — Acabou? — perguntou, a voz rouca. — Acabou. — Então vou com você pra sua casa. Não quero hotel, não quero apartamento, quero sua casa. Quero acordar do seu lado, sentir seu cheiro no travesseiro. Quero que você me abrace e me diga que tudo vai ficar bem. Respirei fundo. — Adriana, melhor não. Hoje não é um bom dia. — Por que melhor não? — a voz dela subiu, dramática. — Você tem alguém lá? É isso? Você conheceu outra? Por isso não quer me levar? — Não é isso. É que… Ela não deixou eu terminar. — Então vamos! Cansei de hotel, cansei de esperar, cansei de ser tratada como opção. Quero você na sua cama, no seu chuveiro, no seu sofá. Quero sentir cheiro de você na sua casa. Quero que você me ame do jeito que eu te amo. Passei a mão no rosto. A cabeça doía. O corpo doía. E a única imagem que vinha na mente era a Carol saindo pela porta. — Adriana, não dá. Hoje não. — HOJE NÃO? — a voz dela subiu, histérica. — Eu vim de São Paulo, Lopes. Passei a noite esperando você terminar o plantão. Fiquei sentada naquele banco frio, vendo você me ignorar, vendo você preferir ficar dentro da viatura do que vir conversar comigo. E agora você me diz que não dá? — Eu não tô com cabeça pra isso. — Tá com cabeça pra quê? Pra quem? Quem é ela, Lopes? Quem é a mulher que tá ocupando sua cabeça desse jeito? Antes que eu pudesse responder, uma voz conhecida cortou o ar. — Não acredito que você tá tratando uma mulher desse jeito, Lopes. Barroso. Apareceu do nada, com aquele sorriso de lado que eu já tava cansado de ver. Virei pra ele. — Fica na sua, Barroso. Isso não é da sua conta. Ele ergueu as mãos, fingindo inocência. — Só tô dizendo. Mulher bonita dessas, vindo de longe, se humilhando desse jeito, e você trata assim? Cadê seu coração, irmão? Adriana olhou pra ele. Depois pra mim. Depois pro Barroso de novo. — Entra no carro, Adriana — falei, a voz firme. — Vou te levar pro hotel. — Não vou. Não vou voltar pro hotel. Eu vou com você. Quero sua casa, Lopes. Quero você. Barroso se aproximou, todo solícito, com aquele sorriso falso. — Se você quiser, loira, eu te deixo em casa. Ou no hotel. Onde você precisar ir. Não precisa se humilhar pra quem não te merece. Adriana parou. Me olhou. Olhou pro Barroso. O silêncio pesou. Meu sangue gelou. — Adriana — chamei, a voz tensa. — Entra no carro. Agora. Ela balançou a cabeça, confusa. — Eu não sei mais o que fazer, Lopes. Você me trata assim, e ele aparece oferecendo ajuda. Quem é você? Quem é ele? Barroso deu um passo à frente. — Sou só um colega de trabalho, linda. Que vê uma mulher sendo desrespeitada e não consegue ficar calado. Adriana abriu a boca pra responder. E eu fiquei parado, vendo a cena se desenrolar sem acreditar nessa pørra. Fechei os olhos por um segundo. Não pra pensar. Não pra pesar escolhas. Fechei os olhos pra ter certeza do que eu já sabia. Não tinha mais volta. Meu corpo, minha cabeça, meu coração — tudo apontava pra ela. Abri os olhos. Passei por Adriana sem dizer uma palavra. Entrei no meu carro, dei partida, e saí do estacionamento do batalhão deixando ela parada, com o Barroso do lado, os dois me olhando sumir na curva. Peguei o telefone. Liguei pra Carol. Ela atendeu no segundo toque. Falei para ela que precisava ver ela. — Pra quê você quer me ver, Lopes? A voz dela tava desconfiada, magoada, mas atendeu. Isso já era alguma coisa. — Porque eu preciso te olhar nos olhos e descobrir o que você sabe — respondi, sincero. — Porque alguma coisa mudou entre a gente, e eu não sei o que foi. E porque… porque não consigo parar de pensar em você. Silêncio do outro lado. — Tá no mesmo lugar da blitz? — ela perguntou, finalmente. — Tô saindo do batalhão agora. Mas posso estar onde você quiser. — Fica próximo de onde você me parou na blitz. Eu vou até você. Desligou. Continua...
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