Capítulo 04 Lopes

1541 Words
Lopes Narrando Meu nome é Rafael Lopes, mas no batalhão me chamam só de Lopes. Cabo Lopes, pra ser mais exato. Tenho trinta e cinco anos, um metro e noventa, e cheguei ao Rio há cinco. Trabalho nesta corporação há menos de seis meses, e adivinha só? Me jogaram direto na linha de frente dos morros. Acham que, por ser novato, por ter cara de p*u dura e um histórico limpo de São Paulo, eu sou o cara perfeito pra ficar tomando sol em blitz e levando enquadro de playboy assustado. Não reclamo. Nunca fui de fugir de serviço. A rotina é pesada, sim. É acordar cedo, vestir a farda que pesa mais do que parece, e sair sabendo que metade da cidade te vê como herói e a outra metade como inimigo. Mas eu acredito no meio-termo. Sempre acreditei. Minha família não entende. Meu pai, Otávio Mendonça, é Juiz de Direito. Um dos mais respeitados – e temidos – do Rio. Minha mãe, falecida, era promotora. Meu irmão mais velho é advogado criminal, a irmã do meio é delegada civil. Eu era o destoante. O único que, aos dezoito, olhou para aquele jantar de domingo cheio de discussões sobre leis e jurisprudência e disse: “Quero ser PM”. Você pode imaginar o clima. Um filho do grande Otávio Mendonça, botando uma farda e indo pra rua? Foi visto como uma afronta, uma rebeldia barata. Meu pai não falou comigo por um ano. Achava que eu estava jogando meu futuro no lixo, me rebaixando. Ele nunca entendeu que, pra mim, justiça não se faz só nos tribunais. Às vezes, se faz no asfalto quente, no diálogo com um menino assustado, em não tratar todo morador de comunidade como bandidø. Estudei. Me füdi pra caralhø pra passar no concurso. Me dediquei nos treinamentos, me especializei em mediação de conflitos. Lutei pra ser transferido pro Rio, mesmo sabendo que seria um inferno. Porque o Rio, com toda sua contradição, é onde as coisas acontecem. É onde a teoria do meu pai e a minha prática colidem todo dia. Hoje, o turno estava acabando. Fiquei das quatorze às vinte duas numa operação combinada com a Civil, montando barreira na saída de três comunidades, incluindo o Dendê. O sol tinha baixado, mas o calor do asfalto ainda subia, misturado com o cheiro de gasolina e tensão. Revistamos carros, checamos documentos, prendemos dois com mandado e apreendemos uma moto roubada. Nada demais. O padrão. Enquanto conferia a papelada no capô da viatura, ouvindo o rádio cuspir códigos, meus homens conversavam perto do cone. Dois cabos, Matias e Costa. Matias, veterano, cinquenta anos na cara e um desprezo por tudo que vem do morro. Costa, mais novo, folgado, que acha que o poder do distintivo é pra pegar mulher. —…uma morena gostosa do caralhø, na moral — era a voz do Matias, rouca de cigarro. — Pilota uma Fan 150 vermelha. Desceu do morro tipo uma bala. Parei ela ali na curva. Que visão, irmão. Com um shortinho de couro colado… parecia que tinha sido pintado nela. Meus dedos pararam sobre a folha de ocorrência. Continuei anotando, mas a orelha ficou ligada. Algo na descrição me cutucou. — Aquela loirinha? — perguntou Costa, rindo. — Loirinha o c*****o, pô. Morena da pele cor de jambo, tranças nas costa. Tem uma tattoo aqui no ombro… uma pena, achei føda. Me olhou com uns olhos que… putz. Dava medo e tesãø ao mesmo tempo. Falou comigo igual, sem medo. Deu até os documentos certinho. Carolina Batista dos Santos. O nome não me dizia nada. Mas a imagem que o Matias pintou ficou. Morena, tranças, olhar que impõe respeito. Não era a descrição de uma assustada. — Carolina? — Costa deu uma risada mais alta. — Putä que pariu, acho que é a mesma! Eu vi uma morena assim, a poucas horas, lá na Pandora, na Lapa. Tava rebolando aquela raba num short de couro… era ela, certeza. Tava com umas amigas, bebendo whisky como se fosse água. Olhou pra mim com um desdém, mano… como se eu fosse lixo. — Deve ser alguma filha de dono de boca — resmungou Matias, cuspindo no asfalto. — Com aquele jeito de patroa. Dinheiro de traficante na veia. Uma hora a conta chega. Algo na conversa deles me deu um mau pressentimento. Não era inveja nem tesãø. Era profissional. Eles estavam falando de uma civil de forma absolutamente inadequada, focando na aparência, especulando sobre a vida dela. Isso não é o trabalho. É assédio disfarçado de papo de quartel. Fechei a pasta com um estalo seco e me virei. Os dois pararam de falar quando me viram caminhando. — O problema é o short de couro ou a moto vermelha, cabo Matias? — perguntei, a voz neutra, mas firme. Ele encarou, surpreso. — Nenhum dos dois, cabo Lopes. Só tava comentando… — Comentando o quê, exatamente? A cidadã entregou os documentos em ordem? Não estava armada? Não tentou subornar? Então cumpriu o seu papel e o dela. O resto é detalhe que não interessa à corporação. Matias ficou vermelho, mas não respondeu. Costa baixou a cabeça, fingindo ajustar o colete. — O serviço de vocês é revistar, conferir, garantir a segurança do local. Não é ficar avaliando roupa, corpo ou vida pessoal de quem para aqui. Isso é assédio. É falta de profissionalismo. E, na minha equipe, não rola. A frase “na minha equipe” saiu naturalmente, mesmo eu sendo o novato. Mas era a verdade. Eu comando essa blitz. E comandarem com o código que acredito. — É que… sabe como é, Lopes — tentou Costa, leviano. — Às vezes o serviço é pesado, a gente distrai… — Distrai em casa, no bar, no psicólogo que a corporação oferece. Aqui, o foco é o protocolo. Entendido? Os dois murmuraram um “entendido” pouco convincente. — Agora, desmontem a barreira. O turno acabou. Costa, leva a viatura 23 de volta ao batalhão. Matias, ajuda no inventário do material apreendido. Vamos encerrar com organização. Eles se moveram, arrastando os pés, mas obedeceram. Fiquei observando, os braços cruzados, até que o último cone fosse guardado. O mau gosto da conversa ainda estava na minha boca. Era por isso que muitos na comunidade nos odiavam. Por causa de uns poucos que confundiam autoridade com arrogância, e dever com direito de julgar. Enquanto esperava, dei uma olhada no app interno do batalhão, checando os nomes dos apreendidos. Nada demais. Então, sem querer, meu dedo passou por cima da lista de cidadãos revistados sem ocorrência. Parei no nome: Carolina Batista dos Santos. Idade: 28. Moradora do Morro do Dendê. Carolina. Não era um nome incomum. Mas a descrição do Matias… morena da pele cor de jambo, tranças, tattoo de pena no ombro. E a do Costa: rebolando na Pandora, com ar de patroa. Uma mulher que mora no Dendê, tem cara de patroa, anda de moto cara e frequenta a Pandora. A equação era óbvia. Ela estava, de alguma forma, ligada ao tráfico. Filha, mulher, talvez até chefe de algum ponto. O Dendê é território do Zeus, um dos traficantes mais antigos e espertos da cidade. Alvo direto das investigações do meu pai. Um frio percorreu minha espinha que não tinha nada a ver com a brisa da noite. Eu estava aqui, na ponta mais baixa da lei, fazendo o serviço pesado. Meu pai estava no topo, movendo os fios para derrubar impérios como o do Zeus. E no meio? Uma mulher com olhar desafiador e tattoo de pena. Guardei o celular. Não era da minha conta. Minha função era as blitz, a apreensão da moto roubada, garantir que meus homens fizessem o serviço sem abusar. O resto… o resto era com a Justiça. Com o meu pai. Mas, mesmo assim, a imagem que eu criei sem vê, não saía da minha cabeça. Morena. Tranças. Olhar que dava medo e tesãø ao mesmo tempo. — Tudo pronto, cabo! — o grito do Costa me tirou da divagação. Acenei com a cabeça. — Beleza. Vocês podem ir. Amanhã tem novo briefing às sete. Entraram nas viaturas e seguiriam pro batalhão. Fiquei sozinho no meio da avenida agora deserta, só com o lixo rodando no vento e o cheiro de fumaça de escapamento. Respirei fundo, puxando o ar noturno do Rio, que sempre carrega um pouco de sal, um pouco de perigo, um pouco de lamento. Minha vida sempre foi essa linha tênue. Entre a lei rígida do meu pai e a realidade complexa das ruas. Entre o desejo de fazer a diferença e o risco de ser engolido pelo cinza. Entre a farda que visto e o homem que sou por baixo dela. Eu não sou como o Matias, que via apenas bandidøs. Nem como meu pai, que via apenas estatísticas e processos. Eu via pessoas. Carolina, ou quem quer que ela fosse, é uma pessoa. Com uma história, motivos, medos. Isso não a isentava de nada, mas a tornava humana. E é por essa humanidade, tão fácil de esquecer no meio do caos, que eu entrei para essa vida. Virei as costas indo em direção ao meu carro, um HB20 sem identificação. A noite estava indo embora e o dia amanhecendo. Continua...
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