Tania Narrando
Não dava pra ficar em casa, não. Sabendo que nossa amiga precisava da gente, eu não ia conseguir nem dormir, nem comer, nem pensar em outra coisa. Mandei mensagem pras meninas na hora. Sem falar nada pra Carol, só subimos o Dendê daquele jeito de sempre, na maciota.
Quando ela mandou aquela mensagem explodindo tudo sobre o Lopes ser o filho do desgraçado que quer a cabeça do tio Zeus, e ainda falando que o tio Zeus tinha chamado ela na boca... putä que pariu. Já fiquei aflita na hora. Fiz o que tinha que fazer: avisei pros meus coroas, marquei com a Júlia e a Raíssa, e subimos as três juntas.
Quem sou eu? Meu nome é Tânia. 27 anos, herdeira do Morro do Jacarezinho. Morena, cabelos cacheados — nada muito grande, pouca coisa abaixo do ombro, acima da cintura. Diferente da Carol, não curto trança. Gosto do meu cabelo solto, com volume, do jeito que Deus me deu. Corpo malhado, cintura fina, pernas torneadas de tanto dançar e viver. Tenho umas tatuagens aqui e ali — cada uma com sua história, cada uma com seu significado.
Sou igual a Carol em muitos aspectos: aventureira, sem freio na língua, leal até a morte. Mas também tenho meu jeito, minha personalidade. E, assim como ela, sou herdeira do crime. Filha de traficante, criada no movimento. A diferença é que eu também sou designer de moda, vivo entre o asfalto e o morro sem pedir licença pra ninguém.
Conheço muito bem o tio Zeus. Porque conheço meu pai e conheço o tio Carrasco que é o pai da Júlia. E sabemos muito bem como funciona a lei do morro. Sabemos muito bem como funciona o trâmite entre a lei e o crime. Sabemos com quem podemos e com quem NÃO podemos nos envolver.
Sabemos muito bem que com os arrombados dos botas do Rio de Janeiro, principalmente os do BOPE, é caixão. Porque pra eles não importa se você é do movimento ou não. Não importa se é de alguma gestão ou não. E até pra gente, que somos herdeiras, donas, a lei do Comando é uma só. A lei da favela é uma só. A lei das ruas é uma só.
Se envolver com alguém assim é traição. É trairagem. Por mais que tenha sido só uma transa casual, houve um envolvimento. E a gente já tava imaginando o que poderia acontecer.
Subimos o morro do Dendê cumprimentando os crias da contenção. Todo mundo conhecido, todo mundo respeita a gente. Quando chegamos perto da casa da Carol, mandei mensagem pra tia Janete, avisando que a gente tava ali. Ela respondeu na hora, falando que os meninos tinham avisado que a Carol tinha saído e que se a gente quisesse esperar, era só entrar, porque a chave tava com a Raíssa.
Ela sempre tem. Advogada organizada é outra coisa.
Então foi isso. Entramos, sentamos no sofá da sala. O tempo parecia não passar. A gente se olhava, trocava olhares, mas ninguém falava nada. Cada uma nos nossos pensamentos, imaginando o tamanho da merda que a Carol tinha se metido.
Não demorou muito. Assim que a porta abriu, ela passou por ela com tudo. Suada, os olhos vermelhos. Dava pra ver que não era choro. Ela não tava inchada, não tava com cara de quem tinha chorado. Mas tinha MUITA raiva. Muita fúria. Muita introspecção por trás daquele olhar, daquele semblante.
Ela arrancou a pochete — que mais parecia um coldre — e se jogou no sofá entre a gente.
Ficamos ali, por alguns segundos, só existindo. Até o silêncio que pesava, ser quebrado com nós pedindo para a Carol contar tudo.
E ela contou. Tudo. Do começo ao fim. A blitz, o encontro, a viatura, a casa dele, o banho, a cama, o telefone tocando, a Adriana, a descoberta, o encontro de novo, as sirenes. Ela contou cada detalhe com uma frieza que doía de ver. Mas o que mais marcou foi o jeito dela falar. A expressão no rosto. Aquele ódio misturado com sei lá o quê.
Principalmente quando ela chegou na parte que o Lopes falou que não pediu pra se apaixonar.
Ela dava umas gargalhadas irônicas, amargas, que cortavam a gente por dentro.
Júlia até tentou, mas como a própria Carol falou, ela não sabe no que acreditar, é que a próxima vez que o Lopes visse ela, seria pela mira da Taurus dela.
A gente se entreolhou, sem saber o que dizer. Porque por mais absurdo que parecesse, por mais que a situação fosse a mais errada possível... será que era mentira?
Júlia foi a primeira a falar, depois de um longo silêncio.
— Carol, a gente sabe que isso é uma merdä. A gente sabe que se envolver com bota já é furada, imagina com o filho do juiz que quer a cabeça do tio Zeus. Mas... e se ele tiver falando a verdade?
Carol deu uma gargalhada seca.
— Verdade? Que verdade, Júlia? Ele é um Mendonça. O sangue que corre na veia dele é o mesmo que quer ver meu pai morto.
— Mas ele não escolheu o sangue que corre na veia dele — eu falei, baixinho. — Assim como a gente não escolheu ser filha de quem é.
Ela me olhou. Os olhos vermelhos, cansados, mas ainda com aquela fúria por trás.
— Tânia, pelo amor de Deus. Você tá defendendo ele agora?
— Não tô defendendo ninguém. Tô só falando que a gente sabe como é. A gente vive entre dois mundos, Carol. A gente sabe que o coração não obedece ordem.
Raíssa, que tinha ficado quieta até então, se inclinou pra frente.
— Ela tem razão, amiga. Não tô dizendo pra você confiar nele. Não tô dizendo pra você esquecer quem ele é. Mas ouvir não custa nada. Pelo menos pra saber se tem mais alguma coisa por trás disso tudo.
Carol balançou a cabeça, negando.
— Eu ouvi, Raíssa. Eu ouvi ele falar. E por um segundo, por um milésimo de segundo, eu esqueci. Esqueci que eu sou a herdeira do Dendê. Esqueci que ele é filho do Mendonça. Só existiu eu e ele e o que a gente sentiu. Mas aí a sirene chegou. E a ficha caiu.
— E se não foi ele? — Júlia perguntou. — E se alguém chamou aquelas viaturas de propósito? Pra separar vocês? Pra føder com tudo?
Carol me olhou. O olho dela brilhou por um segundo, mas passou rápido.
— Não sei. Só sei que não dá mais. Não dá pra confiar. Não dá pra arriscar. Meu pai já tá putø da vida. O morro todo já deve saber. Se eu chegar perto dele de novo, vou estar assinando meu atestado de óbito.
Fiquei em silêncio, processando. Júlia também. Raíssa coçou o queixo, pensativa.
— Olha, Carol. Eu e a Júlia somos herdeiras igual você. A gente sabe o peso que isso tem. A gente sabe que se envolver com o filho do juiz é loucura. Mas também sabe como é difícil encontrar alguém que mexe com a gente desse jeito. Se ele tiver falando a verdade... será que não vale pelo menos ouvir? — Soltei e Carol deu uma gargalhada. Dessa vez mais alta, mais irônica.
— Ouvir? Você quer que eu ouça o quê, Tânia? Que ele se desculpe? Que ele diga que sente muito por ter nascido na família errada? Não adianta, amiga. Não adianta.
— E se ele realmente não souber de nada? E se ele for tão vítima disso quanto você?
Ela me encarou. Os olhos cansados, mas atentos.
— Não sei mais no que acreditar, meninas. Só sei que não tô afim de arriscar. E como eu falei que da próxima vez que ver ele, vai ser pela mira da minha Taurus. — Ela deu o papo ficando de pé olhando para nós três.
A frase caiu no meio da sala como uma bomba.
Ficamos em silêncio. O peso daquela palavra — Taurus — ecoando no ar.
Eu e Júlia trocamos olhares. A gente sabia que Carol era capaz. A gente sabia que ela não tinha medo de puxar gatilho. Mas será que ela conseguiria? Será que ela conseguiria olhar nos olhos dele e apertar?
Raíssa suspirou fundo.
— Então é isso?
Carol me olhou. Os olhos dela, pela primeira vez desde que a conversa começou, pareceram decididos.
— É isso.
Continua...