Capítulo 30 Carol

939 Words
Carol Narrando Chamei o carro de aplicativo assim que virei a esquina da casa dele. Não queria ele me vendo esperando, não queria dar chance pra ele correr atrás. O motorista demorou três minutos que pareceram três horas. Entrei, dei o endereço da blitz, fiquei em silêncio o caminho inteiro. Quando cheguei, minha moto ainda tava lá. Sozinha. A imagem do Lopes do carro do Lopes e dele na hora da blitz, veio na minha mente, como se ele estivesse ali. Paguei o motorista, montei e arranquei feito uma louca em direção ao Dendê. O vento batia na cara, bagunçava as tranças, mas não levava nada do que tava na minha cabeça. O coração martelava tão forte que eu jurava que dava pra ouvir por cima do barulho do motor. Rafael Lopes Mendonça. Filho do juiz Otávio Mendonça. O homem que quer a cabeça do meu pai desde que eu me entendo por gente. E eu… eu deitei com ele. Sentei nele. Gemi o nome dele. Deixei ele me comer na viatura, no sofá, na mesa, no banheiro, na cama. Dei pra ele como se não houvesse amanhã. E não havia. Porque amanhã, quando meu pai descobrir, eu posso estar morta. Acelerei mais. A moto cantou no asfalto, costurando entre os poucos carros da madrugada. Eu precisava chegar em casa. Precisava me trancar. Precisava pensar. Será que ele sabe? A pergunta martelou no meu cérebro igual bala perdida. Será que ele sabe quem eu sou? Será que ele sabe que eu sou filha do Zeus? Por isso ele topou ficar comigo? Por isso aquela entrega toda? Ele tava só me usando? Tava só me provocando? Tava só esperando o momento certo pra usar isso contra mim? Contra o meu pai? Bufei de raiva, sentindo a raiva aumentar as lágrimas ameaçarem. Mas não chorei. Não ia dar esse gosto pra ninguém, nem pra mim mesma. Passei em alta velocidade pela barreira do Dendê. Os cria assustaram, correram pro lado. — PATROA! — ouvi o Neguinho gritar, mas não parei. O rádio chiou, alguém chamando. O telefone vibrou no bolso. As meninas, provavelmente. Não atendi. Não agora. Entrei no portão de casa com a moto, desci antes dela parar direito. Joguei o capacete no chão, tirei o salto com um pé só. O vestido vermelho subiu, mas não tava nem aí. Puxei o zíper sozinha, deixei cair no chão da sala. Fiquei sem nada, lembrei da calcinha que ele não encontrou porque eu não tava usando. Joguei no sofá. Me joguei atrás. As duas mãos na cabeça. Olhos fechados. Respiração ofegante. O silêncio da casa vazia pesava. Só o som do meu coração acelerado e dos meus pensamentos gritando. Carol, sua i****a. Sua vaca. Sua traidora. Como eu pude? Como eu não vi? Todas as bandeiras vermelhas estavam ali. A blitz na saída do morro. O jeito que ele me olhava. A insistência. A facilidade com que tudo aconteceu. Ele sabia. Tinha que saber. Por que um policial de família tradicional, filho de juiz, se interessaria por uma morena do morro? Por que arriscaria tudo por duas transas com uma desconhecida? A resposta era óbvia. E tava na minha cara o tempo todo. O telefone vibrou de novo. Peguei, quase joguei na parede. Mas era a Raíssa. Ligação On — QUE PØRRA É ESSA, RAÍSSA?! — Atendi no grito. — Calma, Carol, me escuta… — Raíssa tentou me acalmar. — NÃO TENHO QUE ESCUTAR NADA! Você viu? Você viu a pørra da foto? ELE É FILHO DO JUIZ, RAÍSSA! O FILHO DO HOMEM QUE QUER MEU PAI MORTO! Silêncio do outro lado. Depois, a voz dela, mais baixa. — Eu sei, amiga. Eu vi. Por isso te mandei. — Ela fala e eu tenho certeza que ela viu, Com certeza todos os detalhes, já foi ela que descobriu. — EU TAVA NO QUARTO DELE, RAÍSSA! — gritei, a voz falhando. — No QUARTO! Eu e ele, pelados! A gente começou na blitz, dentro do carro, foi pra casa dele, chuveiro, cama, tudo! E eu talvez ficasse até amanhecer o dia, só que eu me conheço, eu não ia conseguir ficar ali depois que eu descobri, na verdade, porque VOCÊ descobriu e me mandou a mensagem! — Amiga, pelo amor de Deus, respira… — Raíssa tentou do jeito calmo dela. — COMO É QUE EU RESPIRO? Eu perguntei o nome dele, ele não quis falar! Tenho certeza que ele sabe quem eu sou! Tenho certeza que ele tava ali de PROPÓSITO! Naquela blitz, na saída do morro, não é coincidência! — Carol… — NÃO JUSTIFICA, AMIGA! Por que ele não apareceu nos registros como filho do juiz? Por que ele sumiu? Por que ele voltou agora pro Rio? Raíssa suspirou. — Ele estudou fora, Carol. Se formou em São Paulo. Ficou lá dez anos. A família sempre esteve no Rio, mas ele não. Os registros dele como policial são limpos, ele só foi transferido faz seis meses. Talvez ele realmente não saiba… — TALVEZ? — gritei de novo. — Você quer que eu confie a minha vida, a vida do meu pai, num TALVEZ? Fiquei em silêncio, as duas respirando pesado. — O que você vai fazer? — Raíssa perguntou, finalmente. Passei a mão no rosto. A cabeça doía. O corpo doía. A alma doía. — Não sei — respondi, a voz cansada. — Não sei, Raíssa. Mas se meu pai descobrir… se alguém do comando descobrir que eu transei com o filho do inimigo… eu tô morta. E ele também. — A gente vai dar um jeito. Juntas. Fechei os olhos. E pela primeira vez na vida, não soube responder. Continua...
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