Capítulo 03 Carol

1672 Words
Carol Narrando Estávamos parados no meio do quintal, a arma ainda apontada, mas a dinâmica tinha mudado. Não era mais um homem inconveniente. Era um aliado poderoso falando de guerra real. E pior: com informações que eu não tinha. Baixei a arma, mas não a guardei. — Obrigada pela… preocupação — falei, com o máximo de sarcasmo que consegui. — Mas minhas decisões são minhas. Meus riscos também. Agora, pela última vez, saia da minha casa. Dante olhou para mim por um longo momento. A expressão dele era complexa: frustração, desejo, uma ponta de admiração teimosa. — Uma hora a tua coragem vai te custar caro, princesa. E quando isso acontecer, eu vou estar aqui. Mas talvez aí já seja tarde demais. Ele deu meia-volta e caminhou até o portão, que ainda estava entreaberto. Saiu sem olhar para trás. Ouvi o Audi ligar e desaparecer na noite. Fiquei parada no quintal, a Taurus pesada na minha mão, a respiração descompassada. As luzes da minha casa estavam acesas. Minha mãe devia estar acordada, esperando. Meu pai, talvez também. A noite de liberdade tinha acabado. E no seu lugar, sobraram duas ameaças: uma mensagem anônima de um estranho que sabia meu nome, e um aliado perigoso que achava que me possuía. Guardei a arma. Respirei fundo, tentando encontrar um resto daquela mulher confiante que estava na pista de dança horas atrás. Mas ela tinha ido embora. Sobrou só Carolina Batista. A filha do traficante. A herdeira do Dendê. E, pelo jeito, o alvo de alguém. Suba as escadas externas que levavam ao meu apartamento - sim, eu morava na mesma propriedade que meus pais, mas num andar superior, com entrada independente. Era meu jeito de ter privacidade sem estar longe. Antes de entrar, olhei pela janela da sala que dava para a rua. Lá embaixo, parado como um abutre esperando carniça, ainda estava o Audi preto do Dante. Os faróis estavam apagados, mas eu sabia que ele estava ali dentro, olhando pra cima. Balançei a cabeça, negando não só pra ele, mas pra toda aquela situação. Que homem doente. Acha que esperar como um cachorro faminto vai me fazer mudar de ideia? Fechei a cortina com força e comecei a tirar a roupa, deixando um rastro de tecido pelo chão da sala até o quarto. O short de couro, o top preto, tudo cheirava a fumaça de boate, perfume barato e liberdade falsa. Precisava tirar aquilo de mim. Entrei no banheiro e liguei o chuveiro, deixando a água bem quente, quase escaldante. Enquanto esperava esquentar, fiquei nua em frente ao espelho embaçado, encarando meu próprio reflexo distorcido. — O que tem na cabeça desses homens? — falei baixo, como se a Carol no espelho pudesse me responder. — Que raio de pensamento torto faz um cara achar que só porque ele quer, a mulher vai ser dele? Só porque ele é 'aliado', tem grana, é 'importante', eu tenho que cair nos braços dele? Virei de costas, desprezando a própria imagem, e entrei no box. A água quente bateu nas costas, derretendo a tensão dos músculos, mas não a da mente. — E essa pulga atrás da orelha... — murmurei, ensaboando os braços com violência. — Quem foi? Quem esbarrou em você? Quem passou por você? Fechando os olhos, tentei revisitar a noite. A blitz. O policial mais velho, cara fechada. O outro, mais novo, alto... aquele olhar. Aquele olhar que não era só profissional. Mas ele não pediu meu número. Nem chegou perto o suficiente. A boate. A multidão. O homem do mezanino? Aquele de terno que me encarou? Ele sumiu antes da gente sair. Ou o cara do bar, que tentou puxar papo quando fui buscar uma bebida? Ninguém parecia fora do normal. Ninguém parecia... perigoso. — Quem teria meu número? — A pergunta ecoou no box acústico. Meu número pessoal. Não o do "corre", que eu troco a cada três meses. O meu de verdade. Só família, amigas próximas e... aliados importantes de negócio. A lista era curta. Muito curta. Lavei o cabelo com força, como se pudesse lavar a paranoia também. Enxaguei e desliguei a água. O silêncio do apartamento era quase barulhento. Enrolei o cabelo numa toalha e sequei o corpo com outra. No armário do banheiro, peguei o óleo de coco. Passo essencial. Amo hidratar minha pele n***a, deixá-la brilhando, macia. É meu ritual de autoamor, minha pequena rebeldia contra um mundo que quer sempre nos deixar ressecadas, invisíveis. Passei devagar nas pernas, nos braços, no colo. A sensação era de cuidado, de carinho próprio. Algo que nenhum Dante da vida poderia me oferecer. Escovei os dentes com raiva, encarando meu rosto limpo no espelho agora desembaçado. Cansada, mas linda. Sempre linda. Isso os homens também odiavam - que a gente pudesse estar linda sem ser pra eles. Deixei as toalhas no cesto e saí do banheiro nua, a pele ainda úmida e perfumada. O ar condicionado gelou meu corpo, dando arrepios. Entrei no closet, abri a gaveta de baixo e peguei um baby doll de algodão branco, curtinho, simples. Vestir pijama era render-se. O baby doll era meu meio-termo entre conforto e ainda me sentir mulher, para mim mesma. Quando voltei para o quarto, a tela do celular, pousado na cabeceira, pulsava com uma luz azul fantasmagórica. — Aff... só falta ser esse tal de admirador secreto — resmunguei, evitando olhar. Mas a luz insistia. Caminhei até a cama, me sentei na beirada e peguei o aparelho. Uma ligação de número desconhecido. Não era a mesma sequência da mensagem anterior. Abri o histórico rapidamente. O número do "admirador" que mandou a mensagem... não batia. Olhei todos os números que o Dante já usou para me encher o saco - ele tinha uns três diferentes. Também não batia. Será? O coração deu um salto, mas não de esperança. De puro cansaço. Apertei o verde. — Se eu fosse você, não desligava — a voz dele entrou na minha orelha como um inseto venenoso. Era Dante. Claro que era. — Pelo amor de Deus, Dante. O que você quer? Eu preciso dormir. Tenho que estar de pé em cinco horas, o movimento não para, e ainda tenho uma reunião com os fornecedores da zona leste hoje. Não tenho tempo para suas crises de ciúme retrógradas. A voz dele ficou baixa, um sussurro carregado de uma ameaça que conhecia bem. — Se eu descobrir que você ficou com outro cara... se algum outro homem botou a mão em você... não é ciúme. É questão de respeito. E eu faço questão de matar o cara na frente de você. Para você aprender. O sangue gelou, mas a raiva que veio em seguida foi tão quente que quase me cegou. — Me poupe, Dante. Vai cuidar dos NEGÓCIOS. A sua vida e a minha vida pessoal não têm nada a ver uma com a outra, então não mistura as coisas. Você é um aliado importante do meu pai. A gente precisa conversar? Claro, por causa do corre. Mas eu não tenho NADA para conversar com você no meu número pessoal. Então, se quiser falar comigo ou com meu pai, vai ser no número que eu uso para os aliados. E não me enche mais o saco. Ligação Off Desliguei na cara dele. Sem "tchau", sem "até logo". Bloquei o número na mesma hora, com os dedos trêmulos de raiva. Joguei o celular na cama como se estivesse contaminado. Deitei, afundando a cabeça no travesseiro. A exaustão física batia, mas a mente corria a mil. Peguei o celular de novo, mas desta vez abri o grupo das minhas amigas. Tinham várias mensagens. – Chegou bem, rainha? – O grande Zeus encheu o teu saco? – Tudo tranquilo por aí? Respirei fundo e digitei. – Cheguei. Tô na minha, não na dele. Pelo jeito tá tudo quieto por aqui. Mentira. Nada estava quieto. O Dante estava lá fora, meu número vazou para algum estranho e a sensação de estar sendo observada grudou na minha pele como o óleo de coco. Precisava de ajuda. Não a dos homens do morro. Da inteligência das minhas amigas. — Meninas, vou mandar um número aqui. Vocês veem se conhecem? Pra mim, principalmente você Raíssa que tem os contatinhos com a lei. Vejam pra mim quem é esse. Copiei a sequência numérica da mensagem do "admirador" e colei no grupo. O símbolo de "digitando..." apareceu imediatamente. — Que que é isso? Que número é esse? — Nossa, miga, que clima de mistério. Tá bem? — Esse não é número de delegacia nem de fórum. Parece particular mesmo. — É. Recebi uma mensagem estranha depois que saí da Pandora. Alguém que me viu lá e sabia meu nome. Tô com a pulga atrás da orelha. O digitando voltou, mais longo dessa vez. — Deixa comigo. Tenho um amigo no setor de telecom. Não prometo nada, mas vou ver o que consigo. Você tem que tomar MUITO cuidado. Esse negócio de alguém te abordar assim... não é normal. — Raissa respondeu e eu sei que ela vai fazer o impossível. Elas não precisavam dizer. Eu sabia melhor que qualquer uma. A anormalidade era a minha vida. Só que agora, a ameaça tinha um número de telefone e um timing perfeito. Desliguei a tela do celular e o deixei na mesa de cabeceira. Apaguei a luz do quarto. Na escuridão, o eco da voz do Dante martelava: "Eu faço questão de matar o cara na frente de você." — Esse nojento acha mesmo que é a última coca-cola do deserto. E o eco da mensagem anônima sussurrava: "Até a próxima blitz, Carolina." — Bora dormir Carol... — sussurrei fechando os olhos com força, tentando encontrar o som da música da boate, a sensação da dança, o gosto da água com gás. Qualquer coisa que não fosse aquilo. Mas só consegui ouvir o silêncio pesado do morro adormecido - e o ronco distante de um motor de Audi que, mesmo depois de ir embora, ainda parecia estar parado do lado de fora, esperando. Continua...
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