Capítulo 44 Barroso

1223 Words
Barroso Narrando Até que eu tô gostando dessa caçada. Enquanto era só eu dando aqueles rasantes próximo ao morro, tava meio sem graça. Perseguir a Carol por todo o Rio de Janeiro tinha virado o meu hobby, tinha virado o meu rolê favorito. Ver e perceber que era ela que tava com o Lopes dentro daquela viatura me deixou ainda mais empolgado pra fazer certas rondas e pra jogar com o desgraçado do Zeus quando eu precisasse. Assim que saí com a Adriana do batalhão, conversei um pouco com ela. Nada demais, porque eu não queria assustar ela, mas trocamos os nossos números de telefone pra eu entrar em contato depois. Se tem uma coisa que o Lopes tem é bom gosto. De mulher, o cara entende. Não sei se vou pegar a Carol por enquanto, mas a Adriana não vou deixar escapar. Foi quando um informante meu me falou que viu o Lopes junto com a Carol. Passei um rádio pro batalhão dizendo que tinha algo suspeito e que a envolvida era a filha do Zeus. Não deu dois segundos que eu desliguei o rádio, choveu de viatura onde eles estavam. Pelo jeito não deu muita coisa, porque a filha da p**a não é só gostosa — ela é esperta. Acionei a tropa porque eu queria acabar com a melação dele. Não era pra pegar ela, porque eu quero dar uns apertos nela fora da cadeia. Tava torcendo pra chegar quinta-feira. E chegou. Eu sabia que quem ia ficar na frente da equipe seria o Lopes, porque isso tava no pedido do juiz. Sei da rixa que o juiz tem com o Zeus. Tava torcendo pra alguém descobrir esse rolo deles, mas pelo jeito vai ter que acabar de outro jeito. Conversei com a Adriana nos dois últimos dias. Fiquei de encontrar com ela hoje, logo depois que sair do meu plantão. Cheguei até empolgado no meu plantão de hoje, vendo que íamos subir o Dendê. Saíram algumas viaturas, algumas motos e quatro caveirões em direção ao Dendê. Quando chegamos, não deu tempo nem de colocar o bico do caveirão pra dentro, já começou os fogos. Depois, o tiroteio. Dentro do caveirão, o som dos tiros ecoava nas laterais de ferro. PÓ! PÓ! PÓ! Os vidros à prova de bala tremiam com o impacto. Eu olhava pelas frestas, vendo os traçantes riscarem o céu do morro. Bonito. Perigoso. Excitante. O Lopes tava ali, na frente, com aquela cara de enterro. Ele não disfarçava. Desde que entramos no caveirão, ele tava estranho. Quieto. Olhando pro nada. Eu sabia o que era. Tava pensando nela. Percebi que o semblante dele mudou, logo depois que falei que era para deixar a morena comigo. Ele me olhou de lado. A mandíbula travada. Não falou nada. Só aquele olhar de ódio contido. Ele tá fervendo por dentro. Tá se corroendo. Perfeito. Provoquei mesmo, um tanto se ele queria falar alguma coisa. Eu sabia que ele tava se contorcendo. E ele disfarçou e disfarçou bem, é assim que eu gosto. Me mandou a tropa descer seguir, para acabar logo com isso. Acabar com isso. Ele não tem ideia do que eu tenho planejado. O comandante passou as coordenadas. O Lopes era o chefe da operação. Eu era só mais um. Mas eu sabia que meu momento ia chegar. O caveirão começou a subir. Os tiros aumentaram. Os homens atiravam pelas frestas. Eu atirava também, mas meu olho tava em outro lugar. Procurando. Esperando. Foi quando eu vi. Ela tava numa laje. Lá no alto. Cabelos cacheados, Taurus na mão, a expressão de ódio no rosto. Linda. Perfeita. Em um movimento que ela fez, deu para ver que ela tava com fuzil pendurado na lateral do corpo. Ela mirou. Direto no caveirão. Direto nele. Olhei pro Lopes. Ele tava vidrado nela. Paralisado. Apaixonado. — Vai atrás do Zeus — falei, a voz firme. — Eu fico de olho na Carol. Ele me encarou. — Quem dá as ordens aqui sou eu. — Lopes fala tirando o olhar da laje, e olhando para mim. — Quando se relaciona com a mina que ainda dá as ordens sou eu. — Provoquei e ele apertou os olhos. — Do que você tá falando isso? — ele meteu a pergunta tentando disfarçar. — Você sabe muito bem do que eu tô falando. — Retruquei e ele sabe exatamente do que eu estou falando. — Você não tá falando nada com nada. É melhor seguir quem manda. Aqui quem manda sou eu, pørra. Eu tô à frente dessa merdä. — Ele falou ajeitando o fuzil na altura do ombro. Sorri. Virei as costas e mirei na direção da laje. Você pode dar as ordens, Lopes. Mas ela é minha. Apertei o gatilho. Rajada. Os tiros subindo. Parte da laje desmoronou. Ouvi o grito dela lá de cima. — FILHO DA PUTÄ DO CARALHØ! Ri. Alto. Gostoso. — Agora vai — falei, virando pro Lopes. — Porque ela tá pensando que foi você que atirou. Os olhos dele se arregalaram. A fúria. A impotência. A raiva. Perfeito. Os tiros começaram a vir na minha direção. Os cria do morro tinham me localizado. Pulei pra trás do caveirão, usando de escudo. As balas zuniam. Eu ria. Saí de trás, atirando de volta. Subi correndo em direção a uma das lajes mais baixas, trocando tiro com os caras do morro. A adrenalina subia. O sangue fervia. Era isso que eu queria. A guerra. A caçada. Ela. Olhei pra cima. A Carol ainda tava lá. Meio encoberta pela poeira da laje quebrada. Ela procurava. Procurava por ele. Não, princesa. Não foi ele. Foi eu. E eu tô indo te buscar. Ela tava lá. Meio encoberta pela poeira da laje quebrada. O olhar na direção que o Lopes foi, ela procurava. Procurava por ele. Não, princesa. Não foi ele. Fui eu. E eu tô indo te buscar. Desviei rápido, passando por trás do caveirão. — Cobertura! — gritei pros homens. — Me dá cobertura! Os caras atiraram sem parar, abrindo caminho. Saí correndo, usando os becos, as paredes, os carros capotados. Subi correndo em direção à laje onde ela tava. A adrenalina era tanta que eu nem sentia o peso do colete, do fuzil, de nada. Comecei a escalar. As mãos agarrando nas bordas, os pés encontrando apoio onde dava. Mais um pouco. Mais um pouco. Ela tava ali. Perto. Eu quase podia sentir o cheiro dela. Dei um pulo pra subir no telhado vizinho. Quando levantei a cabeça, a ponta do fuzil bateu no meu crânio. Ela tava na minha frente. O cano da arma apontado direto pra minha testa. Os olhos dela queimando de ódio. — Pra onde você vai, filho da püta do caralhø — ela cuspiu. Pulei pra trás no mesmo instante. Corri. Mas não deu tempo. O tiro acertou minha perna. — AAAAARGH! — gritei, caindo no chão. — SOLDADO FERIDO! SOLDADO FERIDO! A dor era infernal. Queimava. Rasgava. Eu tentava me arrastar, tentava achar cobertura. Ela tava vindo. Eu via os pés dela se aproximando. Foi quando os tiros do caveirão começaram a vir na direção dela. Rajadas. Muitas. Ela pulou pra trás, se jogando da laje, sumindo no beco. Fiquei caído, a perna sangrando, a respiração ofegante. — Socorro... — murmurei, enquanto a visão começava a escurecer. — Alguém... me ajuda... Continua...
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