Barroso Narrando
Caralhø, trinta e cinco anos. Dez de corporação. Dez anos ouvindo tiro, vendo sangue, apertando mão de político e fingindo respeito por superior que não merece. Mas ninguém sabe o que realmente passa na minha cabeça. E é assim que tem que ser.
Meu nome? Isso não importa agora. O que importa é que eu tenho um plano. Um plano que vem sendo construído há cinco anos, dia após dia, noite após noite. Cinco anos tentando chegar perto o suficiente para destruir o império do Zeus. Mas não do jeito que a polícia faz, com batida e tiro e operação midiática. Não.
O jeito é mais… pessoal.
Carol.
Carolina Batista dos Santos. Filha do traficante mais fødido do Rio. Herdeira do Dendê. A mulher mais linda e mais perigosa que eu já vi na vida.
Ela não sabe, mas eu observo ela há anos. Desde antes dela assumir o comando, desde quando ela ainda era só a princesinha do morro que descia pra curtir escondida do pai. Eu vi cada evolução, cada movimento, cada homem que passou pela vida dela e não ficou.
Nenhum prestou. Nenhum foi digno.
Nem o Dante, com aquela obsessão doentia de cão raivoso. Nem os playboys que ela pegava na noite e descartava na manhã seguinte. Nenhum.
Agora aparece o Lopes. O filhinho do juiz. O soldado exemplar. O homem que ela escolheu pra dar pra dentro da viatura.
Senti um aperto no peito quando vi aquela cena. Não foi ciúme. Foi… raiva. Raiva de ver ela se entregar pra alguém que não sabe quem ela realmente é. Alguém que um dia vai ter que escolher entre o dever do pai e o desejo pela mulher.
Mas eu sei. Eu sei tudo.
E sei que o caminho pra destruir o Zeus passa por ela.
O plano é simples: me aproximar. Fazer ela confiar em mim. Fazer ela se apaixonar. E quando ela estiver completamente entregue, quando achar que encontrou o homem da vida dela… aí eu destruo tudo. O pai. O morro. O império.
E ela?
Ela fica comigo.
Porque, por mais doentio que pareça, eu quero ela. Quero aquela mulher de um jeito que não consigo explicar. Não é só t***o, embora seja também. É… possessão. Ela merece um homem que entenda quem ela é. Que veja o monstro e a princesa ao mesmo tempo. Que não tenha medo de segurar ela na cama e também não tenha medo de limpar o sangue do rosto dela depois de uma guerra.
Eu sou esse homem.
Mas pra isso, preciso eliminar os obstáculos. O Dante, com a obsessão dele, já é um problema. O Lopes, com a farda limpa e o sobrenome poderoso, é outro.
E foi por isso que hoje, quando o Lopes entrou no batalhão com a cara abobalhada de quem passou a noite transando, eu não perdi tempo. Fui direto falar com o chefe.
Bati na porta entreaberta. O Tenente Miranda ergueu os olhos, cansado.
— Barroso. O que foi?
Entrei, fechei a porta atrás de mim. Sentei na cadeira na frente da mesa dele.
— Chefe, posso falar uma coisa?
Miranda arqueou a sobrancelha, mas acenou.
— O Lopes. Esse novato. O que o senhor sabe dele?
Miranda me olhou com uma expressão indecifrável.
— Por que a pergunta?
Dei de ombros, casual.
— Só curiosidade. Ele é quieto, não se mistura. Queria saber se posso confiar.
Miranda recostou na cadeira.
— Confio nele, sim. Vem de uma família tradicional. O pai é o juiz Otávio Mendonça. Muito poder no Rio. O Lopes é diferente, escolheu vir pra rua, mas o sangue é bom. É homem de palavra.
Juiz Mendonça. O inimigo número um do Zeus. A peça mais importante no tabuleiro.
Interessante.
— Entendi. Obrigado, chefe.
— Por quê, Barroso? Tá acontecendo alguma coisa?
Levantei, abrindo um sorriso tranquilo.
— Nada não. Só conhecendo a tropa.
Saí da sala, fechando a porta com cuidado. Lá no fundo do corredor, vi o Lopes saindo da sala de investigação, a cara cansada, os olhos vidrados. Ele passou por mim sem me ver, entrou no carro e foi embora.
Fiquei observando o carro sumir na rua.
Lopes. O filho do juiz. O homem que transou com a Carol sem saber quem ela é.
Será que ele já descobriu?
Será que já ligou os pontos?
Se descobriu, é um problema. Se não descobriu, é uma oportunidade.
Entrei na minha sala. A que uso quando preciso de privacidade. Fechei a porta, sentei em frente ao computador. Meus dedos pairaram sobre o teclado.
Lopes. Rafael Lopes. Cabo da PM. 35 anos. Transferido de São Paulo há seis meses. Pai: juiz Otávio Mendonça. Mãe: falecida. Irmãos: uma delegada, um advogado. Histórico limpo. Sem manchas. Sem escândalos.
Perfeito demais.
Abri outro sistema. Mais profundo. Acesso que só eu tenho. Comecei a cavar. Boletins de ocorrência antigos. Movimentações suspeitas. Telefonemas. Contatos.
Se ele tem algum segredo, eu vou achar. Todo mundo tem.
E se ele não tiver…
Bom, aí eu crio um.
Sorri sozinho no escuro da sala. A tela do computador iluminava meu rosto, e eu via o reflexo distorcido no vidro da janela.
Carol. Logo você vai me notar. Logo você vai ver que o homem que você precisa sempre esteve aqui, observando, esperando.
E quando você cair nos meus braços, pensando que é amor…
Vai ser tarde demais pra fugir.
Fechei o sistema. Levantei. A noite estava apenas começando, e eu tinha muito trabalho pela frente.
Lopes. Dante. Zeus. Carol.
Todos peças no mesmo tabuleiro.
E eu, o jogador que ninguém vê.
Sentei de volta na cadeira, o corpo relaxado. Peguei o celular no bolso, a tela iluminando meus dedos. Abri o aplicativo de mensagens, aquele com número descartável, impossível de rastrear. O mesmo que usei todas as outras vezes.
Ela deve está em casa agora. Depois da noite na Pandora na viatura com o Lopes, depois de ter ficado quase uma hora na chamada, com certeza com as amigas ou com o próprio Lopes. Imagina a cara dela lendo minha última mensagem e perguntando, desesperada, quem eu era.
Sorri.
Meus dedos voaram sobre a tela.
— E aí, qual é a sensação de sentar pra um policial na blitz? — Digitei a pergunta e ela já começou a digitar.
A resposta veio em segundos. Ela devia estar com o telefone na mão, ansiosa, p**a da vida.
— QUEM É VOCÊ? PELO AMOR DE DEUS, RESPONDE! — mandou com a letra caixa alta, para eu entender que ela estava gritando.
Ri baixo. A imagem dela ali, nervosa, confusa, me dava um prazer que eu não sabia explicar. Ela, que comanda o morro inteiro, que mete medo em homem grown, completamente indefesa diante de um número desconhecido e algumas palavras.
— A gente se esbarra na próxima blitz, Carolina.
Mandei. E antes que ela pudesse responder, apaguei o chip, desliguei o celular, guardei no bolso.
A gargalhada escapou, baixa, controlada, mas genuína.
Ela não faz ideia. Não faz ideia de que o homem que manda as mensagens está aqui, na base, observando cada movimento dela. Não fazia ideia de que eu via tudo. A blitz. A viatura balançando. A cara abobalhada do Lopes saindo de lá.
Não fazia ideia de que, enquanto ela se preocupava com o Dante, com o pai, com o policial novo, o verdadeiro perigo estava em outro lugar.
Olhei para a tela do computador, onde a foto dela ainda estava aberta. Linda. Tranças, pele n***a brilhando, olhos de desafio.
— Você vai ser minha, Carolina — sussurrei para a imagem. — De um jeito ou de outro.
Levantei, apaguei as luzes, fechei a porta.
A noite já está acabando e o dia está chegando.
Continua...