Capítulo 22 Carol

1355 Words
Carol Narrando A mensagem chegou num tom que não aceitava resposta: "Vem pra casa. Agora." Era o coroa. Não precisei de mais nada. Finalizei o que tava fazendo na boca, passei as ordens pro Binho e meti o pé. Quando o velho manda chamar assim, sem chá de cu doçura, é porque o bagulho é sério. Desci a ladeira pensando em tudo que podia ser. O mandado? O juiz? A invasão? Ou será que era mais uma sobre o Dante? Respirei fundo. Seja o que for, tô pronta. Cheguei em casa e já no portão ouvi barulho. Não de briga, de... outras coisas. Entrei e foi quando vi a cena: o coroa subindo as escadas com a minha mãe no colo. Ela de vestido curto, os braços enlaçados no pescoço dele, os dois naquele clima que eu não precisava ver. Passei a mão no rosto, incrédula. — Eu não tô vendo isso — murmurei pra mim mesma. — Trinta anos de casados e ainda tão nessa. Eles subiram, a porta do quarto fechou, e eu fiquei ali no meio da sala, sozinha, processando o que tinha acabado de testemunhar. Respirei fundo. Já que a reunião urgente do coroa ia ter que esperar, eu ia dar um jeito no meu tempo. Peguei uma cerveja na geladeira, abri e tomei um gole longo. Depois fui no congelador, peguei uma lasanha, enfiei no forno. Se eles vão demorar, pelo menos eu como. Peguei o celular, entrei no grupo das meninas. — Vou me arrumar. A noite é nossa. — Escrevi e enviei no grupo. — Vai pra onde? — Raíssa digitou enviando rápido, ela escreve rápido enquanto raciocina. — Amiga, minha vida é uma viagem. Você sabe que eu sou a filha do traficante que ama uma aventura fora do morro. — Escrevi rindo e enviei já vendo a Tânia digitar. — Verdade! Conta depois! — Tânia escreveu digitando vários kkk. Ri sozinha, terminei a cerveja e deixei a latinha na cômoda. Subi pro meu apê, entrei no banheiro e liguei o chuveiro. A água quente lavou o cansaço, a preocupação, tudo. Passei shampoo nas tranças com calma, deixando a espuma escorrer, sentindo a tensão ir embora pelo ralo. Saí do banho, me enxuguei. No closet, escolhi um vestidinho de courino, daqueles bem fininhos, que abraçava o corpo mas ainda deixava espaço pra imaginação. Preto, básico, mas matador. Coloquei um salto alto, daqueles que fazem qualquer mulher se sentir poderosa. Passei uma maquiagem leve, só um delineado, um gloss e um blush suave. Ajeitei as tranças, joguei um perfume doce na nuca e nos pulsos. Olhei no espelho. A mulher que me encarava não era a herdeira do Dendê. Era a Carol que queria esquecer o mundo por algumas horas. Desci. Meus pais já estavam na sala. Minha mãe sentada no sofá, o cabelo ainda meio molhado, o olhar satisfeito. O coroa na poltrona, com um copo de uísque na mão e um sorriso de canto. — Ué, acabou a reunião? — perguntei, irônica. Minha mãe me olhou de cima a baixo. — Vai sair? — Vou. — Com esse vestido? — Com esse vestido sim, mãe. Ela levantou, veio até mim, ajeitou uma das minhas tranças. — Tá linda, filha. Mas vai com cuidado. — Sempre vou. O coroa pigarreou. — Carol. O Babau e o Neguinho tão a postos. Se precisar, chama. — Sei me virar, pai. Ele me olhou sério. — Sei que sabe. Mas deixa eles te seguirem até a saída do morro. Depois, você some. Só não esquece que o perigo não tira folga. Respirei fundo. Não ia discutir hoje. — Tá bom. Beijei os dois e saí. A moto já tava pronta, a Fan 150 vermelha que era minha cara. Liguei, acelerei e desci a ladeira. O vento no rosto, a noite abrindo, a liberdade chamando. O Babau e o Neguinho estavam no ponto de sempre. Parei, fiz o sinal. — Só até a saída, patroa? — Neguinho perguntou. — Só até a saída. Depois eu sumo. Eles riram, acenaram. Acelerei. A avenida principal tava movimentada, mas nada que me assustasse. O Rio pulsava, os carros passando, os faróis brilhando. Era isso que eu amava. A sensação de que, por algumas horas, eu não era ninguém. Só mais uma na multidão. Foi quando vi os giros. Blitz. De novo. Respirei fundo. Não era a primeira vez, nem a segunda. Já tinha passado por isso antes. Mas dessa vez, quando parei a moto e desci, meu coração acelerou por um motivo diferente. Ele tava lá. O policial alto. O n***o de quase dois metros. A farda justa, o olhar intenso. Ele me reconheceu na hora, eu vi nos olhos dele. A surpresa, o choque, e alguma coisa mais. Dessa vez, não teve policial velho no caminho. Ele tava sozinho no posto de abordagem, os outros dois agentes do outro lado da via. Caminhei até ele devagar, sentindo o salto no asfalto, o vestido colado no corpo. Ele não desviou o olhar. — Novamente? — a voz dele saiu grave, controlada. — O destino adora me colocar no seu caminho, doutor — respondi, com um sorriso de lado. Ele engoliu seco. — Documentos. Entreguei. Ele olhou, olhou pra mim, olhou de novo. Demorou mais do que precisava. — Tá tudo certo — ele disse, mas não devolveu os documentos. Ficou ali, me olhando. — Então posso ir? Ele pareceu acordar. — Pode. Mas… cuidado. A noite tá perigosa. Apoiei a mão no guidão da moto, mas não subi. Inclinei a cabeça, analisando ele de cima a baixo devagar, proposital. — E se eu não quiser ir? Ele prendeu a respiração. Eu vi. O maxilar travou, os olhos escuros se aprofundaram. — Como assim? Dei um passo à frente, diminuindo a distância entre a gente. O vestido colou na coxa, o salto me deixando mais perto do rosto dele. — Tô falando que talvez eu não queira ir embora tão rápido. Que talvez eu queira ficar mais um pouco. Conversar. Testar seus reflexos de novo. Ele olhou pros lados rápido, certificando que os outros policiais estavam ocupados. Quando voltou pra mim, o olhar tinha mudado. Tava mais quente. Mais perigoso. — Tu não cansa de brincar com fogo, morena? — Fogo é o que me aquece, Lopes. — Passei a unha de leve no peito dele, por cima da farda. — E você já provou que sabe como lidar com ele. Ele segurou meu pulso, devagar, sem força. — Aqui não. Não agora. — Então onde? Quando? Ele me olhou por um longo segundo. O rádio chiou no ombro dele. Alguém chamando. Ele não respondeu. — Me dá seu telefone. Sorri, cheia de vitória. — Troca pelo seu. Ele pegou o celular no bolso, me entregou. Peguei, digitei meu número, salvei como "Morena da Blitz". Passei de volta. Ele olhou pro nome, e um sorriso pequeno, quase escondido, apareceu no canto da boca. — Agora vai — ele disse, a voz rouca. — Antes que eu mude de ideia e te prenda de verdade. — Promessa é dívida, doutor. — Dei a volta na moto, devagar, sentindo o olhar dele em cada movimento. — Eu acho que vou correr só pra você me perseguir. — Tá brincando com fogo Carolina! — Você tem noção? — perguntei saindo de perto da moto e voltando pra perto dele. — Tenho noção do que? — Lopes perguntou olhando pras pontas do meu dedo. — O quanto tu é gostosinho, pra caralhø! — Soltei só pra provocar, ele arqueou a sobrancelha, com meio sorriso. — E estou ligado que você vai correr. Jurando que vai fugir de mim? — Ele perguntou e eu dei um sorrisinho travesso, mordendo o lábio. — Vou só testar os seus reflexos , ver se ainda tão rápidos. — Falei descendo o dedo até a virilha dele. Ele chegou mais perto, olhando nos meus olhos, depois desceu o olhar devagar. — E agora? Tá satisfeita com o teste? — Ele falou e eu inclinei a cabeça, encarando ele sem medo. — Ainda tô analisando… Mas, na moral? Estou gostando do que estou vendo. Continua...
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