Palhaço
— Cadê o Moura? — perguntei entrando na boca.
— Já tá lá dentro da salinha com o LP — um vapor me respondeu.
Entrei na salinha e logo me sentei na minha cadeira.
— O que tá rolando mesmo?
— Ameaça de invasão de novo — respondeu o Moura me encarando.
— De quem?
— Os cana — respondeu o LP acendendo um cigarro.
— Esses cara tão de caô comigo. Eu pago aquele filho da p**a pra poder ficar na paz aqui em cima e ele não consegue nem fazer o trabalho dele direito.
— Eu mandei chamar o corrupto lá pra nóis trocar um lero — falou o Moura me mostrando as mensagens.
Concordei com a cabeça e já fiquei cheio de neurose. Teve uma época que os fardados estavam sinistros nas favelas; sempre invadiam e não ligavam se tinha morador na rua, já subiam metendo bala pra todo lado.
Botei um penetra dentro do complexo deles e descobri uns segredos de um delegado, o que me favoreceu bastante. Juntei todas as provas necessárias e comecei a mandar ameaças pra ele. Depois me encarreguei de fazer ele subir aqui no morro e fiz a proposta: meu silêncio em troca da "lealdade" dele. Ele me passa informações de possíveis invasões e eu dou uma certa proteção à família dele e fico de boca fechada.
Radinho on
"Ei chefe, o fardado chegou" — o menor falou pelo rádio.
"Manda entrar"
Radinho off
— Eai, Palhaço — falou o fardado se sentando.
— Quero que você vá logo direto ao ponto — falei já todo afobado.
— Os policiais estão planejando invadir aqui novamente, só que dessa vez mais bem preparados.
— Mais preparados como? Porque essa última invasão que teve pegou todo mundo desprevenido.
— Armamentos mais pesados. Agora a BOPE pretende subir de caveirão e sem piedade. E ninguém além dos policiais que estavam na missão sabiam sobre a última invasão que rolou.
— E desde quando eles tiveram piedade com a nossa comunidade? — respondeu o Moura ironicamente.
— Deixa eles vim. Subir vai ser a parte fácil, o difícil vai ser eles saírem vivos daqui — falei enquanto bolava um baseado.
— Eles querem pacificar isso aqui de um jeito ou de outro, querem a cabeça de vocês dois. Estão fazendo de tudo para descobrirem a verdadeira identidade de vocês.
— Já é. Vou tá esperando eles aqui em cima. Mas qualquer informação pode acionar a tropa.
Já tem um tempo que esses caras não passam da barricada, mas se eles subirem e tentar entrar aqui, nóis vai furar sem piedade nenhuma.
Precisava de um tempo pra pensar e por a cabeça no lugar. Na real, eu até estava pensando em tirar um final de semana só de lazer com a minha família, mas depois dessa possível invasão é melhor eu ficar bem alerta.
Uma boa parte saiu da salinha, só ficando eu e o Moura.
— Eu quero providenciar armamentos novos e deixar tudo bem guardado.
— É o certo a se fazer. Vou procurar os melhores do ramo pra poder encomendar os brinquedos novos.
Concordei e depois resolvi ir subindo a pé pra casa para poder ver o movimento da minha favela.
Apesar de todos esses problemas que estão surgindo, o morro está na paz, pelo menos por enquanto.
Passei em frente a quadra e tinha vários moleques jogando bola e uns empinando pipa. Saudade da minha infância, papo reto.
Eu estava de bobeira paradão no portão da quadra vendo os moleques jogar bola e só senti a bolada na minha cabeça.
— Ai c*****o! — falei passando a mão no meu globo.
— Foi m*l aí, chefe. A bola não foi no ângulo que eu calculei pra ela ir — falou o Guto coçando a nuca.
— E posso saber o que tu tá caçando aqui em vez de tá fazendo seus corre? — falei cruzando o braço.
— Tá chapando é? Já deu minha hora... há tempos! — falou estalando os dedos um no outro.
— Se liga seu menor desgraçado, tu não tá falando com qualquer um não.
— Tô no meu horário de lazer, morô?
— Tá merecendo um cascudo pra ficar esperto.
Guto é um moleque mil grau aqui da quebrada. Menino novo, pô, tem dezesseis anos. Se envolveu por necessidade mesmo; mãe e pai morreram, aí só restou o avô dele que é aposentado. Mas o dinheiro da aposentadoria dele é basicamente todo pra comprar os remédios que ele precisa, então não sobrava o suficiente pras despesas de casa e alimentação.
— Vim reparando na sua amiga lá... gatona ela né? Andei investigando e vi que é solteira. Será que tenho chance?
— Sai dessa, fedor de mijo! A Cecília não é pedófila não.
— Eu não tenho boca pra mentir, não é? Só falar que o pretinho aqui tem dezoito nas costas. O porte eu tenho, pode falar — falou sorrindo igual um bobão.
Tô ficando é b***a mesmo viu...
— Eu vou ralar daqui antes que eu te pendure no teto dessa quadra, seu moleque.
Gosto de mais desse pivete. Se pá, confio mais nele do que em muitos que já estão a mó cota no corre.