Gabriel A penumbra do esconderijo era a única testemunha da inquietação que me consumia. Apaguei a última luz que restara na sala principal e me sentei à escrivaninha improvisada, o mapa da favela aberto diante de mim, mas meus olhos se voltaram para outra obsessão: a figura de Carol sentada na beirada da cama, olhando para o chão. A respiração dela soava contida, quase militar, como se guardasse junto ao peito um fardo inconfessável. Ela voltara há pouco da consulta com a enfermeira — voltara pálida, exausta, abraçando a bolsa de couro como se fosse o último abrigo. Nos seus olhos havia algo que há dias eu tentava decifrar: o reflexo de um segredo que cortava os contornos de nosso mundo. — Está tarde para continuar nesse estudo de rotas — falei, tentando soar leve, mas sentindo o coraç

