Lopes Narrando
A ordem era subir. Subir com tudo. E foi o que a gente fez.
Mas enquanto os pés batiam no chão de terra batida do Dendê, enquanto os tiros ecoavam de todos os lados, uma única imagem não saía da minha cabeça: ela. A Carol. A mulher que eu beijei no meio do fogo cruzado. A mulher que eu protegi com meu corpo. A mulher que eu não sabia se ia encontrar viva no fim disso tudo.
A invasão que era pra ser só um mandado, uma operação como tantas outras, virou uma tragédia. Virou um calamidade. Os corpos caíam. Dos dois lados. O cheiro de sangue se misturava com o de pólvora. Os gritos ecoavam pelas vielas. E no meio de tudo, eu só conseguia pensar nela.
Carol...
Foi quando um dos meus homens gritou.
— CUIDADO! CUIDADO!
Olhei pra frente. Um dos caras do batalhão tava com uma granada na mão. Uma p***a de uma granada. Num morro cheio de gente. Cheio de inocente.
— QUEM AUTORIZOU ISSO? — gritei, correndo na direção dele. — QUEM MANDOU JOGAR GRANADA?
Ele apontou pro mandado. Pendurado na frente do caveirão. Assinado. Carimbado. O nome do meu pai lá.
O juiz Otávio Mendonça autorizou aquilo.
— FILHO DA PÜTA! — rosnei.
Mas não deu tempo de fazer nada.
O cara jogou.
Vi quando o Zeus puxou a Carol pra dentro do prédio. Vi os dois desaparecendo na escuridão da entrada.
O mundo explodiu.
A onda de choque me jogou longe. Bati no chão com força, a cabeça zumbindo, os ouvidos apitando. Quando levantei, o prédio tava desabando. Tijolo por tijolo. Estrutura por estrutura. Até virar um monte de escombros.
— NÃO! — gritei, mas minha voz se perdeu no meio do caos.
Os companheiros do batalhão comemoravam. Gritavam. Davam murros no ar.
— CORRE! PEGA O ZEUS ANTES QUE OS HOMENS DELE CHEGUEM!
— DERRUBAMO O PREDINHO! AGORA VAI!
Eu não conseguia ouvir nada além do meu próprio coração. Não conseguia ver nada além daquele monte de destroços.
— Eu não acredito — sussurrei, as pernas bambas. — Eu não acredito. Será que ela morreu? Será que ela morreu?
A voz do Barroso veem do meu lado, cínica como sempre.
— A sua namoradinha... — ele jogou uma piada cheia de graça.
Não terminei de ouvir. Meu punho voou. Acertei a cara dele com tudo que eu tinha. Ele caiu no chão, sangrando.
— SEU FILHO DA PÜTA! — falei indo para cima dele com tudo.
O policial que tava dirigindo o caveirão pulou pra separar a gente.
— PAREM! A BRIGA É CONTRA OS TRAFICANTES, NÃO CONTRA A CORPORAÇÃO!
Empurrei ele. Olhei pro Barroso no chão. Depois pro prédio. Pros escombros. Pra onde ela tava.
Saí correndo.
— LOPES! LOPES, VOLTA AQUI!
Não ouvi. Só corria. Os estilhaços ainda voavam, cortando o ar. Eu desviava, levava tapa de pedaço de concreto, mas não parava.
Quando cheguei perto, ouvi.
— CAROL! CAROL, CÊ TÁ AÍ? — a voz do Zeus. Fraca. Enterrada. Mas viva.
— CAROL! RESPONDE! — outro grito. Mais longe.
— Neguinho, Babau fazem alguma coisa caralhø. — Zeus grita tentando se levantar.
Meu coração disparou.
Ela tava viva. Ela tava ali. Em algum lugar. Debaixo daquilo tudo.
Os policiais começaram a se aproximar. O helicóptero no céu atirava na direção onde os homens do Zeus tentavam se reorganizar.
— O REFORÇO DELES CHEGOU! O COMANDO TÁ NA ÁREA! — um dos soldados do Zeus grita, fazendo a gente olhar para o helicóptero no céu.
O Barroso, que tinha se levantado, com a perna mobilizada.
— RECUA! RECUA TODO MUNDO! — berrou fazendo aquele contraste com som dos tiros.
— A GENTE TEM QUE SAIR COM O ZEUS! — um dos policial do caveirão gritou de volta. — A GENTE TEM QUE SAIR COM ELE!
Mas o Barroso não ouvia. Só queria recuar.
Eu fiquei. Parado. Olhando pros escombros. Ouvindo as vozes. As buscas. Os gritos.
Ela tava ali. Em algum lugar.
E eu não podia fazer nada.
Senti uma batida nas minhas costas. Levei um susto, virei rápido.
Era o Barroso. Com a perna enfaixada, o sangue ainda escorrendo, mas de pé. E com aquele sorriso de sempre.
— Vamos lá, nós dois — ele disse, a voz rouca.
— Vamos aonde, pørra?
— Agora. Aproveitar que eles tão ocupados atirando. A gente tira o Zeus do morro. Bora, bora, bora!
Olhei pra ele. Depois pros escombros. Depois pro caveirão.
— Mas a Carol...
— FØDA-SE A CAROL! — ele gritou, cuspindo sangue. — O alvo é o Zeus. Sem ele, a operação é fracasso. Vamos!
Os tiros não paravam. Os gritos dos crias ecoavam.
— CHEFE! CHEFE! SE ABRIXA! TÔ ATIRANDO! — o tal Neguinho berrando.
Olhei na direção. O Zeus tava se arrastando, tentando entrar nos escombros. Tentando chegar perto dela.
— Vem, Lopes! — Barroso puxou meu braço.
Corremos.
As balas passavam de raspão. Zunindo. Cortando o ar. Eu sentia o vento gelado delas passando perto do rosto, do braço, da perna. Mas não parava.
Chegamos perto do Zeus. Ele tava caído, o corpo machucado, mas os olhos ainda ferozes. Barroso segurou um lado. Eu segurei o outro.
— Vamos! — gritei.
— MANDEM ELES PARAR DE ATIRAR! — o Zeus berrou, tentando se soltar. — EU NÃO TÔ AQUI COM VOCÊS! A MINHA FILHA NÃO TEM NADA A VER COM ISSO!
Barroso deu uma gargalhada.
— Filho de peixe, peixinho é, né, Lopes?
Olhei pra ele. A vontade de matar aquele desgraçado era maior que tudo. Mas não dava. Não agora.
— VOCÊS PODEM ME LEVAR PRESO! — o Zeus continuava gritando, enquanto a gente corria. — MAS VOCÊ SABE QUE A CADEIA NÃO VAI SEGURAR! O JUIZ VAI TER O QUE É DELE!
Não respondi. Só corria. As balas continuavam.
Quando chegamos perto do caveirão, um som cortou o ar. Fraco. Distante. Mas eu juro que ouvi.
— PAI... — era a voz dela.
Olhei pra trás. Só poeira. O desabamento ainda soltando fumaça. Será que foi ela? Será que eu imaginei?
Não deu tempo de pensar.
O helicóptero atirou.
— PÔ! PÔ! PÔ!
Barroso gritou. O tiro acertou a perna dele de novo. Ele caiu, batendo na lataria do caveirão.
— VAMOS! VAMOS SAIR DAQUI! VAMOS! — ele berrou, se arrastando.
Puxei o Zeus com tudo pra dentro do caveirão. Os homens atiravam de dentro, cobrindo a retirada. O Barroso conseguiu se levantar, entrou se arrastando.
A porta bateu.
— VAI! VAI! — gritei pro motorista.
O caveirão arrancou. Descendo o morro. Deixando tudo pra trás.
Os escombros. Os gritos. A voz dela.
Deixando a Carol.
Continua...