Carol Narrando
A noite foi pesada. Daquelas em que você fecha os olhos e a mente vira um carrossel de imagens e ruídos. O baque da música da boate batendo nas têmporas. O flash dos giros vermelhos e azuis. O olhar do policial na blitz. A mensagem anônima. O Audi preto do Dante parado na escuridão. Não sabia dizer o que era pior: o eco da festa ou o silêncio ameaçador que veio depois.
Quase não dormi. Fiquei me revirando, analisando a blitz. Aquele ponto na avenida nunca tinha operação. Era muito óbvio, muito exposto. Ou alguém deu a dica, ou foi ordem de cima. Marcação. Tinha que ser. Um ponto que eu vou ter que pedir pro coroa ver com o infiltrado dele dentro da polícia. Alguém tá de olho na saída do Dendê, e isso não é coincidência.
Quando o sol entrou pela janela, batendo forte e laranja direto na minha cara, eu já estava semi-acordada. Não abri o olho. Senti o calor na pele e dei um pulo direto da cama, como se um alarme interno tivesse disparado. O morro não espera. O corre não dorme.
Fui direto pro banheiro. Liguei o chuveiro e entrei, deixando a água quase gelada cair pra tirar a última névoa do cansaço. Lavar o cabelo é um ritual. Trança rasta não é brincadeira; tem que lavar com paciência, esfregando o shampoo no couro cabeludo e no meio de cada trança, uma por uma, garantindo que a sujeira da noite e do stress saia de verdade. Demora, mas é terapêutico. A água escorrendo entre as tranças é como lavar a alma.
Depois do banho, sequei o corpo e comecei o protocolo. Passei o creme hidratante específico pra pele n***a, aquele que deixa a pele brilhando e cheirosa. Desodorante. Um pouco de protetor solar no rosto – subestimar o sol carioca é burrice. No closet, vesti um short curto preto, um cropped de manginha de cotton preto que marcava o corpo sem ser vulgar, uma meia cano baixo preta e o tênis preto de sempre, limpo. Uniforme da guerra diária.
Soltei o cabelo, sequei as pontas das tranças com o secador em temperatura morna pra não ressecar, e deixei cair livre nas costas. Arrumei a cama num movimento rápido – bagunça me dá ansiedade – e abri as janelas de correr. A luz invadiu o apartamento. Peguei o borrifador com essência de lavanda e alecrim e dei umas borrifadas pelo ar. Cheiro de limpeza, de recomeço.
Desci pra cozinha. Café rápido e básico, mas poderoso: aveia, banana, whey protein e um pouco de café coado. Rico em fibras, proteína e aquela cafeína que dá a substância e a energia que o corpo precisa pra aguentar o tranco. Enquanto tomava, já tinha o telefone na mão, organizando mentalmente o dia e marcando a próxima saida. Precisava de um novo ponto de encontro com as fornecedoras da Zona Oeste, fora do radar. Já tinha um lugar em mente.
Terminei o café, lavei a xícara e a tigela, sequei e guardei. Organização é poder. Subi correndo, dei aquela higienizada final: enxaguante bucal que arde, desodorante extra, um perfume suave nas pulseiras e atrás da orelha, e um gloss transparente nos lábios. Pronta.
Peguei a Taurus, chequei o pente e encaixei no coldre próprio na parte de trás do short, no centro das costas, escondida sob o cropped. Pendurei o rádio no bolso da frente, a chave da moto estava na mesinha de entrada. Desci os degraus dois a dois.
O telefone vibrou na minha mão assim que pisei no quintal. Olhei a tela. Dante.
Desliguei a tela e guardei no bolso sem nem abrir. Hoje não, seu obsessivo.
Liguei a moto e saí. O ar da manhã no morro tem um cheiro único: café, pão fresco, umidade das vielas e, se você prestar atenção, um leve vestígio de pólvora velha. Desci a rua principal, acenando pra Dona Maria que varia a calçada e pro seu Osmar, que já tá abrindo o bar.
Avistei a tropa lá embaixo, na esquina que leva para a saída principal. O Babau e o Neguinho, encostados no muro, conversando baixo. Meu coração deu um salto. Paguei eles pra não me seguir, mas se o coroa descobriu…
Fui me aproximando, e foi então que vi. Do outro lado da rua, parado na porta do bar do seu Chico, com um copo de café na mão e os olhos de águia fixos em mim, estava o Zeus. Ele não fez um gesto. Só assoviou. Aquele assovio baixo, cortante, que atravessa o barulho da rua e chega no seu ouvido como um comando.
— Agora fødeu — resmunguei por dentro, mantendo a expressão neutra.
Acelerei um pouco a moto, passando pelos dois homens. Espero que ele não cobre os meninos. Eu paguei, eles cumpriram. O erro foi meu de achar que ia passar despercebida.
Subi a ladeira íngreme que levava à boca principal, uma construção de dois andares com janelas sempre fechadas. Estacionei a moto do lado de fora, ao lado de outras três. O Moleque, um moleque novo e esperto que fica na portaria, fez o toque de cumprimento comigo.
— E aí, Moleque? Tá quente? — perguntei, na brincadeira, mas sempre séria.
— Não, patroa. Tá de boa. Silêncio de sepultura desde as seis.
— Então é isso aí. Vamos botar pra girar.
Já ia entrando quando um dos cria que faz a contenção na entrada lateral gritou por mim.
— Patroa!
— Aguenta aí, já já eu troco ideia com vocês! — gritei de volta, sem parar.
A agenda hoje era apertada. Bati a mão na porta de madeira reforçada com metal e entrei no salão principal. O ar estava carregado de fumaça de cigarro e café forte. A TV no canto passava o jornal silencioso. A mesa grande no centro, com os mapas e as planilhas, era o meu trono.
Só que hoje, meu trono estava ocupado.
Dante estava sentado na minha cadeira, a de encosto alto, reclinado para trás como se fosse dono do lugar. Usava um jeans e uma camisa social cinza, os sapatos lustrados repousados sobre a mesa, manchando o mapa da região.
O sangue subiu tão rápido para minha cabeça que eu senti um zumbido nos ouvidos. A raiva foi um trovejão seco no meu peito.
Ele me viu, e um sorriso lento, de dono, se abriu no rosto dele.
— Bom dia, princesa. Tava te esperando.
— Levanta da minha cadeira, Dante — a minha voz saiu baixa, plana, perigosamente controlada.
— Sua cadeira? — ele riu, sem se mover. — Acho que você se confunde, Carol. Esse ponto é do CV. Essa cadeira é de quem o CV confia. E pelo que vi ontem à noite, você tá mais preocupada em dar rolê do que em comandar.
— A última vez que chequei, o comando do Dendê ainda tava no nome do Batista. Não no seu. Levanta. Agora.
Ele segurou o olhar por uns segundos, o desafio pairando no ar pesado. Então, com uma lentidão provocadora, tirou os pés da mesa e se levantou. Mas não saiu de trás da mesa. Ficou ali, bloqueando o caminho para a cadeira.
— Precisamos conversar. Sem histeria.
— Você não precisa de cadeira pra conversar. Fala daí.
Ele balançou a cabeça, como se lidasse com uma criança teimosa. Deu dois passos na minha direção. Eu não recuei.
— Você acha inteligente me humilhar? Me bloquear? Sou seu aliado mais forte, Carol. Posso ser muito mais.
— Já disse o que tinha pra dizer sobre isso.
— Você não disse p***a nenhuma! — a voz dele subiu de repente, a máscara de civilidade escorregando. — Você me ignora, me despreza, sai por aí se exibindo pra qualquer um…
— Chega, Dante.
— Não chega não! — Ele deu mais um passo, invadindo meu espaço pessoal. O cheiro do perfume caro dele era sufocante. — Você vai me ouvir.
Num movimento brusco, ele esticou o braço e bateu a porta pesada, que se fechou com um baque surdo, isolando-nos do lado de fora. O barulho fez o copo na mesa tremer.
— O que você acha que tá fazendo? — rosnei.
— Garantindo nossa privacidade.
Ele avançou. Eu recuei, mas a parede de tijolos estava atrás de mim. Em menos de um segundo, ele prensou o corpo contra o meu, uma mão na parede ao lado da minha cabeça, a outra segurando meu queixo com força.
— Você vai aprender a me respeitar.
A fúria explodiu em branco. Não pensei. Reagi.
Joguei o peso do corpo para o lado e dei uma cotovelada seca e precisa no queixo dele. O impacto foi satisfatoriamente duro. Ele grunhiu de dor e surpresa, soltando-me e cambaleando para trás, quase caindo.
— Sua püta do caralhø! — ele gritou, levando a mão ao rosto.
Ele se recompôs rápido, os olhos injetados de ódio e humilhação. Avançou de novo, dessa vez com os punhos cerrados. Eu me agachei e, quando ele estava à distância certa, levantei o joelho num chute rápido e devastador, acertando em cheio entre as pernas dele.
— Posso até ser putä, mas nunca vou ser sua. — Gritei olhando ele no chão.
— Putä que pariu... — Dante gemeu, um som agudo e arfante, e desabou de joelhos, as mãos voando para a virilha, o rosto contraído numa máscara de agonia pura.
Sem perder um segundo, puxei a Taurus de trás das costas em um movimento fluido, engatilhei e apontei para a testa dele, que agora estava à altura da minha cintura.
— A próxima bala não vai ser de borracha, seu filho da p**a — cuspi, a respiração ofegante, o dedo no gatilho.
A porta se abriu com violência, batendo na parede.
— QUE PØRRA É ESSA QUE TÁ ACONTECENDO AQUI?!
A voz trovejou, enchendo o salão. Era Zeus. Meu pai. Parado na porta, com os dois cria de contenção atrás dele, olhando a cena: Dante de joelhos, gemendo, e eu com uma arma apontada pra cabeça dele.
O mundo parou. O ar saiu do meu corpo. Agora, fødeu de verdade.
Continua...