— Não é nada do que a senhora está pensando, Ciara, nós nos encontramos, nos gostamos e começamos a namorar, nada demais.
Ela me olha desconfiada. Sei que não caiu na minha lábia, mas terei tempo outra hora de convencê-la. No momento, posso me esquivar usando a Poly como desculpa.
— Não sei se é aconselhável que as duas vá na ambulância.
— Deixa a Ciara ir, eu vou de carro. — Ela me lança um olhar agradecido e eu vou até onde o carro que Rafael deixou a minha disposição está estacionado. Um motorista me aguarda em frente a ele.
— Para onde Senhora? — Ele me pergunta.
— Para o HST.
Ele faz um aceno com a cabeça, e abre a porta do carro para mim e agradeço sem graça, ainda desacostumada, assim que entro ele também o faz e acelera o carro.
Da janela do carro eu vejo as pessoas transitando na rua, cada um alheio a existência do outro. Fico pensando até quando a minha vida será assim, afinal deve ter saído apenas um poste na internet sobre o meu romance, mas e quando sair em revistas, jornais e televisão? Será que eu conseguirei andar na rua tranquilamente? É bem provável que não, considerando o número absurdo de fã clubes do Rafa.
Imagina quando o pessoal da faculdade souber? Não consigo conter uma risada fraca, Kyara vai surtar, já consigo até imaginar sua reação. Mas não preciso imaginar por muito tempo, já que na segunda eu saberei não só a reação dela, como a de toda a faculdade. Espero que as coisas não mudem tanto... Com uma vida tão pacata e previsível, já me sinto tonta com a quantidade de mudanças que ocorreram nos últimos dias.
O Carro para em frente ao Hospital e eu vejo a Ambulância que estava com a Poly já parada lá, o que significa que já chegaram.
Fui até a recepção me informar e segui até o financeiro, para quitar o valor inicial do tratamento, se não fosse pelo Rafael eu jamais conseguiria, nem um banco me emprestaria um dinheiro desse, e não existiria nenhuma outra forma de conseguir essa quantia tão rápido. Envio meus agradecimentos a espiritualidade por ter tido uma oportunidade assim, temo o que poderia fazer para conseguir o dinheiro de outra forma.
Volto a recepção e sou informada de que a Poly já está fazendo alguns exames e não poderá receber visitas no momento. Apesar de ainda estar ansiosa, já me sinto um pouco mais aliviada em saber que ela está sendo atendida por especialistas.
Sento-me na sala de espera junto a Ciara.
— Onde você estava?
— No financeiro. Cadê o Pedro? — Mudo de assunto propositalmente, perguntando de seu esposo.
— Trabalhando, vou passar mais tempo fazendo o mesmo, precisamos te ajudar a pagar o tal empréstimo.
— Vocês não precisam me pagar nada, deixa isso comigo Ciara
— Mas menina...
— Sem 'mas', eu estou lidando bem com isso, tenho como pagar o tratamento da Poly, fique tranquila.
— Não é obrigação sua, Lara.
— Não disse em momento algum que era. Mas prometi a Poly que ela não iria morrer, e vou cumprir.
Ela encosta a cabeça no meu ombro e começa a chorar. Não resisto e afago seu cabelo, se eu que sou apenas uma amiga/irmã estou sofrendo tanto com essa doença, imagina para uma mãe.
— Vai dar tudo certo. Já está dando.
— Que Deus te pague, menina.
— Amém!
As horas passam e eu levo a Ciara para comer alguma coisa na lanchonete do hospital. Ela fica relutante no começo, mas eu consigo convencê-la com um "você quer ficar internada junto com a Poly?".
Já era tardezinha quando o médico disse poderíamos vê-la. Fiquei feliz por deixarem nós irmos juntas, pois a este ponto eu já não me aguentava de ansiedade para me certificar de que ela esteja bem com os meus próprios olhos.
— Poly! Você ta bem? — Pergunto assim que entro. Seu rosto não parecia muito melhor do que há algumas horas.
— Estou sim. Só um pouco cansada. Como vão conseguir pagar esse hospital? Tem uma TV em frente a minha cama, ele deve ser caro.
Pobre não sabe mesmo receber as coisas sem falar do preço o tempo todo, meu Deus.
— Isso não importa. O importante é que vamos conseguir e você vai se curar. Quer saber de uma coisa? Falei com o Doutor Carter e ele disse que as suas chances de cura são enormes, e que não precisamos nos preocupar, dentro de alguns meses você já poderá fazer o tratamento em casa!
O rosto dela se ilumina um pouco, apesar de ainda estar um pouco ausente de cor. Essa iluminação repentina significa que ela adquiriu esperança, e sei que esse é um fator crucial para a sua recuperação.
— Isso é sério? Mas como conseguiram a minha entrada aqui? — Ela pergunta olhando para mim, ela sabe que eu sou a mais teimosa e se alguém conseguiria seria eu.
— Consegui um empréstimo.
— E quantos empréstimos serão necessários para me manter aqui? — Ela pergunta preocupada. — Quantos empréstimos serão necessários para pagar os remédios que sei que não são baratos, para que eu possa ter um tratamento adequado? Cai na real, Lara. Não tem nada que você possa fazer para que eu consiga sair daqui com vida. Pra quê todo esse esforço se vai ser em vão?
Aquilo dói. Vê-la dessa forma dói. Esse pessimismo não vai levá-la a lugar nenhum. Mas consigo ver a dor em seu rosto, o quanto ela acredita nisso, que sua vida é um desperdício de tempo.
— Qualquer sacrifício para salvar a sua vida, não é em vão e não repita isso de novo. Eu amo você, e nem ferrando eu vou viver sem você, então nem tenta me convencer. Tenho dinheiro suficiente para pagar sua estadia aqui nesse hospital, então nem vem com pessimismo, porque querendo ou não, você ainda vai viver por muitos anos Polyana.
Ela olha para mim em choque, e com curiosidade.
— E como você conseguiu esse dinheiro? Por que nem vem me dizer que foi um empréstimo, porque o dinheiro que você vai gastar comigo, banco nenhum emprestaria para uma desempregada.
Mordo o lábio, espero que ela não pire.
— Lembra o que eu te falei sobre o Rafael?
— Lembro e ainda estou esperando você me dizer que estava brincando.
Encaro-a. Mesmo doente ainda é cheia de piadinhas.
— Pois não é brincadeira. O fato é que ele me viu triste e me perguntou o porquê, falei sobre você e ele se ofereceu para me emprestar o quanto fosse necessário para o seu tratamento.
Ela me olha constrangida e preocupada.
— E você aceitou? Quer dizer pelo amor de Deus, Lara. E se isso não der certo? Como você vai pagar se terminar com ele de repente? O que está acontecendo com você? Você não é assim.
— Situações inusitadas, pedem medidas desesperadas. Já estou procurando outro emprego, um que não vá envergonhar o Rafael. E que eu possa começar a pagar para ele. Eu vou pagar, mesmo que a gente termine um dia, eu vou continuar a pagar. O Rafael é diferente do que as pessoas imaginam, ele não é o tipo mesquinho e não aceitaria um não como resposta;
— No início do namoro ninguém é.
— Já chega, Poly. Você é que não é assim, sempre foi animada, sempre foi para cima, e não vai ser agora que vai mudar. Quero que pare agora de ser pessimista e volte a ser minha amiga que nunca deixa nada a abalar.
Ela abaixou a cabeça.
— Só não sei se tanto sacrifício vai valer a pena no final.
Controlar as lágrimas estava ficando cada vez mais difícil, juro que se a Poly não estivesse nessa cama, eu iria dar uma bela de uma surra nela.
— Se é para você, vale a pena, já disse. Você escutou o que eu disse quando cheguei, em poucos dias você vai para casa, vai viver Poly. Mas você quer viver? Porque mesmo que me diga não eu vou fazer você viver, nem que eu precise mover o mundo pra isso. Já te disse, esse mundo só tem sentido se você estiver nele. Quer que vala a pena esses "sacrifícios"? — Fiz aspas no ar tentando fazê-la pensar que não são sacrifícios de verdade — Então para de se abater e começa a querer viver, porque não vai funcionar se apenas eu querer que você viva. E eu sei que é muito mais fácil pra mim dizer isso do que você fazer, mas eu preciso que queira viver, amiga. Que acredite em mim quando eu digo que eu não vou deixar você morrer antes mim e eu não pretendo morrer antes dos 50.
Ela começa a chorar e estende as mãos para que eu a abrace e não demora um só segundo para que eu aceite. Já passei por muitos momentos complicados com a Poly, ela já me ajudou a enfrentar cada uma das decepções que eu tive com a minha mãe. Não tenho nenhuma família a não ser ela, e não vou perder ela também. Já perdi minha mãe para as drogas, já cansei de tentar tirá-la sem sucesso, perder a Poly para o câncer é algo que eu não posso permitir e não vou.
Ciara estava sentada em um sofá no canto, apenas chorando em silêncio, nem lembrava mais que ela estava ali. O médico apareceu e disse que teríamos que nos retirar agora. Olhei para Ciara e percebi que tomei todo o tempo dela. Então ela até a filha dá um beijo no rosto e se despede, falando o quanto a ama e quanto ela precisa lutar para viver.
Alguns minutos depois nós saímos do quarto e deixamos o médico fazer o trabalho dele. A Ciara olha para mim, com os olhos cheios de lágrimas e seguram meu rosto com as duas mãos.
— Filha eu não sei o que seria da minha menina sem você. Nunca poderei pagar o que está fazendo por ela, e não estou falando de dinheiro.
— Não preciso que me pague Ciara, nem mesmo se tratando de dinheiro. Eu amo sua filha, ela é mais do que uma irmã para mim, e perdê-la é algo que eu não suportaria. Portanto fique tranquila eu te prometo que nada irá faltar a ela. Não mais.
Abraço-a e levo-a até em casa.
Passo pelo bairro simples, esburacado, e sinto vontade de ver minha mãe. Como sempre que sinto essa vontade, meu subconsciente me avisa: Lara, não é uma boa ideia.
Mas como sempre, eu não escuto.