Capítulo 08 Carol

1121 Words
Carol Narrando O cheiro de ódio do Dante ainda tava grudado na minha pele, mesmo depois de descarregar meio pente na parede de terra do treino. Precisava sair. Precisava de ar, de música alta, de uma dose boa de irresponsabilidade. O morro, naquele momento, era uma algema. E eu, Carolina Batista, não nasci pra ficar presa. A raiva do encontro com aquele nojento tinha virado uma energia elétrica percorrendo meu corpo. Não era a hora de pensar em comando, em Dante, em pai protetor ou em aliança quebrada. Era a hora de ser só Carol. A mulher que dança até o chão tremer, que ri alto, que olha nos olhos de um homem e vê desafio, não submissão. Vesti um short de couro preto coladíssimo, um top rendado que deixava pouco à imaginação, e um par de botas de camurça. Passei o batom vermelho-vinho, aquele que diz “perigo” sem precisar falar. Olhei no espelho. A mulher que me encarava não tinha nada de herdeira. Tinha fogo. — Hoje a noite é minha — falei baixo, pegando a chave da minha Fan 150 vermelha. Desci o morro como um raio. A adrenalina de desobedecer, de sumir, de ser uma fantasma na noite, era o meu vício mais caro. O vento cortava o rosto, levando com ele o resto da tensão do dia. Eu era só velocidade e desejo. Mas, menos de 500 metros depois… Vi os giros vermelhos e azuis piscando. — Ah, não… Blitz?! Sério?! Meu instinto foi quebrar. Desviar, sumir num beco. Mas aí pensei na merda que ia dar se me perseguissem, se o meu pai descobrisse… Respirei fundo e diminui. Tinha três viaturas. Um clima pesado. Policiais por todo lado. Era uma operação de verdade, não só enquadro de rotina. Parei a moto, desci com calma. Levantei as mãos, num gesto automático. Um policial mais velho, com cara de poucos amigos, se aproximou. Enquanto ele pedia meus documentos, meus olhos passearam pelo resto do grupo. E foi aí que eu vi ele. Parado um pouco afastado, encostado na lateral de uma viatura, com os braços cruzados. Alto. Muito alto. Um metro e noventa, fácil. O uniforme da PM parecia ter sido costurado nele, tão justo nos ombros, nos braços… Ele não estava revistando ninguém. Só observava. Com um olhar que não era de tédio, era de análise. Profunda, intensa. Como se estivesse lendo cada pessoa na blitz. Nosso olhar se cruzou. Não foi rápido. Foi lento, pesado. Ele não desviou. Eu também não. O policial mais velho devolveu meus documentos, deu uma lição de moral sobre velocidade. Eu só concordei com a cabeça, sem nem ouvir direito. Meus sentidos estavam todos focados no homem alto do outro lado. Quando o policial liberou, eu não saí direto. Apoiei a moto, dei uma arrumada no cabelo – desculpa esfarrapada – e comecei a caminhar devagar em direção à minha saída. Mas o caminho me levou perto dele. — Putä que pariu… Tu é gostosinho, hein! — Soltei tem pestanejar, o cara arqueou a sobrancelha, meio pego de surpresa. — E tu tá correndo por quê? Achou que ia fugir de mim? — Dei um sorrisinho travesso, mordendo o lábio. — Tava só testando os reflexos dos botas , ver se ainda tão rápidos. Ele chegou mais perto, olhando nos meus olhos, depois desceu o olhar devagar. — E agora? Tá satisfeita com o teste? — Ele falou e eu inclinei a cabeça, encarando ele sem medo. — Ainda tô analisando… Mas, na moral? Gostei do que vi. — Falei olhando ele de cima embaixo e ele fez o mesmo, me fazendo sorrir. — A senhora estava acima da velocidade permitida para essa avenida. — disse, firme, ao lado do carro. — Policial novo por aqui, né? Não conheço essa cara. — Soltei baixinho, passando por ele, com um sorriso de canto de boca. Ele virou a cabeça devagar. Os olhos escuros encontraram os meus. Não tinha irritação, não tinha arrogância. Tinha… curiosidade. — Pelo jeito, você conhece todos os daqui — a voz dele era grave, calma. Uma voz que você sentia no peito. Parei, me virei de frente pra ele, encostando na moto. O risco era altíssimo. Eu estava flertando com o perigo literal. E era uma p***a de um tesãø. — Não conheço todos. Mas observo bem — respondi, deixando o olhar descer do rosto dele até a cintura, e voltar. Demoradamente. — E você se destaca. Um quase-sorriso tocou os lábios dele, mas sumiu rápido. — Observação é perigosa. Principalmente em lugares como esse. — Tudo que é bom é perigoso, doutor… — deixei a frase no ar, provocando. — Lopes. Cabo Lopes. — Cabo. Então tá. — dei um passo pra trás, subindo na moto. — Boa noite de serviço, Cabo Lopes. Tomem cuidado com os bandidøs por aí. Liguei a moto. Ele ainda estava parado, me olhando. A expressão dele era indecifrável, mas os olhos… os olhos queimavam. — Você também — ele disse, e a forma como falou soou menos como um aviso policial e mais como um desejo pessoal. — Tome cuidado. Sorri, uma coisa larga e sem medo. — Sempre. E dei partida. Quando passei por ele, acelerando devagar, nosso olhar se prendeu pela última vez. Aquele segundo durou uma eternidade. Foi quando a ideia mais louca, mais proibida, mais eletrizante cruzou minha mente: Como seria dormir com um policial? A pergunta ecoou na minha cabeça como um tiro, mas em vez de medo, veio uma onda quente de pura adrenalina. O perigo, a autoridade, a força dele… tudo se misturou numa fantasia rápida e intensa. Pinotei na avenida, o coração batendo descompassado. A blitz ficou para trás, mas a imagem do Cabo Lopes não saía da minha frente. O jeito firme dele, o olhar penetrante, a voz grave. Até a raiva do Dante tinha sumido, substituída por uma agonia gostosa, uma vontade de voltar lá só pra provocar ele de novo. Cheguei na Pandora, a boate badalada da Lapa, ainda com a cabeça lá na blitz. Encontrei minhas amigas, abracei, sentei. Pedi uma dose. Mas enquanto a música pulsava e as luzes piscavam, meu pensamento não estava ali. Estava na curva da avenida, sob a luz azul e vermelha dos giros, encarando um homem que, por um instante, me fez esquecer quem eu era. E o mais perigoso? Eu gostei. A noite m*l tinha começado, e eu já tinha encontrado uma aventura muito mais excitante do que qualquer festa. E ela usava farda. O problema era só um: essa aventura podia me levar direto pra cela. Ou pra cova. E o pior? A parte de mim que adora brincar com fogo já estou disposta a pagar o preço. Continua...
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