Capítulo 07 Zeus

1468 Words
Zeus Narrando Sou filho do movimento. Meu pai, João "Leão", era um dos fundadores do Comando no Rio. Meu avô já tava nas ruas quando favela era só barraco e malandragem. Nasci na lama, cresci no sangue, e sobrevivi pela lei mais antiga que existe: a da lealdade. Lealdade ao CV, à minha tropa e, acima de tudo, à minha família. Meu Vulgo é Zeus. Não é o deus do Olimpo, não. É o que comanda o morro do Dendê. Cinquenta e nove anos, um metro e noventa, corpo que já viu guerra demais, mas ainda firme. O cabelo tá todo grisalho, a barba também, mas ninguém ousa me chamar de velho na cara. Velho é quem perdeu o respeito. E respeito, aqui, eu tenho de sobra. A Dona Janete, minha mulher, tá comigo há trinta e um anos. Ela não é cria do morro. Era uma patricinha do Jardim Botânico, estudante de direito, que um dia se perdeu numa festa na Lapa e caiu nos meus braços – literalmente, porque ela tava cambaleando de salto alto e eu segurei ela antes que quebrasse o pescoço. Eu não acreditava nessa parada de amor à primeira vista. Achava que era invenção de filme. Até aquele dia. Olhei pra aquela mulher de pele clara, cabelo cacheado e uns olhos castanhos que pareciam saber tudo do mundo, e pensei: "Essa aqui vai acabar com a minha paz". E acabou mesmo. Me deu a única paz que importa. Ela é a razão de eu saber que existe um lado bom nas coisas. Carol é a razão de eu saber que preciso proteger esse lado com unhas, dentes e balas. Minha filha. Carol. Ela é a minha cara, a minha teimosia, o meu sangue quente. Mas é também a parte mais vulnerável do meu império. Porque ela é mulher. E nesse mundo de homem burro, mulher com poder é vista como troféu ou ameaça. Eu não deixo ela ser nenhum dos dois. Ensinei ela a atirar antes de ensinar a ler. Mostrei como se lida com um traidor antes de mostrar como se paga uma conta. Impus regras, disciplina, o peso do sobrenome. Mas também ensinei o valor da palavra, do respeito próprio, de nunca abaixar a cabeça. Principalmente pra homem errado. E é por isso que me enche o saco ver ela saindo do morro pra curtir fora. Não é questão de confiança. Eu confio nela mais do que confio em mim mesmo. É questão de risco. Lá fora, ela não é a patroa do Dendê. É só uma morena gostosa num short de couro, um alvo. E eu sei que ela consegue dar um perdido em qualquer um – já me deu, já deu na tropa toda –, mas basta um vacilo. Um segundo de distração. E o meu mundo acaba. Hoje de manhã, o baque da porta da boca abrindo com violência ecoou até onde eu tava, tomando café na varanda de casa. Senti no peito. Algo tinha dado errado. Quando cheguei lá, a cena me gelou: a Carol, com os olhos incendiados, apontando a Taurus pra cabeça do Dante, que estava de joelhos, com a cara cheia de ódio e dor. Agora, depois que ela saiu feito um furacão, a raiva veio. Uma raiva fria, silenciosa, que faz meus dedos formigarem. A sala cheirava a pólvora, café frio e testosterona ferida. Olhei pro Dante, que ainda se arrumava, tentando recuperar a pose de homem importante. A mão dele tremia levemente ao passar no queixo, onde a cotovelada da minha filha tinha marcado. — Levanta. E me explica uma coisa, Dante. O que caralhos passou pela tua cabeça? Ele tentou se recompor, endireitando a camisa cara. — Zeus, tu me conhece. Eu só tava tentando orientar ela. A Carol tá se expondo muito. O rolê dela ontem… todo mundo ficou sabendo. Isso é perigoso pra ela e pra estrutura. — E quem te deu a missão de orientar a minha filha sobre os perigos da vida dela? — minha voz saiu baixa, mas cada palavra pesava como chumbo. — É nosso aliado! Eu me importo com a segurança dela! — Você se importa é com a possessão dela — cortei, dando um passo à frente. O ar entre a gente ficou elétrico. — A Carol falou que você cercou ela ontem à noite. Que ficou na casa do Juninho, de tocaia. É verdade? Dante engoliu em seco. Ele sabia que eu conhecia cada mentira que tentava esconder. Conhecia o cheiro do medo dele. — Eu… fiquei por ali mesmo. Mas foi pra proteger. — Proteger o quê, Dante? O que tinha pra proteger na rua dela à uma da manhã? — a minha voz começou a subir. — Você vê ela como aliada ou vê ela como mulher? Responde na minha cara. Ele ficou em silêncio, os olhos fugindo dos meus. A resposta estava ali, na covardia do olhar. — É o que eu pensei — resmunguei, o nojo subindo pela garganta. — Você, que sempre foi homem de palavra, homem do corre certo, tá se perdendo numa obsessão por uma mulher que nunca te quis. E pior: tá desrespeitando a minha casa. A minha família. A fachada do aliado desabou. O orgulho ferido dele estourou. — Ela é arrogante, Zeus! Acha que pode tudo porque é filha do chefe! Alguém tem que botar limites nela! — LIMITES? — o berro saiu de mim, fazendo até as garrafas vazias na estante tremerem. — Quem caralhos é você pra botar limite na MINHA SUCESSORA? Quem é você, além de um homem que traz produto e abre porta? Você acha que o dinheiro te dá direito? Aqui, direito se conquista com lealdade, não com nota! Ele ficou branco. A menção ao seu papel – importante, mas substituível – tinha acertado no orgulho. — Sem mim, vocês não… — SEM VOCÊ A GENTE DÁ UM JEITO! — gritei de volta, fechando a distância entre a gente. Eu o enxergava de cima, e ele encolheu. — A gente nunca passou fome, nunca ficou sem munição, nunca perdeu território por falta de homem. A Carol tem mais visão de negócio num dedo mindinho do que você tem no corpo inteiro. Ela não precisa da sua proteção doentia. Ela precisa que você fique no seu quadrado. Dante respirava ofegante, a humilhação e a raiva lutando no rosto dele. Ele sabia que tinha perdido. Perdido o respeito, perdido a confiança, e talvez perdido o posto. — Então é assim? — a voz dele saiu rouca. — Mais de trinta anos de parceria, e você joga tudo fora por causa de uma pirraça de mulher? Aquilo foi a gota. Avancei e bati com o dedo indicador no peito dele, com força. Tok. Tok. Tok. — Escuta bem, Dante Carijó. Nossa amizade, nossa lealdade, faz todo o comando se mover. Eu sei disso. Mas eu não abro mão dos meus princípios. E o meu princípio número um é a minha família. Você tocou no que é meu. Você ameaçou o que é meu. Não com palavras, mas com atitude. Com essa patrulha, com essa obsessão nojenta. Ele não falou nada. Só me olhou com um ódio que eu conhecia bem. Era o ódio de quem se sente dono e é tratado como empregado. — Vai embora do Dendê. Hoje. E quando for pensar em voltar pra tratar de negócio, lembra: você entra como aliado. Só. Se eu sentir teu cheiro perto da Carol de novo, se eu ouvir que você tá perguntando por ela, nossa parceria acaba. E aí, você não vai se preocupar só com os negócios. Vai se preocupar em acordar vivo no dia seguinte. Dante prendeu o ar. Era uma sentença de morte branda, mas era uma sentença. Ele deu um passo para trás, depois outro. O olhar dele passou de mim para a cadeira vazia da Carol, e eu vi o deseho doentio ainda brilhando lá no fundo. Aquele cara não tinha se curado. Só tinha aprendido a ter medo. — Então é assim — repetiu ele, num sussurro. — É assim — confirmei, cruzando os braços. Sem mais uma palavra, ele virou e saiu. A porta se fechou devagar atrás dele. Fiquei sozinho no meio da sala, ouvindo o som do Audi dele ligando e descendo o morro. A raiva foi esfriando, deixando um gosto amargo de decepção no lugar. Dante era um aliado forte. Perder ele ia custar caro. Ia abrir espaço, ia criar atrito. Mas algumas coisas não têm preço. A segurança da minha filha é uma. A integridade dela é outra. Respirei fundo, tentando acalmar o coração que ainda batia forte de adrenalina. O cheiro do café queimado da garrafa térmica encheu o ar. Eu precisava falar com a Janete. Ela sempre soube acalmar a tempestade dentro de mim. Continua...
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