Capítulo 05

1023 Words
Renata Narrando Cheguei no baile com a Kelly me puxando pela mão e aquele sorriso dela estampado no rosto. A batida do funk tava tão alta que eu sentia o grave vibrar no peito. O lugar tava lotado, luz colorida pra todo lado, cheiro de churrasco, perfume doce e cerveja gelada. Era outra realidade. Mas, quer saber? Eu tava disposta a viver. Assim que a gente entrou no camarote, o olhar dele me cortou no meio. Era impossível ignorar. Um negäo alto, forte, tatuado, barba fechada, cara de malandro e um sorriso debochado. O tipo que mexe com qualquer estrutura, menos com a minha. Pelo menos, era o que eu queria acreditar. Ele me olhou como se já me conhecesse. Com um olhar direto, desses que atravessa. E aí Kelly resolveu apresentar. — Renata, esse aqui é o Heros, o dono do morro e meu cunhado. Heros, essa é minha amiga de Salvador. — Satisfação, Baiana – ele disse, com aquele tom cheio de segundas intenções. Dei aquele sorriso educado, mas por dentro revirei os olhos tão fundo que quase vi meu próprio cérebro. Apertei a mão dele, firme, e já senti que o homem se achava. E bonito ele é, isso não dá pra negar. Mas tem coisa que estraga mais homem bonito do que convencimento? Não tem. Ele continuou me olhando como quem me despia com os olhos. Virei o rosto, fiz a linha plena e disfarcei. — Kelly, vamos dar uma volta?– perguntei, querendo sair daquele olhar que me despia e quase me deixava pelada ali mesmo. — Vamos, a Eduarda e a Larih tão lá. Bora! São minhas primas, vou te apresentar. Caminhamos pro outro lado do camarote. As meninas estavam animadas, todas simpáticas, e me cumprimentaram como se me conhecessem há anos. Conversei um pouco, mas não sou de me entrosar rápido. Ainda mais ali, num lugar novo, com gente demais e um certo negäo que me vigiava com o olhar como se eu fosse parte do território dele. Fingi costume, dei um sorriso, mas fiquei mais na minha. — Quer uma cerveja? – Kelly me ofereceu. — Quero, por favor. Fomos até o bar do camarote. Peguei a latinha e dei um gole, sentindo o amargor descer rasgando. Não era meu tipo de bebida favorita, mas combinava com o clima do lugar. De repente o namorado da Kelly chegou, puxando ela pela cintura. — Aí, minha doida, vem dançar comigo. Ela riu e já foi, toda animada. Eu fiquei no meu canto, observando tudo, sentindo a vibe, me permitindo curtir o momento. A galera tava dançando, se pegando, rindo alto. O DJ mandava as melhores. E eu ali, encostada na grade, com a cerveja na mão e o coração um pouco mais leve do que tava nas últimas semanas. E mesmo tentando ignorar, o olhar do Heros me queimava de longe. Aquele homem tem cheiro de problema. E eu jurei que ia ficar longe de qualquer encrenca..Mas juro também que faz tempo que alguém não mexia tanto com meu ego. Só que eu ainda sou mais cabeça do que desejo. E se ele acha que vai me ganhar com esse sorrisinho de canto e ar de dono do mundo, ele que lute. O DJ anunciou o MC, e quando o cara subiu no palco, a galera veio abaixo. O campo inteiro gritou. A batida já chegou no peito rasgando, daquelas que a gente sente no corpo inteiro. A primeira música foi uma das minhas favoritas, daquelas que a gente rebola até o chão sem pensar duas vezes. Não teve jeito. Soltei o corpo. Kelly tava lá com o namorado, agarrada, sorrindo à toa. Eu aproveitei pra me jogar com as primas dela. As duas estavam dançando juntas e rindo, então fui no embalo. Senti o grave me puxar, o som dominar meu corpo, e ali eu esqueci tudo: ex, traição, briga, dor. Era eu, a batida e o meu rebolado. Desci até o chão, devagar, com a mão na coxa, o cabelo balançando nas costas. A calça coladinha marcava meu corpo, e a blusa tomara que caia mostrava as tatuagens no ombro e no braço. Eu sabia que chamava atenção, e naquele momento, eu queria mesmo. Soltei o quadril, encaixei no ritmo, e fui fazendo o quadradinho, no tempo da música, com aquele sorriso de canto que eu solto quando tô me sentindo. As meninas me incentivaram, gritaram, e eu continuei. De costas, fui descendo de novo, com a mão apoiada no joelho, mexendo o quadril lento e envolvente. Dançar é minha terapia, meu desabafo, meu grito. Foi aí que senti. Um cheiro forte, amadeirado, e um calor nas costas. Heros. Não precisei olhar. Senti a presença dele. Ele chegou perto, bem devagar, e parou atrás de mim, sem encostar, só observando. Eu senti. O olhar dele queimava. Fui desacelerando os movimentos. Fiquei mais contida. Continuei dançando, mas mais suave. O que era pra ser só curtição virou tensão. Ele se aproximou ainda mais, chegou no meu ouvido, a voz grave, baixa e carregada de malícia: — Tá chamando atenção demais, Baiana. Virei devagar. Olhei bem dentro dos olhos dele. Aquele olhar de quem manda, de quem provoca e testa os limites. Cruzei os braços e perguntei, com um sorrisinho debochado: — Isso é um problema? Ele não piscou. Manteve o olhar firme e respondeu: — Não, desde que você dance assim só pra mim. A vontade era de rir. Mas não ri. Soltei o ar devagar, virei o rosto, e com aquele tom de quem não se entrega fácil, falei: — Tô cansada. Vou me sentar um pouco. Ele abriu um sorriso safädo, de canto, e se afastou. Saiu como se tivesse ganhado alguma coisa, mas eu sei bem jogar também. Me sentei em uma cadeira, com o coração batendo rápido, não de nervoso, de instinto. Ele é perigo puro, desses que a gente sente no cheiro, no jeito de andar, no olhar. Mas se ele acha que vai ser fácil, tá muito enganado. Ele quer jogar? Vamos jogar. Quero ver quem vai desistir ou Seder primeiro. Eu garanto Heros, que não vai ser eu.
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