Capítulo 37 Lope

1316 Words
Lopes Narrando Fiquei esperando ela chegar com o coração na mão e a cabeça a mil. O tempo parecia não passar. Cada minuto era uma eternidade. Eu olhava pro retrovisor, pro celular, pro nada. E quando finalmente vi a luz da moto dela se aproximando, meu corpo inteiro reagiu. Ela fez um sinal com o pisca. Entrei numa rua escura e parei. Desci do carro e senti uma coisa que nunca tinha sentido antes. Uma mistura de ansiedade, medo, t***o, sei lá. Só sei que minhas pernas estavam pesadas e meu coração batia tão forte que eu jurava que dava pra ouvir. Ela desceu da moto e ficou me esperando. De longe, dava pra ver a tensão no corpo dela. A postura ereta, a mão na cintura — perto da arma, eu percebi. Ela tava preparada pra tudo. Pra mim, pro que eu fosse dizer, pro que pudesse acontecer. Fui me aproximando devagar. Quando cheguei perto, ela travou. Me encarou com aqueles olhos queimando. E começou com sete pedras na mão. Ela meteu a pørra da pergunta de novo. "Quem é você, Rafael Lopes? Quem é você de verdade?" Estranhei. Achava que a gente já tinha passado disso. Mas respondi. Falei quem eu era, o que fazia, o que sentia. Falei que não entendia porque ela tinha saído daquele jeito, porque tinha desligado o telefone na minha cara. Ela ria. Mas não era risada de graça. Era irônica, amarga, cortante. Quanto mais ela falava, mais confuso eu ficava. Ela continuo toda irônica. "Até parece que você não sabe quem eu sou." Foi aí que falei que sabia sim. Ela era a morena mais linda que eu já vi. A mulher que mexeu comigo em duas blitz e não sai da minha cabeça. Ela balançou a cabeça, negandø. E disse Não era isso que ela tava falando. E perguntou por mais duas vezes, quem era o pai dela, Lopes? Foi quando a ficha começou a cair. Meu pai. O juiz. A invasão. O Dendê. Ela era do Dendê. Morena, linda, cheia de atitude. E eu nunca achei nada sobre ela nos registros. Nada de família, nada de histórico. Só existia quem tinha algo a esconder. Só existia quem era protegido. — Meu pai é o Grande Zeus. A frase explodiu no ar. Zeus. O traficante mais procurado do Rio. O inimigo número um do meu pai. O homem que eu, filho do juiz, deveria ajudar a prender. Puta que pariu. Fiquei ali, processando. A mente voou longe. Lembrei do meu pai falando na mesa do almoço: "Invasão no Dendê. Quinta-feira. Vamos pegar o Zeus." Lembrei da operação, dos planos, das estratégias. Eu era parte da linha de frente. Eu deveria estar lá, ajudando a tirar aquele homem do morro. O juiz, meu pai, contava comigo. A corporação inteira se movia pra isso. E eu ali, na frente da filha dele. Mas, ao mesmo tempo, meu coração disparava por outro motivo. Ela era linda. Forte. Diferente de tudo que eu já conheci. Em duas noites, entrou na minha cabeça, no meu corpo, nos meus sonhos. Pensei nela o tempo todo. Esperei ansioso por cada encontro. Senti ciúmes quando imaginei outros homens vendo o que eu via. Meu corpo reagia só de pensar nela. Meu peito apertava quando ela não respondia. E agora, descobria que ela era a herdeira do inimigo. O policial dentro de mim gritava pra eu fazer algo: me afastar, denunciar, seguir o plano. O homem dentro de mim só queria segurar ela, proteger ela, nunca mais soltar. Como pode? Como pode alguém mexer tanto assim comigo em tão pouco tempo? Como pode uma mulher que eu m*l conheço ocupar todos os meus pensamentos? — Até parece que você não sabe que meu pai é o Grande Zeus. — As falas dela fica ecoando na minha cabeça. A frase ecoou no silêncio. E antes que eu pudesse responder, no meio do silêncio, a voz carregada de sarcasmo: — Meter na sua cama era um jogo, né? Pra enfraquecer ele. Filho da p**a. A acusação doeu. Doeu mais que qualquer porrada que eu já levei na vida. Pørra, eu não sabia. Você tem que acreditar em mim. Eu juro, Carol. Eu não sabia. Como é que eu vou enfiar isso na sua cabeça, que eu até procurei você nos registros e não achei nada. Nada. Era como se você não existisse. Como eu ia saber que você era filha dele? Ela me olhou. Como se ela pudesse ouvir os meus pensamentos. E naquele olhar, eu vi raiva, dor, desconfiança. E também vi algo que ela tentava esconder. Ela gargalhou. Alta, estridente, vazia. Aquele riso que não tem graça nenhuma. — Aonde que alguém se apaixona no segundo encontro, Lopes? Você sabe muito bem que não foi nada mais que sexo. Que não tem nada mais que uma g****a gostosa pra esquecer o turbilhão do dia. A pergunta ficou no ar. E eu fiquei sem saber o que dizer, porque no fundo, no fundo, eu sabia a resposta. — Para de show, Lopes. Já deu no que tinha que dar. Eu espero que você pense duas vezes antes de entrar dentro do meu morro. — Ela falou com voz gelada, cortante. Cada palavra uma facada. — Você acha que eu teria coragem de fazer algum m*l a você? — perguntei sem acreditar que a mulher que estava na minha frente agora era a mesma Carolina da blitz. — Só não acho como tenho certeza. — Sério mesmo, Carol? A pergunta saiu antes que eu pudesse pensar. Sincera. Verdadeira. Porque por mais que tudo estivesse um caos, por mais que ela fosse filha do inimigo, a ideia de machucar ela era absurda. Impensável. Ela abriu a boca pra responder. O barulho das sirenes cortou o silêncio da manhã. Ela sorriu de lado olhando pro rumo do barulho. O sol já tinha nascido, a luz clara da manhã iluminava a rua deserta. Dava pra ver tudo. O asfalto, os muros pichados, o mato alto nos terrenos baldios. E no fim da rua, as viaturas se aproximando rápido. Muitas. Pelo menos três. Ela gargalhou. Aquele riso amargo, cheio de veneno. — Engraçado, né? Acho que essas sirenes, são todas as respostas. Era um encontro só entre nós dois. E você chamou reforços. — Carol, não fui eu! Eu juro que não chamei ninguém! Mas ela não ouviu. Ou não quis ouvir. — Boa sorte, Lopes. Espero que você esteja bem protegido quando subir o Dendê. — Ela falou jogando as tranças. Montou na moto num movimento rápido, ligou o motor, e me olhou uma última vez. O vento bagunçava as tranças, os olhos dela brilhavam na luz da manhã com uma mistura de raiva e decepção. Antes que eu pudesse falar qualquer coisa, ela arrancou. A moto cantou no asfalto e sumiu na curva, deixando só uma nuvem de poeira. Fiquei paralisado. As sirenes cada vez mais perto. A mente a mil. Ela achou que fui eu. Achou que chamei reforços, que armei uma emboscada. Depois de tudo que a gente viveu, depois das duas noites, depois do que eu acho que estou sentindo… ela achou que eu fosse capaz disso. E o pior: alguém realmente chamou. Alguém sabia que a gente estava aqui. Virei pro lado, encarei as viaturas que se aproximavam. Os faróis brilhando na luz do dia. As sirenes ensurdecedoras. A raiva subiu. Quente. Cega. Quem foi o filho da putä que fez isso? As viaturas pararam na minha frente. Policiais desceram, armas em punho. Reconheci alguns. Colegas do batalhão. — Lopes! Tudo bem? Recebemos uma denúncia que a filha do Zeus estava aqui. Denúncia. Alguém dedurou. Fechei os punhos. O maxilar travou. Olhei na direção que a moto dela tinha sumido. O sol já alto, o dia claro. Ela tava longe. E eu tava aqui, cercado de viaturas, tentando entender como tudo tinha desmoronado tão rápido. Continua...
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