Capítulo 09 Carol

1114 Words
Carol Narrando Cheguei na Pandora com o corpo todo elétrico. As luzes piscavam, a batida do funk estremecia o piso, e o ar gelado do ar-condicionado não conseguiu esfriar o calor que o simples olhar daquele policial tinha acendido em mim. Minhas amigas já estavam na mesa VIP, uma garrafa de espumante no centro. Júlia acenou, Tânia já dançava no lugar, e Raissa me olhou com aquele olhar de advogada que tudo vê. — Finalmente! — gritou Júlia. — A rainha do Dendê se dignou a aparecer! Abracei elas, mas minha mente estava a quilômetros dali. Na curva da avenida, sob aquelas luzes azuis e vermelhas, com um homem de quase dois metros me encarando como se fosse me devorar com os olhos. — Cadê você, hein, Carol? — Raissa perguntou, passando uma taça pra mim. — Tá com cara de quem viu um fantasma. Tomei um gole largo. — Fantasma não. Algo mais... sólido. — Ah é? — Tânia arqueou uma sobrancelha. — Conta. — Um policial. Na blitz. O silêncio que caiu na nossa mesa foi quase cômico. Até Júlia, que nunca se abala, quase derrubou a taça. — Um o quê? — Raissa inclinou-se pra frente, os olhos arregalados. — Morena, tu é doida. Cuidado com isso. Isso é fria total. — Sei dos riscos — respondi, olhando para a multidão que dançava, mas vendo só o uniforme justo nos ombros dele. — Mas tô cansada de só jogar seguro. Cansada de Dante, de regra, de homem que acha que me possui. Aquele ali... ele não me olhou como se me possuísse. Me olhou como um desafio. — E você gostou — concluiu Júlia, com um meio sorriso. — Gostei. Fiquei mais uma hora. Bebi, tentei dançar, ri de piadas. Mas era como se eu estivesse dentro de uma bolha. O som estava abafado, as luzes, distantes. Tudo em mim puxava de volta pra avenida. Para a tensão naquela troca de olhares. Para a voz grave dele dizendo "tome cuidado" de um jeito que soava a promessa, não a ameaça. — Vou no banheiro — menti, pegando minha bolinha. Saí da mesa e, em vez de virar para os sanitários, atravessei a boate e empurrei a porta pesada que dava para a rua. O ar quente da noite carioca bateu no meu rosto. Sentei na calçada, acendi um cigarro e olhei para o trânsito. Que diabøs você tá fazendo, Carol? a voz sensata na minha cabeça perguntou. Isso é uma linha que não se cruza. É burrice pura. Mas havia outra voz, mais profunda, mais teimosa, que sussurrava: E quando foi que você jogou pelo seguro? Sua vida inteira é uma linha vermelha. Pelo menos que essa valha a pena. Joguei o cigarro no chão e o apaguei com a bota. A decisão estava tomada antes mesmo de eu me levantar. Fui até a minha moto. — Para onde, moça? — um dos seguranças respondeu. — Estou voltando pra Av. Brasil, próximo saída do Morro do Dendê. Está tendo uma operação da PM lá. O segurança me olhou pelo de r**o de olho, desconfiado. — Tá tudo bem? — Tudo ótimo — respondi, olhando pela janela. — Só vou buscar algo que deixei pra trás. O coração batia forte contra as costelas. A adrenalina era a mesma de quando eu empinava a moto a 120 por hora, só que mais doce, mais perigosa. Resolvi parar a uma quadra de distância, desliguei a moto e desci. Caminhei o resto a pé. A blitz ainda estava lá, mas menor agora. Só uma viatura, e menos policiais. O movimento da noite tinha diminuído. E então eu o vi. Ele estava encostado na lateral da viatura, sozinho, com uma prancheta na mão, anotando algo sob a luz interna do carro. O queixo forte, a postura que mesmo relaxada exalava autoridade. A farda parecia uma segunda pele. Ele levantou a cabeça, como se tivesse sentido meu olhar. Quando me viu, parado a uns dez metros de distância, congelou. A caneta parou no ar. A expressão dele foi de puro choque, seguida por algo mais escuro, mais intenso. Caminhei até ele, devagar, cada passo ecoando no asfalto silencioso. — Esqueceu algo, foi? — a voz dele saiu mais áspera do que antes. — A sua noite de liberdade. Parei bem na frente dele, dentro do seu espaço pessoal. Dessa vez, eu não estava numa moto. Estava no chão, firme. — Esquecer? Eu vim buscar — falei, segurando o olhar dele. — Acho que deixei um interesse aqui. Ele soltou um ar meio rouco, quase um riso abafado. Baixou a prancheta no capô do carro. — Interesse é uma palavra forte pra quem tá brincando com fogo. Dei mais um passo. Agora, só uns centímetros nos separavam. Eu conseguia sentir o calor do corpo dele, ver os detalhes dos olhos escuros, a tensão na mandíbula. — E se eu não tiver brincando, Cabo Lopes? Ele não recuou. Pelo contrário. O olhar dele desceu para meus lábios, depois voltou aos meus olhos. A guerra interna nele era visível: o dever, a farda, o risco… e o desejo cru que a gente tinha plantado horas antes. Ele olhou rapidamente para os lados. O outro policial estava do outro lado da avenida, de costas, falando no rádio. Quando ele olhou de volta para mim, algo tinha se decidido. Algo perigoso e inevitável. Com um movimento brusco, ele abriu a porta traseira da viatura. A porta rangeu no silêncio. — Entra. Vamos ver se você aguenta o tranco. — A voz dele saiu rouca, baixa, só para mim. Um sorriso lento, de pura vitória perigosa, se abriu nos meus lábios. Inclinei-me para frente, sussurrando antes de entrar: — Tô achando que quem vai ter que aguentar é você, policial. Entrei na viatura. O banco de trás era duro, de vinil frio. O cheiro era de desinfetante barato, poeira e metal. A porta se fechou atrás de mim com um clunk final. Do lado de fora, por um segundo, eu o vi parado, respirando fundo, os punhos cerrados. Então ele abriu a porta da frente e entrou no banco do motorista. O motor não ligou. O interior ficou em silêncio, só iluminado pelas luzes azuis do painel e pelos refletores distantes da rua. O mundo lá fora desapareceu. É só o espaço apertado da viatura, o ar carregado de tensão, e o som da nossa respiração ofegante, misturada. Ele se virou no banco, o corpo grande dele se contorcendo no espaço limitado. Os olhos dele brilhavam no escuro. — Última chance de desistir, Carolina. Meu nome na boca dele soou a pecado. — Nem pensar, doutor. — Respondi e ele se moveu. Continua...
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