Carol Narrando
Quando consegui chegar perto do prédio, o coração já tava na boca. Eu sabia que ele tava ali. Sabia que, mesmo eu tendo pedido, implorado pra ele não descer, ele ia descer. Conhecia meu pai. Conhecia a teimosia dele. Conhecia aquele orgulho fodido que não deixava ele ficar parado enquanto os outros lutavam.
Os polícia gritava de tudo quanto era lado. "SOBE! SOBE! O ALVO TÁ ALI!" A voz deles ecoava no meio do tiroteio, me deixando ainda mais nervosa, ainda mais descontrolada. Subi com tudo, as pernas queimando, a respiração cortando, os tiros passando de raspão.
Quando cheguei na porta, ele já tava saindo.
— PAI, NÃO!
Meti a mão no peito dele, tentando empurrar pra dentro. Ele segurou meus braços, firme, daquele jeito que só ele sabia.
Ele tentou falar, tentando me mandar escutar. Foi quando eu gritei. "NÃO, PØRRA! VOCÊ NÃO VAI SAIR!"
ele veio com aquele mesmo papo de sempre "filha eu preciso sair."
Eu gritei dizendo que não ia deixar ele sair a, se fosse para sair ia sair os dois juntos.
Ele me olhou. Os olhos cansados, mas ainda com aquele brilho de leão. E naquele segundo, eu vi que ele entendeu. Que não adiantava discutir. Que a gente ia junto. Saímos os dois juntos.
Ombro a ombro. Fuzil em punho. O mundo pegando fogo ao redor.
Foi quando o caveirão conseguiu chegar onde queria. Os tiros aumentaram.
— CUIDADO! CUIDADO! SE PROTEGE! — Neguinho e o Babau gritavam juntos.
— CORRE! CORRE! VEM DO CÉU! — Babau meteu o berro.
A voz do Babau, sempre grossa, sempre firme, ecoou num grito diferente. Mais agudo. Mais desesperado.
Olhei pra cima.
O helicóptero.
E um barulho. Um assobio. Algo vindo.
Meu pai me empurrou com tudo pra dentro do prédio. Eu segurei o braço dele, puxando com todas as forças, tentando trazer ele junto.
Mas não deu tempo.
A pørra do negócio atingiu o prédio.
Não foi a laje de cima. Não foi a parede. Foi TUDO. O mundo desabou em cima de mim. Uma pressão enorme, um peso que eu não conseguia descrever, me jogou no chão. Minha mão ainda tava esticada, tentando alcançar ele. Mas ele foi jogado pra fora.
E o resto caiu.
Eu coloquei a mão no rosto. Protegendo. O barulho era ensurdecedor. O prédio ainda desabando. Os estilhaços voando. A poeira entrando nos pulmões.
Lá fora, os tiros continuavam. O helicóptero. Os gritos. Eu sabia que meu pai tava caído. Machucado. E eles iam levar ele.
Tentei me mexer. Não consegui.
— SOCORRO! — gritei, a voz saindo rouca, abafada pela poeira. — TÔ VIVA! TÔ VIVA! ME AJUDA!
Nada.
— ALGUÉM! PELO AMOR DE DEUS! ME AJUDA! — Gritei usando todas as minhas forças.
Senti minhas pernas. Uma delas tava presa. Dolorida. Minha cabeça doía num lugar específico — devia ter batido em alguma pedra. Senti um enjoo subir, a vista escurecer por um segundo. Respirei fundo, tentando não vomitar.
Não posso apagar. Não posso.
Lá fora, as vozes.
— SEGURA ELE! NÃO DEIXA ESCAPAR!
— VAMO LEVAR ESSE FILHO DA PÜTA!
Barroso. Era a voz do Barroso.
E depois, a dele. Mais baixa. Mais confusa. O Lopes.
— Será que ela morreu?
Meu sangue ferveu.
— EU TÔ VIVA, SEU FILHO DA PÜTA! — gritei, mas a voz não saiu. Só um sussurro rouco.
Depois, a voz do meu pai. Fraca. Distante. Mas viva.
— A Carol... a Carol...
— CALA BOCA, VELHO! — Barroso rosnou com aquela voz de arrombado dele.
Ouvi o barulho de gente se movendo. De gente levando ele.
— NÃO! — tentei gritar. — NÃO TIRA ELE! DEIXA ELE!
Nada.
O rádio chiou. A voz do Neguinho.
— Joga granada! Derruba o caveirão! Pelo menos se eles tombarem aqui dentro, a gente pega o Zeus!
Não, Neguinho. Não.
Tentei me mexer de novo. Nada. A perna presa. O corpo pesado.
Carol, saia daqui. Saia. Levanta.
— EU TÔ AQUI! — gritei, com todas as forças. — NEGUINHO! BABAU! EU TÔ VIVA! ME TIRA DAQUI!
Mas minha voz não chegava. Só a poeira. Só os tiros. Só o desespero.
Deitei a cabeça no chão. As lágrimas misturadas com sangue. A raiva queimando.
Se eles levarem meu pai, eu juro. Juro por tudo que é mais sagrado. Eu vou matar o Lopes. Vou matar a família inteira daquele desgraçado. Se um dia eu cogitei ter algo a mais com ele, não lembro mais. A única coisa que eu vou lembrar é que eu vou picar ele. Vou fazer ele pagar.
— SOCORRO... — o grito saiu fraco. Já sem força.
Os tiros ainda ecoavam. O helicóptero ainda zunia. As vozes ainda gritavam.
Mas eu não conseguia mais ouvir direito.
A vista escureceu.
E eu apaguei.
A vista escureceu, mas eu lutei. Lutei com todas as forças pra não apagar. A poeira entrava no nariz, na boca, nos olhos. O peso em cima de mim parecia aumentar a cada segundo.
Foi quando eu ouvi. A voz dele. O Babau.
— CAROL! CAROL, CÊ TÁ AÍ? RESPONDE, PØRRA!
Tentei gritar. Nada. Só um sussurro.
O rádio chiou. E a voz dela veio. A voz da minha mãe.
— Minha filha... minha filha, você tá aí? Meu amor, me responde!
— Mãe... — a voz saiu tão baixa que nem eu mesma ouvi direito. Eu não sabia onde o rádio tava. Não sabia se ela conseguia me ouvir.
— MÃE... EU TÔ AQUI... — gritei na verdade eu jurei que tinha gritado.
— CAROL! CAROLINA! Ô NËGA, FALA COMIGO! TU TÁ AÍ, PØRRA? — Babau gritou de novo, mais perto agora.
Junto com a voz dele, o barulho dos escombros sendo removidos. Tijolo sendo arrancado. Pedaço de concreto sendo jogado pra lá. Ele tava cavando. Ele tava vindo me buscar.
A voz da minha mãe no rádio ainda ecoava.
— Fica comigo, filha. Fica comigo. Ele é forte, ele dá conta. Eles não vão deixar o caveirão sair do morro. Você tem que confiar nos seus homens. Mas fica comigo, pelo amor de Deus. FICA COMIGO!
As lágrimas escorreram. Misturadas com sangue, com poeira, com desespero.
— Eu tô aqui, mãe... eu tô aqui... — falei com a voz falha, mas eu sabia que ela não tava ouvindo, porque eu não estava perto para apertar o botão do rádio.
Foi quando o barulho diferente veio. Um grito. Depois outro. E a voz do Babau no rádio.
— O QUE HOUVE?
— DERRUBAMO O CAVEIRÃO! O NEGÓCIO TOMBOU AQUI NA ENTRADA! — O cria da barreira respondeu, ofegante.
— TIRA O ZEUS DE DENTRO! E PODE FUZILAR O RESTO! — Neguinho gritou no fundo.
Meu coração disparou. Meu pai. Eles vão revidar e vão acabar atirando no meu pai.
— Ai, meu Deus do céu... meu Deus do céu... meu pai...
Por uma fração de segundo, a imagem dele veio na minha cabeça. O Lopes. O filho da putä do Lopes. Dentro daquele caveirão. Prestes a ser fuzilado.
Senti meu corpo doer inteiro. Cada osso, cada músculo, cada pedaço de mim gritava de dor.
E eu sorri.
Um sorriso torto, doído, cheio de ódio.
— Eu quero que você morra, seu filho da putä do caralhø.
Continua...