Carol Narrando
A mensagem do número desconhecido ficou queimando na minha mente o caminho todo de volta. “Até a próxima blitz, Carolina.” A maneira como ele escreveu meu nome, não “Carol”, mas “Carolina”… era um toque de formalidade que soava a ameaça. Alguém que não era do morro. Alguém que pesquisou. Alguém me observando naquela blitz?
Mergulhei a moto nas vielas do Dendê, o barulho do motor ecoando entre as vielas estreitas. As luzes fracas dos barracos eram como olhos me observando. A euforia da noite tinha se transformado num frio na espinha. Eu não contei pra ninguém. Nem pras minhas amigas. Algumas coisas você carrega sozinha, principalmente quando não sabe o tamanho do problema.
Quando cheguei na minha rua, aquela sensação de aperto no peito já tinha voltado. A liberdade era uma ilusão que durava só o tempo do rolê. A realidade era aquela grade alta, os homens armados nos pontos, o silêncio pesado da madrugada na favela.
E quando já estava próxima a minha casa, vi um carro.
Um Audi preto, último modelo, parado bem na frente do portão da minha casa. Vidros escuros, faróis apagados. Meu corpo inteiro ficou em alerta. Não era um carro do morro. Era carro de asfalto, de gente com dinheiro limpo – ou sujo demais pra misturar.
Diminuí a velocidade, a mão direita escorregando para a cintura, onde a Taurus estava sempre à mão. Mas quando o vidro do motorista desceu, reconheci o perfil antes mesmo de ver o rosto.
Era Dante.
Um suspiro de alívio – seguido por uma pontada de irritação – saiu dos meus lábios. Dante “Carijó”, ex-comandante do morro do Juramento, agora um dos principais aliados do CV na Zona Norte. Homem do meu pai, mais velho, com seus quarenta e poucos anos, e com uma obsessão por mim que já durava uns cinco anos. Achava que, por ser aliado de peso e ter grana, tinha direito a alguma coisa.
Parei a moto a uns metros do carro dele, mantendo a distância. Ele já estava descendo, todo arrumadinho num jeans claro e uma camisa social branca que brilhava no escuro. Sorriso confiante, aquele olhar que me devorava desde os pés até o top.
— Carol. Tarde da noite, ou já é madrugada? — a voz dele era suave, melosa, mas tinha um fio de posse que me dava arrepio.
Desci da moto, tentei passar direto.
— Dante. Tá perdido? O Juramento é do outro lado. — Falei com deboche e ele deu um passo, bloqueando meu caminho sutilmente.
— Vim conversar com seu pai. Assunto de negócio. Mas vi que a princesa não estava no castelo.
Encarei ele.
— E daí?
— Daí que fiquei curioso. Uma mulher sozinha, na madrugada do Rio… É perigoso. — Ele disse, e o olhar dele desceu pelo meu corpo, parando no short de couro. — Principalmente vestida assim.
A raiva começou a ferver.
— Cuida da tua vida, Dante. Eu me viro.
— Sei que se vira. — Ele se aproximou mais, o cheiro do perfume dele invadindo meu espaço. Era um cheiro caro, mas que em mim só causava enjoo. — Mas uma mulher como você não deveria precisar se virar sozinha. Deveria ter alguém cuidando. Alguém do seu nível.
Lá vamos nós. O discurso dele era sempre o mesmo. Que eu era uma rainha que precisava de um rei ao lado. Que ele era o único homem forte o bastante pra me “proteger” e ainda assim me “respeitar”. Tudo besteira. Tudo pra ele botar a mão no que era do meu pai.
— Meu nível é cuidar de mim mesma — falei, tentando passar por ele de novo.
Ele não saiu do lugar.
— Carol, para de ser teimosa. Você sabe que desde que te vi, eu…
— Dante — cortei, a voz firme e gelada. — Não começa. Tô cansada, tá tarde, e você não é meu tipo. Nunca foi, nunca vai ser.
O sorriso dele congelou por uma fração de segundo. A máscada de homem civilizado escorregou, e eu vi um brilho perigoso nos olhos dele. Era o mesmo brilho que ele tinha quando negociava uma área de tráfico com uma facção rival.
— Teu tipo é o quê, então? — a voz dele perdeu a melosidade. — Moleque do morro? Playboy do asfalto? Qual dos dois te levou pra curtir hoje?
O sangue bateu mais forte nas minhas têmporas. Ele tava me vigiando? Mandou alguém me seguir?
— Isso não é da tua conta — rosnei, a mão fechando em volta da chave da moto, que era pontiaguda o bastante pra servir de arma. — Agora sai da minha frente. Vou entrar.
Fiz o movimento de ir em direção ao portão eletrônico, mas ele me segurou pelo braço. A pegada foi firme, forte. Não era um toque de pretendente. Era de homem acostumado a mandar.
— Espera. Só quero conversar.
Sacudi o braço, soltando-me.
— Tira a mão de mim, Dante. Agora.
Ele soltou, mas o olhar continuou preso em mim, desafiador.
— Você não acha que tá grandinha pra ficar com essas aventuras fora do morro? Brincando de fugir, se arriscando por aí… Uma dia a sorte acaba, Carolina.
O uso do meu nome completo de novo, logo depois da mensagem anônima, me deu um calafrio. Mas eu não ia mostrar fraqueza. Não pra ele.
Virei-me de costas, digitei o código no painel. O portão começou a se abrir com um rangido baixo.
— Acho que você tá novo demais pra ser meu pai, Dante — falei, sem nem olhar pra trás. — Boa noite.
Entrei, o coração batendo forte, mas com a cabeça erguida. O portão começou a se fechar atrás de mim. A vitória parecia certa. Eu tinha dado o fora, mantido a postura, e agora era só ir pro meu quarto e tentar esquecer a noite estranha.
Mas então ouvi o rangido metálico.
Virei no mesmo instante. Dante não tinha entrado no carro. Ele tinha metido a mão entre as grades do portão no último segundo, segurando a folha de metal pesada. Os motores elétricos gemeram, travados pela resistência.
— Dante, seu maluco! Vai tirar a mão! Vai se machucar!
Ele não tirou. Com um esforço visível, forçou o portão a abrir mais alguns centímetros, o suficiente para o corpo dele passar. Entrou no meu quintal como se a propriedade fosse dele.
A raiva explodiu. Puxei a Taurus do coldre em um movimento fluido, mirando pra ele.
— SAI DA MINHA PROPRIEDADE, AGORA!
Ele parou, olhou pra arma, e depois pra meu rosto. E sorriu. Um sorriso sem graça, frio.
— Vai atirar em mim, Carol? No aliado mais valioso do seu pai? No homem que move metade da coca da Zona Norte? — Ele deu um passo à frente, ignorando a arma. — Atira então. Vamos ver o que o Zeus vai achar da filha dele matando um parceiro de negócios porque ele se preocupou com a segurança dela.
Meus dedos tremeram no gatilho. Ele tinha razão. Atirar nele seria uma catástrofe política. Uma guerra interna. Mas deixá-lo invadir minha casa? Nunca.
— O último aviso, Dante. Volta pro teu carro.
Ele parou a poucos metros de mim. O sorriso tinha sumido. Agora a expressão dele era séria, intensa.
— Eu só quero falar. Cinco minutos. Aqui mesmo do lado de fora, se você quiser. Com a arma na minha cara, tudo bem.
— Fala.
— Você sabe que o movimento tá estranho. Tem uma operação grande sendo montada. A inteligência do CV tá captando ruído. Juiz, promotor, polícia… tudo se mexendo. — Ele fez uma pausa, estudando minha reação. — Seu pai é um dos alvos. Talvez o principal.
Eu não me movi. Já sabia disso. O coroa mesmo tinha insinuado.
— E daí?
— Daí que seu pai é teimoso. Acha que o Dendê é uma fortaleza. Mas você é esperta, Carol. Sabe que nenhum morro é intocável. — Ele deu mais um passo, e agora eu sentia o cheio dele de novo. — Eu posso te tirar da linha de fogo. Tenho propriedades fora da cidade, seguras, discretas. Você não precisaria ficar aqui, vulnerável.
A proposta caiu como uma bomba. Ele não estava só flertando. Estava oferecendo um exílio. Uma gaiola diferente.
— Me tirar daqui? — perguntei, com a voz embargada pelo absurdo. — Eu sou o braço direito do meu pai. Eu comando metade desse morro! Não sou uma dama em perigo pra ser escondida, Dante.
— É exatamente por comandar que você é alvo! — a voz dele subiu um tom, a fachada de tranquilidade rachando. — Eles vão atacar você pra chegar nele. Ou pior, vão te usar pra chegar nele. Você tá brincando com fogo, saindo sozinha, se expondo. Aquele rolê de hoje… foi burrice.
Como ele sabia dos detalhes? Eu estava sendo seguida mesmo. A raiva deu lugar a um medo gelado.
— Você mandou alguém me seguir? — a pergunta saiu em um sussurro furioso.
Ele não negou.
— É minha obrigação proteger o que é importante para a organização. E você é importante, Carol. Mais do que você imagina. — Ele fala me fazendo travar o maxilar encarando ele.
Continua...