Capítulo 06 Carol

1384 Words
Carol Narrando A cena congelou. O gemido do Dante, o peso da Taurus na minha mão, o olhar de trovão do Zeus parado na porta. O silêncio que caiu era mais alto que qualquer tiro. Foi o Zeus quem quebrou o gelo, com uma calma que era cem vezes mais assustadora que um grito. — Minha filha. Baixa essa arma. Agora. Não era um pedido. Era a voz do Comando. A que eu respeitava acima de todas. Baixei a Taurus, mas não guardei. Meu dedo ainda estava fora do gatilho, meu corpo ainda em tensão total. — Agora me explica. O que diabos é isso? — Ele entrou no salão, os homens ficaram do lado de fora. A porta se fechou de novo, deixando só nós três naquela sala cheia de fumaça e ódio. O Dante tentou se levantar, ainda encolhido, o rosto pálido de dor e raiva. — Zeus, ela tá maluca! Tava tentando conversar com ela, orientar, porque ela tá se expondo muito. E ela surtou! Me atacou! Olhei pra ele e cuspi no chão, perto dos sapatos lustrados dele. — Mentiroso do c*****o. Não suporto nem olhar pra sua cara. — Carol — a voz do meu pai era um aviso. — Não, pai. Agora você vai ouvir. Esse velho nojento — apontei a arma na direção do Dante, sem mirar nele, mas a mensagem estava clara — acha que os negócios da família, o seu negócio, o seu comando, têm alguma coisa a ver com o meu corpo, com a minha pessoa. E eu não vou admitir essa p***a. Ou você coloca ele na linha, ou você vai perder não só uma filha. Vai perder o seu braço direito. Vai perder a sua sucessora na p***a desse morro. O Zeus não piscou. Virou para o Dante, que estava se apoiando na mesa. — O que aconteceu, Dante? De verdade. — Eu… Eu só vim cedo tratar da remessa da próxima semana. Ela chegou, agressiva. Eu comentei que ela precisa ter mais cuidado, que eu fiquei sabendo do rolê dela ontem, que é perigoso… — Como você ficou sabendo? — cortei. — Ah, é. Porque você me circou quando eu cheguei da resenha com as minhas amigas. Pelo jeito, você nem saiu do morro. Ficou de tocaia igual um tarado. Pai, você sabe que ele tava na boca? Esperando por mim? O rosto do Zeus escureceu. Ele olhou para o Dante. — É verdade? Dante engoliu seco. — Fiquei na casa do Juninho, o cria da sua segurança. Precisava acertar uns detalhes. — Na casa do Juninho? — a voz do meu pai ficou perigosamente suave. — Por que, se sempre que você vem pro Dendê, fica na casa segura, no ponto alto? Por que foi ficar na casa de um cria, justo na entrada, com vista pra rua da Carol? Tu tá na maldade, c*****o. Dante abriu a boca, mas não saiu som. A máscara do aliado confiável estava rachando, e o monstro possessivo de underneath estava aparecendo. Zeus respirou fundo, olhando para o teto como se pedisse paciência aos céus. Quando olhou de volta, a decisão estava feita nos olhos dele. — Dante. Você é um aliado forte. Perder você seria um baque. Mas ouça bem: Carol nunca foi um troféu aqui dentro. Nunca foi moeda de negociação. Ela é minha filha e minha sucessora porque ela tem mérito, não porque é mulher. E ela nunca, NUNCA, gostou de você. Eu nunca dei esse tipo de i********e pra você chegar passando a mão, chegando intimidando, achando que tem posse. Isso acaba hoje. Dante parecia que tinha levado um tiro no peito. A arrogância voltou num instante, mascarando a humilhação. — Zeus, pensa bem. Eu sou quem tem os contatos lá fora. Eu fincio a maioria dos produtos antes de chegar nos donos de morro. Vocês precisam de mim. Foi a gota d'água. Ri, um som seco e sem graça. — A gente nunca passou fome, Dante. E não vai passar por causa de você. Me ouve agora, pai: tu resolve aí. Eu tenho uns bagulho pra resolver. E já vou avisando: hoje vou meter o pé pra desestressar. Esse daí — aponto com o queixo — esbarra comigo na madrugada, fora ou dentro do morro, a primeira bala que sai da minha arma vai ser no meio da cabeça dele. — Carol, fica calma — o Zeus tentou, erguendo a mão. — Calma é um c*****o! — gritei, a voz ecoando no salão vazio. — Todo mundo sabe até onde vai o meu limite! E esse daí sabe muito bem, e não é de hoje! Joguei um último olhar de desprezo para o Dante, que estava parado, o rosto uma mistura de ódio e derrota. Virei as costas e abri a porta com um golpe. Os dois homens do lado de fora se afastaram rapidamente. Não olhei pra trás. Desci a ladeira como um furacão, a raiva pulsando nas minhas têmporas. Precisava descarregar. Precisava de ação. Na noite passada, eu só tinha curtido. Hoje, eu precisava de sangue, suor e… outra coisa. Cheguei na parte mais alta do morro, no campo de terra batida que servia de área de treinamento. O chefe da segurança, o Moreno, estava lá, orientando uns cinco homens novos no manejo básico de armas. Ele me viu chegando e fez um sinal de respeito. — Patroa. Tudo bem? — Tudo não, Moreno. Quem vai treinar a tropa hoje sou eu. Ele não questionou. Só acenou pros homens e se afastou. Peguei a Taurus da cintura e a Glock 17 que estava numa mesa próxima, cheia de pó. Virei-me para os mlks, todos com cara de novato e um pouco de medo. — Escutem aqui! — minha voz cortou o ar. — Arma não é enfeite. Não é status. É ferramenta. É a extensão do seu braço e da sua vontade de viver. Hoje, vocês vão aprender a respeitá-la. Coloquei os alvos de lata a uns vinte metros. Enchi os pentes. — Primeira lição: postura. Segundo: respiração. Terceiro: nunca, NUNCA, coloque o dedo no gatilho até ter certeza do que está atrás do seu alvo. Comecei a instruir, mas a raiva ainda fervia. Cada comando era dado com uma intensidade brutal. Cada demonstração de tiro era uma descarga de adrenalina. PUM! PUM! PUM! As latas voavam, o barulho ecoava no morro. Eu não era uma instrutora; era uma força da natureza descarregando toda a fúria, toda a tensão, toda a sensação de invasão que o Dante tinha causado. Os homens aprendiam rápido, principalmente com o exemplo de ódio concentrado que eu estava dando. Depois de uma hora, a mão estava dormente, o ouvido zumbia, mas a mente estava um pouco mais clara. A raiva tinha virado energia gasta. O ódio, um cansaço muscular. Moreno se aproximou de novo, me oferecendo uma garrafa de água. — Descarregou, patroa? — Um pouco — respondi, tomando um gole longo. — Mas falta a parte boa. Ele sorriu, entendendo. Eu não estava falando de violência. Lavei o rosto e as mãos num tanque próximo, a água fria trazendo um alívio momentâneo. Olhei para o horizonte, onde o asfalto da cidade começava. Na noite passada, eu só tinha curtido, dançado, fingido ser livre. Hoje à noite, a missão era outra. Precisava apagar o gosto amargo do Dante, a sensação de violação, a pressão do morro. E eu sabia exatamente como. Virei-me para o Moreno, secando as mãos no short. — Vou dar um rolê. O morro tá com você. — Pode deixar, patroa. Vai desestressar? Dei um sorriso que não chegava aos olhos. — Algo assim. Na noite passada, foi música. Hoje… hoje eu preciso arrumar um homem gostoso pra sentar nele até esquecer meu próprio nome. Ele riu, balançando a cabeça. — Tá na lei, chefe. Só cuidado. — Cuidado é meu sobrenome, Moreno. Mas hoje à noite, quero esquecer até dele. Peguei a chave da moto e desci em direção à minha casa, um plano já se formando na cabeça. A raiva tinha ido embora com os tiros. Agora, só restava o desejo puro, urgente, de se perder em alguém que não fosse um aliado nojento, um pai protetor ou um soldado obediente. Alguém que só me visse como Carol. A mulher. E não a Filha do Traficante. Continua...
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