Zeus Narrando
Putä que pariu, mermão. Quando os fogos estouraram no céu e a voz da Carol veio agoniada no rádio, os pressentimentos ruins já tavam batendo na porta. Mas nada, NADA, me faria ficar parado vendo meu morro, minha comunidade, ser invadida desse jeito.
A Carol não assumiu totalmente o comando por ser mulher? Nada a ver. É porque ela nunca quis ninguém junto com ela tomando ordem. Ela é f**a, faz até melhor do que eu em algumas paradas. Mas ela sempre respeitou a opinião do Neguinho e do Babau, e sempre quis o pai deles por perto — o Azulão e o Bené. Esses dois nunca deixaram de fazer o corre. Assim como eu, eles eram meus braço direito. E continuam sendo dela, principalmente na parte de mentoria. Esse bagulho é sagrado.
Foi só o tempo de colocar a peita, armar até os dentes e ir com tudo. Como eu sabia que eles tavam atrás de mim, que queriam a minha cabeça, eu precisava ficar num lugar estratégico. Pra não ser alvo fácil. Eles podiam até tentar, mas iam ter que ralar muito pra me pegar.
Ouvindo o barulho do caveirão subindo junto com os tiros, os cria e a Carol gritando no rádio. Foi quando um estrondo maior ecoou. Um dos cria falou no rádio que derrubaram a laje que a Carol tava em cima.
O coração foi na nuca. Aquela agonia do c*****o. A vontade de sair correndo, ir pra cima, só ver se ela tava bem. Mas pelo barulho, pela voz dela que ainda ecoava no rádio, acho que ela tava viva.
Ouvi a voz de um dos arrombados dos bota dizendo que era pra sair comigo arrastado, sem cabeça ou dentro do camburão preso.
Sorri. Amargo.
Vim buscar o leão, então vem.
Subi pro quarto andar do prédio. Encaixei a arma no pedestal da janela. Joguei o cinto de munição e comecei a disparar. Com ódio. Com raiva. Cada tiro era um pedaço de mim indo embora.
A voz da Carol no rádio dizendo que era pra derrubar todo mundo que tentasse entrar. Pra colocar pra descer. Os tiros foram ficando mais intensos. Cada bala que batia na parede, cada bala que eu cuspia do meu fuzil, era como se mostrasse que eu tava chegando na p***a do fim.
Foi quando o telefone vibrou no meu bolso.
Atendi. Coloquei no viva voz, deixei do lado da janela.
Ligação On
— Coroa, cê tá me ouvindo? — a voz dela veio ofegante, mas firme.
— Tô, filha.
— Por favor, não desce. Só fica aí. Eu não quero ter que enterrar meu pai.
Fechei os olhos por um segundo. A vontade de descer era grande, mas a voz dela me segurou.
— Olha aqui, minha filha. A lei da física é uma só. O pai enterrar o filho é contra as regras da natureza. Se eu tiver que descer, se eu tiver que entrar na frente da bala por você, eu vou entrar. E não tem discussão.
— NÃO DESCE DAÍ! — ela gritou, a voz ecoando no rádio. — Você não vai dar esse gostinho pra eles, não! Eu sei me virar, coroa! Eu sempre soube!
— Eu sei que você sabe, filha. Mas não me pede pra ficar parado.
— PELO AMOR DE DEUS, PAI! — a voz dela mudou. Não era mais a comandante. Era a menina. A minha filha. — Eu não tô preparada pra ver minha mãe chorar. Por favor, não se entrega. Por favor, não deixa eles te pegarem.
Respirei fundo. O coração apertado.
— Eu tô chegando no prédio — ela disse.
— Não vem pra cá.
— JÁ TÔ CHEGANDO!
Desliguei o telefone na cara dela.
Ligação Off
Olhei pra fora. Pros tiros. Pro helicóptero. Pro caveirão subindo.
Tirei a arma do pedestal. Comecei a descer.
Desculpa, filha. Mas leão não fica preso na jaula enquanto a fera ataca.
Desci as escadas com o fuzil em punho, o coração batendo na boca, os ouvidos cheios do barulho dos tiros, dos gritos, do helicóptero cortando o ar lá fora. Cada passo era um passo em direção ao fim. Eu sabia. Mas não tinha como voltar atrás.
O rádio começou a gritar.
— ELES TÃO INDO! TUDO POR UM ÂNGULO SÓ! ATIRA, CARALHØ! ATIRA, PØRRA!
A voz do Neguinho, desesperada, ecoou junto com a da Carol. As duas vozes se misturando no meio do caos.
— SEGURA A POSIÇÃO! NÃO DEIXA ELES PASSAR!
— PAI, FICA AÍ! NÃO DESCE!
— COBERTURA! PRECISO DE COBERTURA!
Os tiros aumentaram. Parecia que o mundo ia acabar. Eu continuava descendo. Um andar. Dois. Três.
— RAfinha, CUIDADO AÍ! CUIDADO! ABAIXA! POSICIONA! PROTEGE A TROPA, PØRRA! — a voz do Babau cortou o rádio, aguda, desesperada.
Eu sabia que eles tavam dando tudo. Não só por mim. Pelo morro. Pela comunidade. Pela honra. Mas eu era o alvo. A polícia entrou com um único nome na cabeça: Zeus.
Quando cheguei no térreo, a voz do Barroso ecoou no megafone, daquelas que a gente ouve até com tiro estourando.
— ZEUS! E AÍ, VAI QUERER QUE MORRA MAIS QUANTOS ATÉ VOCÊ SAIR DAÍ?
Não respondi. Só continuei.
Empurrei a porta e a fumaça tomou conta. O cheiro de pólvora, de sangue, de morte. Foi quando ela apareceu na minha frente.
A Carol.
— Você não sai — ela disse, a respiração ofegante, os olhos arregalados.
Segurei ela pelos dois braços. Firme.
— Como eu te falei, filha. Pai não nasceu pra enterrar filho. Eu já fiz o que tinha que fazer. Se eu tiver que ser preso, que seja. Se eu tiver que ser morto, que seja. Mas vou pra cima deles.
Ela me olhou. Um segundo. Depois endireitou o corpo.
— Então vamos nós dois.
Não deu tempo de discutir. Saímos juntos, fuzilando na direção deles. Os tiros ecoavam, os traçantes riscando o ar. O helicóptero em cima, atirando na direção da casa, na nossa direção.
Foi quando eu vi.
Um negãø. Farda. Fuzil. Olhando na nossa direção.
— AQUELE ARROMBADO ALI É O FILHO DO MENDONÇA?
A Carol virou. Ofegante. O olhar dela travou. Não precisou responder.
Ela sabia. Eu sabia.
Levantei o fuzil. Mirei.
Os tiros do helicóptero vieram primeiro. Atingiram minha mão.
— Pai... — Carol gritou.
O fuzil caiu. A dor queimou, mas eu não podia parar.
Os cria juntaram tudo. Começaram a fuzilar os caras que tavam atrás do caveirão.
— SÓ TEM OS DE DENTRO! SÓ TEM OS DE DENTRO! — o Babau gritou, a voz rouca.
O rádio chiou. Alguém gritando.
— ELES TÃO RECUANDO! ELES TÃO RECUANDO!
O negãø — o filho do Mendonça — entrou no caveirão gritando pelos outros. Os que tavam lá dentro começaram a atirar de novo, cobertura pra ele.
Foi quando o barulho estranho veio.
— SE PROTEGE! É UMA BOMBA! — o Babau gritou.
Puxei a Carol com tudo pra dentro do prédio. Me joguei, sentindo ela ser puxada comigo.
O mundo explodiu. E a explosão me jogou para fora do prédio.
O prédio desabou.
Continua...