Capítulo 48 Lopes

1107 Words
Lopes Narrando A ordem era subir. Subir com tudo. E foi o que a gente fez. Mas enquanto os pés batiam no chão de terra batida do Dendê, enquanto os tiros ecoavam de todos os lados, uma única imagem não saía da minha cabeça: ela. A Carol. A mulher que eu beijei no meio do fogo cruzado. A mulher que eu protegi com meu corpo. A mulher que eu não sabia se ia encontrar viva no fim disso tudo. A invasão que era pra ser só um mandado, uma operação como tantas outras, virou uma tragédia. Virou um calamidade. Os corpos caíam. Dos dois lados. O cheiro de sangue se misturava com o de pólvora. Os gritos ecoavam pelas vielas. E no meio de tudo, eu só conseguia pensar nela. Carol... Foi quando um dos meus homens gritou. — CUIDADO! CUIDADO! Olhei pra frente. Um dos caras do batalhão tava com uma granada na mão. Uma p***a de uma granada. Num morro cheio de gente. Cheio de inocente. — QUEM AUTORIZOU ISSO? — gritei, correndo na direção dele. — QUEM MANDOU JOGAR GRANADA? Ele apontou pro mandado. Pendurado na frente do caveirão. Assinado. Carimbado. O nome do meu pai lá. O juiz Otávio Mendonça autorizou aquilo. — FILHO DA PÜTA! — rosnei. Mas não deu tempo de fazer nada. O cara jogou. Vi quando o Zeus puxou a Carol pra dentro do prédio. Vi os dois desaparecendo na escuridão da entrada. O mundo explodiu. A onda de choque me jogou longe. Bati no chão com força, a cabeça zumbindo, os ouvidos apitando. Quando levantei, o prédio tava desabando. Tijolo por tijolo. Estrutura por estrutura. Até virar um monte de escombros. — NÃO! — gritei, mas minha voz se perdeu no meio do caos. Os companheiros do batalhão comemoravam. Gritavam. Davam murros no ar. — CORRE! PEGA O ZEUS ANTES QUE OS HOMENS DELE CHEGUEM! — DERRUBAMO O PREDINHO! AGORA VAI! Eu não conseguia ouvir nada além do meu próprio coração. Não conseguia ver nada além daquele monte de destroços. — Eu não acredito — sussurrei, as pernas bambas. — Eu não acredito. Será que ela morreu? Será que ela morreu? A voz do Barroso veem do meu lado, cínica como sempre. — A sua namoradinha... — ele jogou uma piada cheia de graça. Não terminei de ouvir. Meu punho voou. Acertei a cara dele com tudo que eu tinha. Ele caiu no chão, sangrando. — SEU FILHO DA PÜTA! — falei indo para cima dele com tudo. O policial que tava dirigindo o caveirão pulou pra separar a gente. — PAREM! A BRIGA É CONTRA OS TRAFICANTES, NÃO CONTRA A CORPORAÇÃO! Empurrei ele. Olhei pro Barroso no chão. Depois pro prédio. Pros escombros. Pra onde ela tava. Saí correndo. — LOPES! LOPES, VOLTA AQUI! Não ouvi. Só corria. Os estilhaços ainda voavam, cortando o ar. Eu desviava, levava tapa de pedaço de concreto, mas não parava. Quando cheguei perto, ouvi. — CAROL! CAROL, CÊ TÁ AÍ? — a voz do Zeus. Fraca. Enterrada. Mas viva. — CAROL! RESPONDE! — outro grito. Mais longe. — Neguinho, Babau fazem alguma coisa caralhø. — Zeus grita tentando se levantar. Meu coração disparou. Ela tava viva. Ela tava ali. Em algum lugar. Debaixo daquilo tudo. Os policiais começaram a se aproximar. O helicóptero no céu atirava na direção onde os homens do Zeus tentavam se reorganizar. — O REFORÇO DELES CHEGOU! O COMANDO TÁ NA ÁREA! — um dos soldados do Zeus grita, fazendo a gente olhar para o helicóptero no céu. O Barroso, que tinha se levantado, com a perna mobilizada. — RECUA! RECUA TODO MUNDO! — berrou fazendo aquele contraste com som dos tiros. — A GENTE TEM QUE SAIR COM O ZEUS! — um dos policial do caveirão gritou de volta. — A GENTE TEM QUE SAIR COM ELE! Mas o Barroso não ouvia. Só queria recuar. Eu fiquei. Parado. Olhando pros escombros. Ouvindo as vozes. As buscas. Os gritos. Ela tava ali. Em algum lugar. E eu não podia fazer nada. Senti uma batida nas minhas costas. Levei um susto, virei rápido. Era o Barroso. Com a perna enfaixada, o sangue ainda escorrendo, mas de pé. E com aquele sorriso de sempre. — Vamos lá, nós dois — ele disse, a voz rouca. — Vamos aonde, pørra? — Agora. Aproveitar que eles tão ocupados atirando. A gente tira o Zeus do morro. Bora, bora, bora! Olhei pra ele. Depois pros escombros. Depois pro caveirão. — Mas a Carol... — FØDA-SE A CAROL! — ele gritou, cuspindo sangue. — O alvo é o Zeus. Sem ele, a operação é fracasso. Vamos! Os tiros não paravam. Os gritos dos crias ecoavam. — CHEFE! CHEFE! SE ABRIXA! TÔ ATIRANDO! — o tal Neguinho berrando. Olhei na direção. O Zeus tava se arrastando, tentando entrar nos escombros. Tentando chegar perto dela. — Vem, Lopes! — Barroso puxou meu braço. Corremos. As balas passavam de raspão. Zunindo. Cortando o ar. Eu sentia o vento gelado delas passando perto do rosto, do braço, da perna. Mas não parava. Chegamos perto do Zeus. Ele tava caído, o corpo machucado, mas os olhos ainda ferozes. Barroso segurou um lado. Eu segurei o outro. — Vamos! — gritei. — MANDEM ELES PARAR DE ATIRAR! — o Zeus berrou, tentando se soltar. — EU NÃO TÔ AQUI COM VOCÊS! A MINHA FILHA NÃO TEM NADA A VER COM ISSO! Barroso deu uma gargalhada. — Filho de peixe, peixinho é, né, Lopes? Olhei pra ele. A vontade de matar aquele desgraçado era maior que tudo. Mas não dava. Não agora. — VOCÊS PODEM ME LEVAR PRESO! — o Zeus continuava gritando, enquanto a gente corria. — MAS VOCÊ SABE QUE A CADEIA NÃO VAI SEGURAR! O JUIZ VAI TER O QUE É DELE! Não respondi. Só corria. As balas continuavam. Quando chegamos perto do caveirão, um som cortou o ar. Fraco. Distante. Mas eu juro que ouvi. — PAI... — era a voz dela. Olhei pra trás. Só poeira. O desabamento ainda soltando fumaça. Será que foi ela? Será que eu imaginei? Não deu tempo de pensar. O helicóptero atirou. — PÔ! PÔ! PÔ! Barroso gritou. O tiro acertou a perna dele de novo. Ele caiu, batendo na lataria do caveirão. — VAMOS! VAMOS SAIR DAQUI! VAMOS! — ele berrou, se arrastando. Puxei o Zeus com tudo pra dentro do caveirão. Os homens atiravam de dentro, cobrindo a retirada. O Barroso conseguiu se levantar, entrou se arrastando. A porta bateu. — VAI! VAI! — gritei pro motorista. O caveirão arrancou. Descendo o morro. Deixando tudo pra trás. Os escombros. Os gritos. A voz dela. Deixando a Carol. Continua...
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