Capítulo 18 Lopes

1114 Words
Lopes Narrando A água quente batia no meu peito, escorria pelas costas, mas não lavava nada. O pensamento nela continuava ali, entranhado igual o cheiro que eu jurava ainda sentir no uniforme. Carol. Fechei os olhos debaixo do chuveiro, e lá estava ela. A pele brilhando de suor na luz fraca da viatura. As mãos apertando meus ombros. O gemido baixo no meu ouvido. O jeito que ela mordeu o lábio quando eu falei que queria ela na minha casa. Meu corpo reagiu na hora. Duro, tenso, querendo algo que não podia ter agora. — Putä que pariu — rosnei, virando a água pro frio. Precisava me concentrar. Hoje tinha plantão. E não era um dia qualquer. Saí do banho, me enxuguei com raiva. Farda no corpo. Camisa, calça, coturno. Coldre. A rotina de sempre, mas o peso diferente. Peguei uma fruta na cozinha, comi rápido, sem gosto. Desci pro carro. O trânsito do Rio engolia a cidade como sempre. Dirigi no automático, a mente longe. O Dendê aparecia no horizonte sempre que eu virava uma certa curva. Aquele amontoado de casas, luzes, vidas. E uma delas, a dela. Estacionei no batalhão. Desci do carro e foi quando ouvi o barulho de uma porta batendo do meu lado. Minha mão foi direto pra arma por instinto. Quando virei, o choque. — Adriana? A loira mais linda de São Paulo estava ali, encostada num carro alugado, com um sorriso de lado que eu conhecia bem. Fechei a porta do carro e fui até ela. — O que você tá fazendo aqui? Ela se aproximou, o perfume doce invadindo meu espaço. — Você sumiu, Lopes. Não deu as caras, não falou nada. Eu vim atrás. Soltei uma gargalhada seca. — Adriana, você não tem mesmo o que fazer, né? Pra sair de São Paulo e vir até aqui atrás de mim… é porque tá com muito tempo livre. Ela passou a mão no meu peito, lenta, descendo até a altura da minha calça. — Tô com saudade, Rafael. Saudade do beijo, do corpo, de você todo. — Ela apertou de leve, sentindo meu volume, e arqueou a sobrancelha. — Uai, tava pensando em mim? Por um segundo, uma imagem cruzou minha mente. Tranças. Pele n***a. Sorriso malicioso. Não ela. Recuei, afastando a mão dela. — Adriana, para. Tô no trabalho. Aqui é meu batalhão, tem que manter a ética. Ela riu, irônica. — Ética? Lembra como era gostoso quando eu ia te fazer visita no batalhão lá em São Paulo? Respirei fundo. Ela não ia facilitar. — Escuta. Vai pra um hotel, pra qualquer lugar. Quando meu plantão acabar ou na hora do intervalo, eu entro em contato. Juro. Ela me encarou, desconfiada. — Não acredito em você. — Pode acreditar. Vou entrar em contato. — Falo tentando me livrar dela, Adriana quando gruda e igual carrapato. Ela se aproximou de novo, e antes que eu pudesse evitar, abraçou meu pescoço e me beijou. A boca quente, familiar, insistente. Deixei por um segundo, só pra não ser grosso, e me afastei. — Você não tem jeito, né, Adriana? Ela sorriu, vitoriosa. — Você sabe muito bem qual é o meu jeito. Então trata de arrumar tempo pra mim. — Entra no seu carro, procura um hotel e me passa a localização. — Falo e ela levanta as duas mãos e balança de um jeito impaciente que só ela tem. Ela se virou de volta pro carro, rebolando devagar, olhando pra trás por cima do ombro. Balancei a cabeça, negando. Entrei no batalhão. Cumprimentei alguns conhecidos. Foi quando o Barroso apareceu do nada. — E aí, Lopes. Quem é a loira gostosa que você tava agarrando aí fora? Parei, olhei pra ele. — Que loira? — perguntei me fazendo de sonso. Barroso riu, aquele riso debochado. — Tá garanhão, hein? m*l chegou e já arrumou problema. — Me erra, Barroso. Passei por ele direto, fui bater o ponto. Precisava organizar as coisas. Meu chefe apareceu com a escala. — Lopes, teu plantão hoje é duplo. De dia no batalhão, de noite na blitz. Na rota do Dendê. Balancei a cabeça. — Tô dentro. — Então vamos trabalhar. — O chefe fala e Barroso fica me olhando meio que de lado. Fui pra sala dos computadores. Sentei, respirei fundo. Abri o sistema e digitei o nome de uma conhecida. Alguém do IBGE que me devia favores. Mandei a mensagem. Preciso de um levantamento completo. Todas as famílias do Morro do Dendê. Dados oficiais, cadastro, tudo que tiver. A resposta demorou, mas veio. Um arquivo pesado. Abri. Rolei as páginas. Nomes, idades, composição familiar. Família Silva. Família Santos. Família Oliveira. Centenas de registros. Procurei. Carolina Batista dos Santos. Nada. Puxei pelo nome do Zeus. Nada. Se ele tem ou teve filhos, foram todos apagados do mapa. Era como se eles não existissem. Como se não tivessem residência fixa. Como fossem fantasmas. Fechei os olhos, a cabeça latejando. — Quem é você, Carol? — sussurrei pra tela. — Que pørra é essa? A tela azul refletia meu rosto tenso. O Dendê me encarava de volta, cheio de segredos. E eu, tava cada vez mais perto de descobrir cada um deles. A tela azul refletia meu rosto tenso. O Dendê me encarava de volta, cheio de segredos. E eu estou cada vez mais perto de descobrir cada um deles. O telefone vibrou no bolso, me tirando do transe. Adriana. Chamada de vídeo. Respirei fundo e atendi. Ligação On A imagem apareceu. Ela tava num quarto de hotel, luz suave, cabelo solto. Quando a câmera focou, ela já tava sensualizando, andando pra trás devagar, os olhos fixos na tela. — Surpreso? — a voz dela saiu rouca. — Adriana, que pørra é essa? Ela ignorou. Colocou o celular apoiado em algum lugar e começou a andar pra trás, rebolando lentamente. As mãos desceram pelo corpo, levantaram a blusa devagar, revelando a pele. Depois o sutiã. Ela desabotoou a calça, virou de costas, olhou por cima do ombro com aquele sorriso que eu conhecia bem. Meu corpo reagiu. Mas na mente, a imagem de outra mulher teimava em aparecer. — Para, Adriana. Tô no trabalho. Ela continuou, tirando a calça completamente, ficando só de calcinha. Se aproximou da câmera, os s***s quase encostando na tela. — Você não tá com saudade, Rafael? — sussurrou. — Saudade disso? De mim? Fechei os olhos por um segundo. Carol. Quando abri, Adriana ainda tava ali, esperando. — Depois a gente conversa — falei, a voz grossa. — Agora não dá. Desliguei. Ligação Off Fiquei olhando pro telefone escuro, a respiração pesada. Duas mulheres. Duas vidas. E eu no meio, sem saber pra que lado ir. Continua...
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