Lopes Narrando
Eu sabia que essa conversa com meu pai não seria fácil. Mas ele insinuar que a Carol sabia de tudo o tempo todo… e ainda falar que eu não podia ter feito aquilo? p***a.
Mesmo a gente sabendo que era errado — eu sabendo que era errado me envolver com ela assim, sem puxar os antecedentes, mesmo estando com uma pulga atrás da orelha, achando que ela não era qualquer uma dentro do Dendê — mesmo assim, eu deixei o desejo falar mais alto.
Do mesmo jeito que aquele olhar de curiosidade dela, desde a primeira vez que a gente ficou. Era como se o meu corpo chamasse pelo dela, e o dela chamasse pelo meu. Foi impossível evitar que acabasse os dois um dentro do outro.
Só que aquele olhar dela de brincar com a cara do perigo me deixou ainda mais doido. Mais e******o. Mais cheio de t***o. Doido pra conhecer o que ela tinha pra me oferecer.
Não consigo me colocar no lugar dela. Porque eu acho que jamais seria um traficante. A cabeça de uma mulher é bem mais intensa, mas eu consigo imaginar o que se passa pela cabeça dela. Não foi ela que veio até mim — foi como se eu tivesse ido até ela. Praticamente plantado naquele lugar sem nem saber o que tava acontecendo.
E se ela realmente não sabia quem eu era? Se ela só queria uma aventura com um policial, e só não esperava que fosse eu?
Agora, com essa do meu pai dizer que ela sabia… eu preciso p***a a limpo. Antes que eu fique louco nessa merda.
Entrei no carro, já liguei, acelerei, manobrei e saí. Coloquei o celular no suporte. Liguei pro Barroso.
Não chamou nem duas vezes e ele já atendeu, daquele jeito dele, todo despojado.
Ligação On
— Fala, grande Lopes! Como é que eu posso te ajudar?
— Fala, Barroso. E aí, como é que tá a recuperação? — perguntei com os dois braços esticados no volante.
— Já tô pronto pra voltar aí. Como é que tão as coisas por aí? Tô esperando tu marcar aquela resenha.
Fiquei em silêncio por um segundo, montando a estratégia na cabeça. Como eu vou tirar alguma coisa dele sem entregar o jogo?
— Cê tá na tua casa ou no batalhão? Posso encontrar com você. Precisava trocar uma ideia contigo. Precisava tirar a limpo umas coisas. E é pra já.
— Cola aqui na minha casa. Tô em casa. Você sabe onde é? Ou quer que eu mande a localização?
— Aguenta aí 10 minutos. Tô chegando.
Desliguei.
Ligação Off
O carro cortou a noite. A cabeça a mil. Será que o Barroso sabe de alguma coisa? Será que ele tava por trás disso também?
Só tinha um jeito de descobrir.
Acelerei.
—
Cheguei no condomínio onde o Barroso mora. Prédio simples, desses de classe média que não chama atenção. Estacionei na vaga de visitante e fiquei ali por um segundo, olhando pro nada.
O portão abriu sozinho. Mensagem chegou no celular. A notificação brilhou na tela escura.
Barroso: Entra com o carro. Vaga 14.
Balancei a cabeça, negando. Preferi deixar o carro ali mesmo. Se fosse pra dar merda, pelo menos eu tinha uma rota de fuga rápida. E se fosse pra conversar, melhor não ficar acuado dentro de um estacionamento fechado.
Desci. Bati a porta. Caminhei até a entrada do prédio, já pensando no que ia falar.
Precisava conversar com alguém que soubesse. Alguém que tivesse visto tudo de perto. E por mais que o Barroso fosse um mistério, por mais que eu não soubesse de que lado ele tava, ele era a única pessoa que podia me dar respostas. Ele tava lá. Ele viu. Ele sabe.
O elevador subiu devagar. Música ambiente chata. Luz fraca.
Apertei o botão do quarto andar.
Quando a porta abriu, ele já tava no corredor, apoiado na parede, um sorriso de lado no rosto.
— E aí, Lopes. Tava demorando.
— Barroso.
Entrei no apartamento. Simples. Funcional. Uma TV grande, sofá preto, algumas plantas. Nada de mulher, nada de bagunça.
Ele fechou a porta e me encarou.
— O que tá pegando, parceiro? Fala logo.
Respirei fundo. Olhei nos olhos dele.
— Vou ser direto. Tô deixando as desavenças de lado. Preciso saber onde eu me enfiei. Quem é a Carol. Quem é o Zeus. E por que meu pai tem tanto ódio desse homem.
Barroso arqueou a sobrancelha. Depois soltou uma risada baixa.
— Não acredito que você é filho do juiz e não sabe da história.
— Tava completamente por fora. Estudei fora, voltei faz pouco. Meu pai nunca contou nada direito. E pelo jeito, o buraco é mais embaixo.
Ele passou a mão no queixo. Me estudou.
— Senta, Lopes. Essa história é longa. E depois que eu contar, você vai entender por que sua vida nunca mais vai ser a mesma.
Sentei. E ele começou.
— Olha, Lopes, vou ser sincero contigo. Eu não acredito muito no seu pai, não. Mas ele paga meu salário, e eu sou ambicioso, não bobo. Então cumpro ordem. Mas essa história... essa história é mais antiga que a gente.
Ele se recostou no sofá, os olhos fixos em mim.
— Seu pai e o Zeus se conhecem há muito tempo. Antes de você nascer. Antes de tudo. O negócio começou com uma mulher. Sua mãe.
Meu estômago embrulhou.
— Minha mãe?
— Ela e o Zeus tiveram um caso. Antes dela casar com seu pai. Seu pai nunca superou. Quando ela escolheu ele — seu pai — o ódio já tava plantado. Mas aí, anos depois, sua mãe morreu. E seu pai colocou a culpa no Zeus. Disse que o tráfico matou ela, indiretamente. Mas a real é que ele nunca perdoou o fato de que ela podia ter escolhido o outro.
Fiquei em silêncio. Processando.
— E a Carol? O que ela tem a ver com isso?
Barroso sorriu. Aquele sorriso que eu já tava começando a odiar.
— A Carol é filha do Zeus. Mas não é só isso. Ela é o orgulho dele. A herdeira. A sucessora. Seu pai quer destruir o Zeus de todas as formas. E a melhor forma é atingir quem ele ama. Primeiro, tentou matar ela no desabamento. Não conseguiu. Agora, você... você foi a isca perfeita.
Apertei o maxilar.
— Eu fui usado.
— Usado, manipulado, plantado. Mas sabe o que é mais engraçado? Você se apaixonou por ela. E ela, pelo que eu vi, também sente algo por você. Isso é a parte que seu pai não esperava.
Ele se inclinou pra frente.
— Agora, sobre a Carol... ela joga sujo, Lopes. Ela é filha do tráfico, cresceu nesse meio. Ela sabe mentir, sabe manipular, sabe usar as pessoas. Se você acha que ela é só uma morena gostosa que se apaixonou por um policial, tá enganado. Ela pode estar usando você também.
Fiquei tenso.
— Você não sabe do que ela é capaz — ele continuou. — Eu tenho interesse nela. Sempre tive. Desde antes de você chegar. E se um dia ela for minha, não vai ser por acaso.
Olhei nos olhos dele. O recado tava dado. Eu fiquei doido para pular no pescoço dele. Mas tudo o que ele sabia sobre mim e Carol eram só suposições eu não ia da munição pro inimigo.
— Abre o olho, Lopes. Com Carol, é oito ou oitenta. Ou você domina, ou ela te domina. E pelo visto, até agora, ela tá ganhando.
Levantei. A cabeça a mil.
— Obrigado pela conversa, Barroso.
— Tamo aí. Qualquer coisa, chama.
Saí. O corredor pareceu mais longo do que na entrada.
Ela joga sujo. Será?
Ou será que ele só quer plantar essa dúvida em mim?
Continua...