Zeus Narrando
Fiquei deitado no chão, ouvindo o barulho das viaturas se afastando. A poeira ainda subia, os tiros ainda ecoavam longe, mas perto de mim o silêncio era ensurdecedor. O Lopes tinha ido embora. E eu tava vivo.
Por quê?
Essa pergunta martelou na minha cabeça enquanto eu tentava mover o corpo. Tudo doía. O braço, as costas, a cabeça. Parecia que eu tinha sido atropelado por um caminhão. Mas eu tava vivo. E precisava sair dali.
Me arrastei. Devagar, igual minhoca. Usando os cotovelos, as pernas, qualquer parte do corpo que ainda funcionasse. Conhecia aquele morro como a palma da minha mão. Sabia cada beco, cada buraco, cada sombra. Por isso sabia que se ficasse ali, os homens do batalhão iam me achar mais cedo ou mais tarde.
Então fui. Me arrastando por trás dos carros capotados, pelas vielas estreitas, pelos cantos que só quem cresceu ali conhece. Cada movimento era uma agonia. Cada respiração, uma facada no peito. Mas eu não podia parar. Não enquanto a minha filha estivesse debaixo daqueles escombros.
Levei uma eternidade. Ou talvez só alguns minutos. Não sei. O tempo perdeu o sentido. Só sei que quando cheguei perto de casa, a vista já tava escurecendo. A porta tava entreaberta. Empurrei com o ombro e caí pra dentro.
A Janete apareceu na sala. Quando me viu, a cara dela mudou. Ficou branca. Depois vermelha. Depois os olhos encheram d'água.
— Rômulo! — ela gritou, correndo pra mim. — MEU DEUS, O QUE ACONTECEU? VOCÊ TÁ TODO MACHUCADO! CADÊ A CAROL? CADÊ MINHA FILHA?
Tentei falar, mas a voz não saiu. Ela me segurou, me abraçou, e eu senti o corpo dela tremer.
— Rômulo, pelo amor de Deus, me fala! Onde ela tá? Eu tentei ir até a casa alta. Mas tive que voltar, eu também precisava saber como você estava, e eu sabia que você ia vir para casa.
Respirei fundo. A dor no peito não era só física.
— Preciso de um banho — falei, a voz rouca. — Preciso do rádio. E preciso de uma medicação forte.
Ela me olhou, confusa.
— E a Carol?
— Depois. Agora me ajuda.
Ela não perguntou mais. Me levou pro banheiro, ligou o chuveiro, me ajudou a tirar a roupa rasgada. A água quente doeu, mas também acordou meus sentidos. Enquanto o sangue escorria pelo ralo, eu pensava.
Pensava no Lopes.
Por que ele fez aquilo? Por que não me entregou? Por que atirou pro lado e fingiu que tinha me matado?
Podia ser armadilha. Podia ser estratégia. Mas o olhar dele... o olhar dele não era de quem tava jogando. Era de quem tava tão perdido quanto eu.
Saí do banho. A Janete já tinha separado a caixa de primeiros socorros. Peguei o rádio.
— Neguinho, Babau, alguém me ouve?
O rádio chiou.
— Chefe! Tamo aqui! A patroa...
— Eu sei. Eu vi. Tão cavando?
— Tamo, chefe. A gente ouviu ela. Ela tá viva. Mas a perna dela tá presa. A gente tá tentando levantar uma viga.
Fechei os olhos. Viva. Ela tava viva.
— Não desistam. Eu vou aí.
— Chefe, o senhor tá todo moído. A gente dá conta.
— Eu vou aí. Desliga.
Joguei o rádio no sofá. A Janete veio com os remédios, começou a passar pomada nos meus machucados, a enfaixar meus braços.
— Por que ele te soltou? — ela perguntou baixinho.
Olhei pra ela.
— Não sei. Mas eu vou descobrir.
A Janete terminou de enfaixar meu braço e ficou me olhando como se tivesse medo de eu desaparecer na frente dela.
— Você não vai, né? — ela perguntou baixo, mas eu conheço minha mulher. Aquilo ali já era desafio.
Fui pro quarto. Abri o armário. Peguei uma calça, uma camisa escura. Enquanto eu vestia, ela veio atrás.
— Se você for, eu vou também.
Parei. Virei devagar.
— Você não vai a lugar nenhum. Vai ficar bem aí. Eu vou ajudar os meninos.
— Eu vou sim. — A voz dela não tremeu.
— Janete…
Ela já tinha entrado no closet. Abriu a gaveta e puxou uma calça de moletom preta. Vestiu rápido. Depois uma regata. Prendeu o cabelo num coque firme. Eu peguei um colete e joguei na direção dela.
— Coloca isso.
Ela vestiu sem discutir. Pegou um casaco, fechou o zíper até o pescoço. Depois puxou um boné, calçou um tênis.
Olhou pra mim, os olhos vermelhos, mas firmes.
— Vamos logo. Eu preciso saber como é que tá a minha filha.
Não discuti mais.
Peguei minha arma. Conferi o pente. Respirei fundo. A dor ainda tava ali, latejando, mas não importava.
Saímos.
Entrei no carro e ela no banco do passageiro. O motor rugiu quando liguei. Pisei fundo. Não era hora de cautela.
— Se eu mandar você abaixar, você abaixa — falei, olhando pra frente.
— Dirige — ela respondeu.
Subimos direto pro local. O morro ainda tinha fumaça subindo. O cheiro de pólvora misturado com concreto quebrado.
Quando virei a esquina da casa alta, vi a cena.
Meus cria espalhados. Uns fazendo contenção. Outros cavando. Babau sem camisa, coberto de poeira, levantando laje com mais três. Neguinho ajoelhado no chão, falando alguma coisa perto de um buraco.
Parei o carro antes mesmo de desligar. Desci sentindo o joelho reclamar.
— CHEFE! — alguém gritou.
Ignorei. Fui direto.
— Sai da frente! — eu falei, me aproximando.
Babau me olhou. Os olhos marejados.
— Ela tá viva, chefe. Mas tá fraca.
Ajoelhei no chão. Vi o rosto dela entre os escombros. Pequena. Suja. Sangue seco na testa.
— Carol — chamei, tentando manter a voz firme. — Pai tá aqui.
Ela mexeu a cabeça de leve. Os olhos abriram por um segundo.
— Pai… — saiu fraco.
Minha garganta fechou.
— Levanta essa viga de novo! — eu gritei. — PÁ! ENXADA! QUALQUER COISA! MAS LEVANTA ESSA PØRRA!
Os cria se posicionaram.
— No três! — Babau berrou. — UM! DOIS! TRÊS!
A viga subiu alguns centímetros. Neguinho enfiou a barra de ferro como alavanca.
Eu me enfiei mais perto, ignorando a dor no braço.
— Cuidado com a perna dela!
Ela tentou puxar o ar e gemeu.
— Eu não vou aguentar… — sussurrou.
A Janete caiu de joelhos do meu lado.
— Vai sim, minha filha! — ela chorava. — Fica com a mamãe! Fica comigo!
— Prepara o carro! — eu gritei. — Prepara agora! Liga pra clínica! Prepara hospital, sala cirúrgica, o que tiver! Quero médico esperando quando a gente chegar!
— Já tô ligando, chefe! — um dos cria respondeu, afastando-se com o telefone na mão.
A viga subiu mais um pouco. Dois homens puxaram a perna dela com cuidado.
Ela gritou.
Um grito que eu nunca vou esquecer.
Quando finalmente tiramos o peso de cima dela, o corpo dela ficou mole nos braços do Babau.
— Pega ela! — eu falei.
Ele me entregou. Eu segurei minha filha no colo como quando ela era pequena. Leve demais. Fria demais.
— Carol? — chamei.
A cabeça dela tombou pro lado.
Os olhos fecharam.
— NÃO! — Janete gritou, segurando o rosto dela. — NÃO, MINHA FILHA!
Eu senti o mundo girar de novo, igual dentro daquele caveirão.
— Ela só desmaiou! — alguém falou, mas a voz parecia longe.
A Janete levantou o rosto pro céu, desesperada.
— MEU DEUS DO CÉU… SALVA MINHA FILHA!
Continua...