Carol A aurora ainda hesitava no horizonte quando arrumei a pequena bolsa de couro sobre o ombro. O morro despertava em sirenes distantes e o eco de botas de capanga, mas eu precisava sair. Cada passo rumo à rua asfaltada lá embaixo era um ritual de ausência — um momento roubado ao perigo onde eu poderia, por breves instantes, ser apenas a mulher que sente o corpo mudar. Vesti meu sobretudo mais discreto, encobri o cabelo num lenço escuro e senti o peso do segredo apertar o peito. Por trás de mim, a comunidade ainda dormia: barracos de zinco reluziam a umidade da madrugada, e as latas vazias balançavam no vento, compondo um som quase hipnótico. Segui pela trilha de terra até o portão de ferro onde ninguém me reconheceria: poucas pessoas sabiam que eu vinha aqui. Mais abaixo, numa rua de

