Ferida antiga

1553 Words
E como sempre eu me arrependo. Parei na casa pequena, espremida entre dois sobrados, de portão de ferro e pintura descascada. Bati duas vezes esperando ela sair. Fechei os meus olhos sabendo que não deveria fazer isso, mas mesmo assim eu faço. Pergunto-me de quem herdei essa forte tendência a autossabotagem e teimosia. Abro a porta, apenas girando a fechadura, pois como sempre está aberta, o que já me diz que ou não deve fazer muitas horas que ela chegou em casa, ou ela sequer se importou em fechar antes apagar. Arrependo-me imediatamente de ter entrado no instante que meu olhar cruza o sofá velho e mofado da minha mãe e a vejo nua com um rapaz que deve ser pouco mais velho que eu. Ela não estava fazendo nada, apenas dormindo, mas o fato de ambos estarem sem o menor sinal de roupa, indica muito bem o que estavam fazendo antes de caírem no sono. Sinto um arrepio de vergonha surgir no corpo, conhecido de antigas lembras que também envolvem a minha mãe nua com estranhos. Não, não é o fato da minha mãe ter uma vida s****l ativa que me enoja, mas sim o que essa vida s****l significa. O que o sexo sustenta. Vou até o quarto, sem me preocupar em não fazer barulho e mesmo assim eles não despertam. Jogo uma coberta em cima das partes mais necessitadas e abro as janelas enviando claridade ao ambiente. Minhas narinas cantam de alivio quando o arejar do dia adentra a sala. Mas ainda assim eles não acordam. Não vou tocá-los para saber se estão vivos, e não é apenas por que eu to com nojo de tocá-la agora, é também porque já passei por situações como essa, vezes suficientes para saber que a dificuldade de acordar é apenas efeito da droga. Uma hora, ela acorda. Talvez seja por todos os sentimentos que me invadem agora, mas não sei se me importaria muito. Abro o armário e não há nada lá. Na casa da minha mãe é assim, não tem praticamente nenhum móvel na casa, apenas um armário velho, um fogão enferrujado, o sofá mofado que ela está dormindo e um coxão furado no quarto. Até suas roupas são guardadas em caixas por que tudo que havia nessa casa foi vendido para pagar as drogas que ela usa. Nunca há alimento mais do que suficiente para uma refeição. Até por que, se tiver, vai acabar virando renda de uma forma ou outra, nem que seja pela pior sujeira de qualidade duvidosa que esteja a venda na biqueira. Não é fácil ver minha mãe nessa situação, depois de sofrer todos os sentimentos possíveis, há alguns anos eu não sei mais diferenciá-los, só sinto essa anestesia de decepção e uma necessidade quase que instintiva de mantê-la viva. Meu maior medo é uma chegar aqui e vê-la baleada por um traficante que não aceitou sexo como pagamento. Ou então caída sem vida, por conta de uma overdose. Mas não restam mais nenhuma alternativa para mim. Ela não admite viver sem as substancias que usa e eu não admito vê-la assim. Fui embora de casa, antes dos quinze anos, morei um tempo na casa da Poly, até preferir ter meu cantinho. E conseguir pagar por ele. Tudo por conta de uma briga com minha mãe, quando ela tentou me vender para um traficante em troca de alguns pacotinhos. Não, eu nunca a perdoei por isso, simplesmente não consigo, não com as lembranças de ser quase violentada por um homem com o dobro do meu tamanho, usando ameaças de que mataria a minha mãe se eu não pagasse a droga com o meu corpo. Mas ainda assim eu a amo, mesmo com a magoa, mesmo sem conseguir dividir o mesmo teto que ela, eu a amo. Como não amaria? É a minha mãe apesar de tudo, e seja por qual for o motivo, decidiu não me matar quando teve a chance de fazer um aborto. De certa forma, devo ser grata a ela por isso. Pego uma panela velha e amassada e uma colher de p*u toda queimada. Bato uma na outra fazendo um barulho infernal. Depois de alguns segundos eles acordam resmungando, do barulho, da luz e da interrupção abruta de seus sonos. — Larinha? — Minha mãe esfrega os olhos. Olhando para mim como quem viu um fantasma. Drama, não faz muito mais de cinco meses que eu vim aqui. O rapaz que ainda parecia estar acordando abriu os olhos imediatamente e olhou para mim com os olhos esbugalhados. — Você é aquela namoradinha do cantor famoso? — O cara pergunta. — Não. — Respondo. — É ela sim. Ela vai te pagar o que eu te devo. Falei que ela iria vir até mim. Não disse que iria me arrepender de ter vindo? Meu sangue esquenta instantaneamente. — Não vou pagar droga nenhuma, mãe. Já te disse isso, e não faz muito tempo; se bem me lembro esse é o exato motivo pelo qual eu demorei tanto tempo para vir te ver. Ela levanta irritada, não se envergonhando nem um pouco de seu corpo nu. — Eu te dei comida, te dei a vida, e agora você me recompensa assim? Me deixando a míngua? Olha para esse armário a sua mãe não tem nada para comer! Vou até a porta e encontro o motorista em pé na frente do carro. — Você pode fazer-me um favor? Vai naquele restaurante ali do lado, e pega uma quentinha para mim. Ele assente com a cabeça e entra para dentro do carro. Adentro a casa novamente e eles estão na mesma posição. — O motorista vai buscar uma comida para você, não vou deixar você morrer de fome, mas também não vou bancar a sua morte! — Se não pagar a dívida dela, aí, sim, ela vai morrer. — O cara de p*u tem a coragem de levantar também e me ameaçar pelado! — Suponho que ela já deva ter pago ontem a noite. — Ironizo e o desgraçado ri. — Aquilo? Não pagou nem duas gramas. Fecho os olhos me amaldiçoo por fazer isso de novo quando prometi para mim e para Poly, até mesmo para a minha mãe que nunca mais pagaria droga alguma para ela. Pego minha bolsa. — Quanto você deve? — Dois mil. — Ela responde como se tivesse dito dois reais. Pego a bolsa e verifico o que eu tenho na carteira, o dinheiro que saquei hoje cedo, quando ia para o hospital. Mil e duzentos, apenas o que tem na carteira. Pego o dinheiro dobrado do jeito que está e estendo para ela. — Aqui tem mil e duzentos reais, é tudo o que eu tenho, namorar um famoso não me faz ser rica, porque mesmo sendo sua filha, não tenho o costume de montar em cima das pessoas. — Ela sorri e pega o dinheiro. O motorista aparece com a quentinha que pedi e eu estendo a ela. — Eu queria que as coisas não fossem assim, mãe, queria poder te amar sem essa magoa no peito, mas é assim. Quer saber? Eu cansei. Por hoje, você não vai morrer de fome, aqui uma quentinha para abastecer seu estomago. Por hoje você não vai morrer assassinada, por que no mínimo esse dinheiro vai acalmar os traficantes. Mas se amanhã ou a depois, você vai morrer, a escolha é apenas sua. Você não é minha responsabilidade e a partir de hoje eu não venho mais aqui. Vai chegar uma quentinha por dia, se você vai comer ou vai trocar por alguns minutos de lombra, eu não me responsabilizo mais. Viro as costas sem ouvir um "espera" ou um " desculpa filha" muito menos um "eu te amo". Mas também, eu não esperava receber algo que eu nunca recebi. Chego no apartamento alguns minutos depois, a dor ainda está no meu peito, e as lágrimas ainda ardem em meus olhos. Subi o elevador cansada, querendo dormir e esquecer como minha vida está um saco. Em momentos como este eu costumava ter a Poly para me abraçar, para me dar uma bronca por ser fraca de novo. Para dizer que estaria comigo sempre. Nesse momento, mais do que nunca, eu precisava da minha amiga, para dividir comigo a carga que eu carrego em meus ombros. Porém agora a carga que há nos ombros dela é demais até para que ela, minha superamiga, consiga carregar; vou ter que me virar com minha própria carga dessa vez. Quando abro a porta do apartamento, Rafael estava deitado no sofá da sala, ao erguer a cabeça e olhar em meus olhos ele levanta e vem até mim, puxando minha cabeça contra seu ombro e acariciando meus cabelos. — O que aconteceu Lara? — Ele sussurra, acho que a intenção dele era ser suave, mas sua voz rouca soou quase como um canto. Não consegui responder. Não consegui abrir a boca, e nem mesmo negar com a cabeça. A única coisa que eu fiz foi chorar. Nos braços de um cara que eu conheci ontem, e que nesse momento, me faz sentir mais segura do que nunca. _____________________________________________ Me abraça e chora Toda a sua dor, meu amor Estou aqui, para abrandar Tudo o que você passou E prometer que irá passar. – Fica comigo (Rafael Nero)
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD